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Sábado, 17 de Maio de 2008, 18h:05 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:20

Artigo

Escândalos, mentiras...

   Em seu artigo na “Folha de S. Paulo”, na sexta-feira (16), Nelson Motta lembrou que o drama dos cronistas sempre foi o assunto: “Mas hoje, embora eles abundem, parece que todos embarcam sempre nas mesmas canoas. Começa a ficar bem chato e previsível. Tudo sempre parece girar em torno do Governo, do oficial, do institucional, para o bem e para o mal, como se o mundo em volta não existisse”.
Ele até assinalou que grandes cronistas, como Rubem Braga e Fernando Sabino, também tinham seus problemas com os assuntos, mas encontravam em seu talento e sua sabedoria as formas de entreter e divertir o leitor.

   “Mas, se escrevessem hoje, coitados, como todos nós nessa árdua atividade, seriam quase obrigados a comentar os escândalos políticos, as falcatruas, mentiras e sem-vergonhices que explodem todos os dias nos jornais, rádios, TVs e blogs”, destacou.
Faz sentido. Se tivesse assunto melhor, eu evitaria falar, por exemplo, da cassação do mandato de Walter Rabello pelo TRE, semana passada. Deixaria de citar que o deputado do PP transpareceu que não estava nem aí para o que pudesse ocorrer na sessão do órgão, na terça-feira 13 (faltou só ser uma sexta). Com efeito, naquela noite, como foi divulgado, o político estava a centena de quilômetros de Cuiabá, atuando como cantor sertanejo, uma de suas múltiplas faces.
Não citaria, aliás, que, após tomar conhecimento do resultado “trágico” (para ele, claro), o (ainda) parlamentar reassumiu seu lado demagógico e disse que, por tabela, a Justiça Eleitoral estava cassando o povo. Nem lembraria que o povo não tem nada a ver com as papagaiadas de Rabello e que ele pagou, sim, pelos seus próprios pecados, ao dispensar uma boa assessoria (optou por puxa-sacos) e desafiar, acintosamente, a Justiça, como se detivesse o monopólio da verdade e da honestidade.

   Caso tivesse um assunto interessante, eu não registraria que Maksuês Leite e Júlio Campos, pré-candidatos a prefeito de Várzea Grande, estão no olho do furacão. Nem recordaria que deu o que falar a entrevista em que o jovem deputado do PP acusou o “velho” político do DEM de montar uma suposta “Operação Mordaça”, que resultou na demissão do parlamentar da TV Rondon.

    Não assinalaria, ademais, que a denúncia de Maksuês repercutiu, até porque muita gente associou o nome e a imagem de Júlio a práticas políticas condenáveis, como negociatas, perseguições, coronelismo e, claro, jogo sujo. Não alertaria que, para o democrata, isso é muito mau, até porque a nova geração de eleitores da Cidade Industrial já pinta uma imagem nada abonadora do ex-governador. Também deixaria de lembrar que o ex-conselheiro negou ter algo a ver com o peixe.

    Houvesse coisa mais importante, tampouco importunaria minha meia-dúzia de eleitores com a observação de que a demissão de Maksuês da TV Rondon, apesar de ser um direito dos proprietários, pegou mal pela maneira como se deu: sem uma “justa causa”, exceto a alegação de que atenderia a uma recomendação que a Justiça Eleitoral não fez. Não destacaria, inclusive, que esse fato levou o deputado José Riva (PP) a dizer aquilo que muitos gostariam de ter dito: essa emissora não oferece nenhuma contribuição em matéria de serviço ao público. De fato, se transformou num imenso palanque eleitoral. Não arremataria, observando que uma TV que tem o ex-deputado Lino “Sanguessuga” Rossi como maior estrela deixa muito a desejar.

   Tivesse um assunto melhor, eu não registraria a maneira extremamente irônica como leitores receberam a notícia, publicada em um site, de que o empresário Roberto Dorner (PDT) comprou em leilão, por R$ 1,5 milhão, na quinta-feira à noite, o Amazônia Clube, que tem 23 mil metros quadrados de área e está localizado no centro de Sinop. Não explicaria que a ironia é pelo fato de o caixa-alta de Sinop – que, aliás, é pré-candidato a prefeito – ter sido acusado por Maksuês Leite de, no dia anterior à compra do imóvel, ter rifado o programa do deputado na TV Rondon, supostamente por R$ 2 milhões.

    Nelson Motta tem razão quando aborda o sério problema da falta de assunto (não seria excesso de assunto?): “Hoje, há cronistas por toda a parte, cada um pode ter o seu próprio blog. Mas os melhores e os piores se aproximam quando todos escrevem variações sobre o mesmo tema: escândalos e baixarias no país da piada pronta”.
Mas, convenhamos: está mesmo cada vez mais difícil mudar de assunto.

   Antonio de Souza é jornalista em Cuiabá (af-souza1957@uol.com.br e asouza80@hotmail.com)

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