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Quinta-Feira, 03 de Maio de 2007, 09h:42 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Filosofia, mídia e pão caseiro


"Foi assim que ficamos sabendo que, por trás de todo o minueto graciosamente executado pelos dois principais protagonistas do episódio havia, de um lado, a maquiavélica intenção do presidente de desmoralizar seu acerbo crítico, e do outro uma incoercível sede de poder do brasileiro com sotaque de norte-americano." Veja abaixo o artigo completo do jornalista Carlos Monforte.

   Sem ser preciso julgar motivos e razões, é interessante acompanhar as reações de parte da mídia às posições assumidas de um ano para cá pelo filósofo Roberto Mangabeira Unger no que se refere ao governo Lula. Antes, porém, deve-se lembrar que em certo momento da conjuntura política ficaram patentes as aspirações, não pequenas, do controvertido professor de Harvard, dentro do quadro político brasileiro. Soube-se então que se o improvável cavalo encilhado da candidatura a presidente passasse ao seu lado, ele não titubearia em montá-lo. Não deu para ele, mas, a certa altura de 2006, já iniciado o processo sucessório de Lula, Unger entendeu que devia bater duro. E bateu. Daquilo que então disse, e escreveu em jornal, o mínimo que se pode entender é que o professor andava mal do fígado.
   Do que talvez não se possa acusá-lo é de ter agido de má-fé. Transbordou de acusações, chutou a canela do presidente, chegou quase ao insulto, lembrando de certa forma o incendiário Carlos Lacerda dos velhos tempos, em suas catilinárias contra as figuras de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Enfim, verbalizou o que talvez muita gente da oposição estava com vontade de dizer e não tinha coragem. Mas fez tudo às claras, de peito aberto, como se diz, e foi vivamente aplaudido, quase incensado pela mídia do país. Pode ser que depois tenha se arrependido, mas, se isso aconteceu, ele deve ter concluído que, para gestos extremos, não há retorno possível.
   Eis que o presidente Lula, folgadamente reeleito, decide dar a Mangabeira Unger a ocasião de acertar contas com o passado recente. Ninguém poderia esperar pelo convite inusitado muito menos o próprio filósofo ex-futuro presidente do Brasil. No caso de parte da mídia, nem ela esperava o convite, nem esperava que Unger o aceitasse.
   O que de certa forma surpreende em algumas reações midiáticas é a variedade de explicações pretensamente plausíveis para o gesto do presidente e, principalmente, para o do professor e advogado. O que não surpreende é que, agora, a mesma enxurrada de acusações feitas por Mangabeira Unger ao presidente da República seja-lhe atirada de volta, não pelo presidente presumivelmente ofendido, mas pelos mesmos que haviam aplaudido de pé a coragem anterior do catedrático. Houve até alguns comentaristas que conseguiram penetrar na complicada cabeça do filósofo e na cabeça mais simples do presidente para extrair de ambas as verdadeiras razões pelas quais um decidiu esquecer as ofensas e outro passar uma borracha no passado para tornar-se ministro. Foi assim que ficamos sabendo que, por trás de todo o minueto graciosamente executado pelos dois principais protagonistas do episódio havia, de um lado, a maquiavélica intenção do presidente de desmoralizar seu acerbo crítico, e do outro uma incoercível sede de poder do brasileiro com sotaque de norte-americano.
   Na verdade, as explicações, sejam elas quais forem, não mudam a realidade. O convite foi formulado e aceito. O país não ficou maior ou menor por causa disso. Se os críticos deixarem, é capaz de o professor Mangabeira Unger formular uns planos estratégicos de longo prazo, como requer o seu posto ministerial. Planos que, apesar de sua eventual importância, jamais irão ser postos em prática, como também não foram, por exemplo, aqueles concebidos nos governos passados. Quanto às pretensas lições de moral que alguns pretenderam tirar do fato, parecem ter a mesma profundidade de uma receita de pão caseiro, dessas que se vêem em programas matutinos da tevê.

Carlos Monforte é jornalista em Brasília

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