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Segunda-Feira, 06 de Agosto de 2007, 07h:40 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Eta soninho bom!

     Crianças de creche e pré-escola precisam de um local tranqüilo e confortável para dormir, repor as energias e voltar a brincar
 
     Dormir para crescer: durante o repouso são liberados hormônios essenciais ao desenvolvimento
     O almoço da turminha de 3 anos no Centro de Educação Infantil Bryan Biguinati, em São Paulo, acontece diariamente às 11 horas. Logo em seguida, enquanto uma professora organiza a fila na porta do banheiro e põe pasta na escova de dentes dos pequenos, outra espalha os colchões pelo chão da sala.O ambiente está quase pronto.Depois de fazer o xixi e a higiene bucal, cada um vai para a própria caminha. A rotina muda com os de 4 e 5 anos. Como não querem perder um só minuto de brincadeira, eles resistem a esse hábito. Para que descansem assim mesmo, são convidados a fazer atividades mais tranqüilas, como manusear livros e desenhar. Os que sentem vontade de tirar uma sonequinha encontram colchões disponíveis em um dos cantos.
     A regra muda em cada escola de Educação Infantil. Em algumas, a hora de repousar vale para todos, sem exceção! Em outras, o que manda é a necessidade de cada criança. Umas vão para os berços, outras para os colchonetes.
     Nesse panorama tão variado, o que se destaca de maneira comum, no entanto, é a falta de formação e informação do professor, que, em grande parte das creches e pré-escolas, não conta nem mesmo com o tema dentro das diretrizes pedagógicas." Isso deveria fazer parte das preocupações de qualquer profissional encarregado de cuidar de uma criança e educá-la", diz Magda Rezende, coordenadora do grupo de pesquisas Cuidado à Saúde Infantil, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.
     O sono é importante para a aprendizagem, para a regulação da emoção e para o crescimento, além de ser uma necessidade fisiológica. Quando uma criança adormece, é porque está realmente precisando. O hormônio somatotrópico, também conhecido como hormônio do crescimento, é liberado durante o dia todo, mais ou menos a cada duas horas. Porém, é durante o sono mais profundo que ele é liberado em uma quantidade tão grande que estimula o desenvolvimento das células e a deposição de cartilagem nas regiões de crescimento.

Organização é tudo
    
     Não há segredos para promover a hora do repouso. Em primeiro lugar, é preciso organizar os horários de trabalho dos funcionários da escola de acordo com a rotina dos pequenos - e não o contrário - para que eles não sejam acordados pelo entra-e-sai. Na Creche-Escola A Ciranda, em Viçosa (MG), os turnos contemplam as necessidades da criançada. "Um pessoal começa às 7 horas e vai até as 11, enquanto outro vai das 11 às 17 horas", explica a diretora, Luciana Fiel."Dessa maneira, evitamos tumultos no momento de descanso, após a refeição."
     No que se refere ao espaço reservado para o repouso, Damaris Maranhão, formadora do Instituto Avisa Lá, em São Paulo, recomenda que seja arejado, com luz indireta e isolado dos demais ambientes."A área pode ser separada da sala de atividades por um vidro para possibilitar a supervisão constante."O local não precisa ser usado somente para esse fim, mas tem de estar sempre disponível para os que quiserem descansar.
     Até os 8 ou 10 meses, os bebês ficam em berços, que devem estar distantes uns dos outros no mínimo 60 centímetros. Depois que começam a descer deles por conta própria, o melhor é recorrer aos colchonetes colocados sobre o piso, como na Bryan Biguinati."As crianças ficam seguras e livres para levantar quando quiserem", explica a diretora,Amélia Olave. O mais adequado é que os colchões sejam forrados com uma lona plastificada para facilitar a limpeza com água e detergente neutro.
     Cada criança tem de ter seu lençol e sua fronha.Mesmo se não forem trazidos de casa, devem ser de uso individual durante a semana. Isso evita a transmissão de pediculose (piolho), escabiose (sarna) ou outras doenças de pele. Para promover a segurança física e afetiva, cada um pode trazer objetos queridos, como bichinhos de pelúcia, chupetas e paninhos.
     É essencial ter um adulto sempre observando a turma. Uma criança pode acordar assustada ou indisposta e precisar de ajuda imediata. Não é raro também alguma delas querer brincar,morder o amigo que dorme ao lado ou mesmo tropeçar ao tentar se levantar. Tudo isso deve ser previsto. A babá eletrônica é outro bom recurso. Ela permite ouvir os ruídos que indicam algum desconforto, choro ou apenas que alguém já despertou.
     E se alguns querem ficar acordados? A situação é comum e acontece por vários motivos:mudança do horário da família no dia anterior, início de uma infecção, erupção de dentes ou simplesmente o temperamento. Para esses momentos, Luciana tem uma solução.Montar na sala um canto com livros, brinquedos, papéis, lápis de cor e outros materiais utilizados em atividades silenciosas para entretê-los.

