Últimas

Quarta-Feira, 03 de Janeiro de 2007, 07h:47 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Fenomenologia do lulismo

      O professor Ricardo Luiz Coltro Antunes, titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, destaca, em artigo na Folha de S. Paulo desta quarta (3), que "o sentido progressista do lulismo, presente em sua história, exauriu-se em seu passado; o traço conservador se avomula no presente".

    Clique aqui ou leia abaixo a reprodução do artigo reproduzido da Folha intitulado 'Fenomenologia do lulismo'.

     UM DOS MAIS argutos analistas da política do século 20, o italiano Antonio Gramsci, tecendo considerações sobre o cesarismo/bonapartismo, que considerava sinônimos, disse certa feita que esse fenômeno político, no qual aflora com destaque a figura do "chefe carismático", poderia assumir uma forma progressista ou reacionária: a impulsão fundamental dada pelas forças sociais de sustentação conferia um sentido de progresso ou de reação. César e Napoleão I seriam exemplos progressistas, e Napoleão III e Bismarck estariam atados ao universo reacionário. Este fenômeno esparramou-se pelo mundo afora, chegando aos trópicos. Perón, na Argentina, e Vargas, no Brasil, foram emblemáticos. Antes tivemos o curto ensaio do florianismo militar durante a "República da Espada".
Poderíamos lembrar também, no espectro mais à direita, do janismo, externando um moralismo presente em setores da direita brasileira e do ademarismo, mais ancorado em setores do lumpesinato que também vislumbravam nas dádivas do Estado a alternativa para a sobrevivência.
      João Goulart e Leonel Brizola marcaram forte presença: o janguismo e o brizolismo foram herdeiros "de esquerda" do getulismo, cimentados pelo ideário nacionalista, o primeiro mais moderado, e o segundo mais acentuadamente reformista. Collor foi um espasmo, uma espécie de janismo que floresceu nos grotões.
      Quebrou-se logo e ensaia um retorno localizado, depois de longa invernada. E qual, então, o significado maior do lulismo, fenômeno relativamente recente?
Se uma resposta mais conclusiva ainda é difícil, é possível ensaiar alguns caminhos. Poder-se-ia dizer, retomando a formulação gramsciana com a qual iniciamos esse artigo, que o lulismo mescla elementos progressistas e conservadores (e não reacionários). O seu sentido progressista, presente em sua história, entretanto, exauriu-se em seu passado. O traço conservador se avoluma no presente.
      Sua máxima de que, quando se chega aos sessenta anos na "esquerda é porque tem problemas", é expressão fenomênica do seu conservantismo dominante.
     Se nos anos 1970/80 a autêntica espontaneidade de Lula o consolidou como o mais importante líder operário, neste novo milênio sua espontaneidade, esvaziada de sua origem, é preenchida pela contingência e pela vacuidade. Além de messiânico, capaz de "falar direto com Deus", tornando prescindível o partido que ajudou a criar, o lulismo é expressão de um pragmatismo que se molda às circunstâncias, que se atola no mesmismo e estanca no colaboracionismo.

     Não é por acaso que o único traço que Lula tem feito questão de repetir, em relação ao seu passado, é que era um conciliador, esquecendo-se que sua vitalidade floresceu por sua prática de confrontação.
     Alguém poderia dizer que a atual política de alianças de Lula também fora exercitada por outros políticos com carismáticos, como Leonel Brizola. Vale lembrar, como o líder dos pampas gostava de dizer, que poderia se aliar com qualquer um "porque tinha luz própria". Já a lanterna de Lula é de baixa amplitude; contenta-se com uma profusão de momentos "catárticos" em que viceja o estancamento e aumenta o regozijo dos áulicos. Seu governo de coalizão, abarcando um leque que vai de setores da esquerda a vários espectros da direita (malufiana e delfiniana inclusive, dois símbolos de monta), caminha celeremente para a colisão.
     Com dotes de ventríloquo, nas poucas vezes em que recebe os movimentos sociais, fala nos pobres. Em plenário requintado, lasca neodarwinismo político para deleite da malta.
     Freqüentemente resvala para o pícaro. Se não bastasse sua recusa "madura" à esquerda, sua conhecida aversão ao trabalho intelectual, em breve poderá reeditar uma frase do ex-governador de São Paulo, Paulo Egídio, que gostava de se definir como "radical de centro". 
     O apoliticismo sindical de Lula, também presente em sua origem, gerou, enfim, o lulismo, um pragmatismo desprovido do mais remoto radicalismo. O que parece ser um elemento central quando se procura compreender um pouco de fenomenologia do lulismo.


 

RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 53, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade de Campinas). É autor, entre outras obras, de "Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil" (Boitempo)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Calistro, dúvida à reeleição e Sumaia

sumaia leite 400 curtinha   Jânio Calistro, reeleito para o 2º mandato de vereador em 2016 e como o mais votado em Várzea Grande, com 3.658 votos pelo PSD, se mudou para o DEM dos Campos, mas ainda avalia se vai encarar o teste das urnas deste ano. Ele se mostra um tanto baqueado, após ficar preso por três meses. E...

Grupos convergem para Emanuelzinho

emanuelzinho 400   O jovem deputado federal Emanuelzinho (foto) está cada vez mais empolgado com a possibilidade de disputar a Prefeitura de Várzea Grande. Até se mudou da Capital para a cidade vizinha, onde montou apartamento no Edifício Maktub. Uma das revelações políticas do PTB, Emanuelzinho tem...

Câmara de ROO e pasta de Controle

orestes miraglia 400 curtinha   A Câmara de Rondonópolis deu de ombros para uma decisão do Tribunal de Justiça e, em primeira votação, aprovou mensagem do prefeito Zé do Pátio, criando a secretaria de Transparência Pública e Controle Interno (SETRACI) em...

Morre pai do secretário da Casa Civil

Mauro Carvalho pai   Faleceu, aos 97 anos, o pai do secretário-chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho. O empresário, que também emprestava o nome ao filho, Mauro Carvalho, foi vítima de um infarto nesta quinta (9). A informação foi confirmada pela deputada estadual Janaina Riva (MDB) que publicou nota de...

Deucimar vence Covid-19 após 20 dias

deucimar silva 400 curtinha   Após 13 dias numa unidade intensiva e mais sete se recuperando no leito de hospital, o empresário e ex-vereador pela Capital, Deucimar Silva (foto), recebeu alta médica nesta terça. Ele está curado da Covid-19. Ex-presidente da Câmara Municipal, Deucimar ficou emocionado, fez...

Estudo sobre 13º a vereadores de VG

jaqueline jacobsen curtinha 400   A conselheira-substituta Jaqueline Jacobsen (foto) estabeleceu prazo de 120 dias, em sessão de julgamento do TCE por videoconferência no último dia 2, para que o presidente da Câmara de Várzea Grande, Fábio Tardin, realize estudo prévio de impacto...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.