Os ritmos e a saúde

     Cada um tem um ritmo: enquanto alguns dormem em colchonetes, outros brincam
     O tempo de sono varia de acordo com a idade.Um bebê recém-nascido dorme várias vezes ao longo de um dia. Esse comportamento se mantém até o terceiro mês em cerca de 90% dos casos. Os 10% restantes adormecem somente durante a noite desde o nascimento.Nesse período, ainda não é produzida a melatonina - hormônio que indica para o organismo que está na hora de repousar. Por isso, o nenê dorme conforme sua necessidade durante as 24 horas do dia.
     Entre o terceiro e o quinto mês, o sono passa a se concentrar à noite. O bebê amadurece e o mecanismo que regula essa atividade também. Com 1 ano, ele repousa à noite e tira duas ou três sonecas durante o dia. A duração delas também não é rígida: para alguns, bastam 20 minutos, enquanto para outros são necessárias duas horas e meia. Depois dos 3 anos, a maioria das crianças deixa de repousar durante o dia. Para as que vêm de regiões onde até os adultos tiram a sesta, o hábito se prolonga. "É preciso sempre dispor de colchões para esses casos", diz Magda.
     As necessidades e os ritmos também são diversos. O sono sofre influência do clima e da vida social. Se os pais vão para a cama cedo, provavelmente o filho fará o mesmo (leia o quadro ao lado). O estado de saúde também é determinante e alguns transtornos podem se manifestar nessa fase. Eles são divididos em duas categorias: respiratórios (ronco e apnéia) e não respiratórios (fragmentação do sono).
     No primeiro caso, a criança tem parada respiratória enquanto está adormecida por causa de amígdalas ou adenóide grandes e acorda antes de entrar no estágio profundo. Com isso, seu organismo não libera o hormônio do crescimento na quantidade ideal e o seu desenvolvimento fica comprometido.
     Já os não-respiratórios são chamados de benignos e estão ligados à maturação do sistema nervoso. Seus sintomas são o gemido ou o choro durante a soneca. Eles diminuem com a maturidade até desaparecer. "É importante que a escola conheça os hábitos e o estado de saúde da criança para que possa dar a ela boas condiçoes de sono e, assim, promover seu completo desenvolvimento", conclui Damaris.

Pais viram alunos

     Além de cuidar da soneca das crianças durante o período escolar, é também função da equipe compartilhar o que sabe com os pais e responsáveis. "Logo no primeiro contato com a família, é importante investigar como os filhos dormem", diz Katia Chedid, orientadora educacional do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. Alteração de humor, dificuldade de socialização e atraso na fala e no crescimento são sinais de alerta para aprofundar a investigação. Esses problemas podem estar relacionados a noites maldormidas. Nesses casos, um neuropediatra deve ser consultado.
     Outra informação que você poderá passar aos responsáveis é que o sono é um mecanismo fisiológico que pode ser ensinado. Há crianças que não precisam de nenhum ritual para adormecer. Marcia Pradella, médica responsável pelo setor de pediatria do Instituto do Sono, em São Paulo, defende que os bebês a partir de 5 meses de vida têm capacidade de dormir sem a ajuda dos adultos. "É melhor que se aprenda bem cedo para, na adolescência ou na vida adulta, não necessitar de recursos como a TV ou mesmo medicamentos."

Cristiane Marangon escreve em revista Nova Escola, ilustrada por Alice Cruz

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