Últimas

Quarta-Feira, 12 de Março de 2008, 16h:49 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

Gilson de Barros X Corrupção Eleitoral

     Lá, nos idos de 1982, quando a ditadura imposta pelo golpe militar de 64, já demonstrava cansaço, eu era ainda um recém chegado a Cuiabá: um "pau rodado", como diria os cuiabanos. De política partidária não tinha experiência alguma. Até aquele ano, toda minha formação política se dera tão somente nos movimentos sociais de base, principalmente nas CEBS nordestinas.
     O longo período de trevas, época dos "Órfãos do Talvez ou do Quem Sabe", registrado poeticamente  por Alencar Furtado, já estava chegando ao fim. Porem, ainda estava bem fresco em nossa memória as imagens das prisões arbitrárias, das torturas, dos assassinatos, dos exílios e das cassações daquele que se opunham ao regime. O País, o qual Dom Paulo Evaristo Arns chamou de: "Brasil: Nunca Mais", não era até ali, algo do passado.
     As novas gerações precisam saber que naquele período poetizado por Alencar Furtado, ou o "Brasil" documentado pelo Cardeal Arns, a cidadania sofreu as piores humilhações. Eram intervenções sindicais, perseguições políticas, entrega das nossas riquezas aos interesses imperialistas, a corrupção, a impunidade e a amordaça na imprensa pelas forças das baionetas, das bombas, ou pela lei do silencio do famigerado AI5. No ano que cheguei a Mato Grosso, essas lembranças ainda eram muito fortes.
     1982 foi um ano histórico. Havíamos recém conquistados o direito de eleger os governadores. Cuiabá vivia um clima festivo e esperançoso de dias melhores. A disputa eleitoral seria ferrenha. O desequilíbrio financeiro entre os dois principais grupos que disputavam o governo seria algo gritante e vergonhoso, ao ponto de ficar conhecido como a da disputa do milhão contra o tostão.
    De um lado estavam os serviçais da ditadura, os capachos dos desgovernos militares, com seus governadores biônicos e prefeitos sem votos, indicados pelas forças mais reacionárias e retrogradas das oligarquias. Era a união do que havia de pior e de mais atrasado das classes dominantes em Mato Grosso.
     Do outro lado se entrincheiravam as forças da resistência pela redemocratização do país, pela defesa dos interesses nacional e pela moralização da coisa publica. Ainda que a campanha eleitoral daquele ano tenha sido extremamente desigual, mesmo assim foi no pau a pau. A nossa militância era aguerrida.
     Foi nessa conjuntura, quando, direto de Londres para Mato Grosso, apareceu por aqui o famoso Bob Fields, o fascista e lacaio das multinacionais, com a sua não menos famosa mala preta recheada de dólares. Naqueles dias houve um derrame de dinheiro jamais visto em outras campanhas. Compra de votos, caixa dois, abuso do poder econômico, uso da máquina administrativa, enfim, era um vale tudo.
Para chegar ao poder atropelavam-se todos os escrúpulos.
     Nesse país onde vigorava a lei do mais forte, ou seja, a do aparato da ditadura, os poderosos de plantão podiam tudo. O Brasil fora transformado pelos militares numa republiqueta de bananas. Mato Grosso, como diria um poeta: "numa terra onde o filho chora, mas a mãe não vê nem escuta. Era como se a selva e os pantanais mato-grossenses pudessem abafar a acústica dos sons indescritíveis de tiros e de gritos de morte".
     O processo eleitoral em 1982 foi uma verdadeira feira livre de compras e de vendas de votos, onde estes eram negociados publicamente num sistema leiloeiro do quem dá mais.  Na verdade, nessa época não havia eleições. Os mandatos eram descaradamentes comprados. Nunca vi antes tantos bairros e favelas sendo encascalhados e casas de alvenarias construídas por contas dos candidatos aos mais diferentes cargos.
Votos viraram mercadorias; eleitores: gados; bairros ou municípios foram transformados em currais. Era algo de causar inveja aos mais renomados coronéis nordestino.
     Foi nessa horrível conjuntura, que presenciei na residência do Itauby, na Morada do Ouro, uma família do Bairro Canjica, solicitando do Gilson de Barros, algumas sacas de cimento em troca de votos. A resposta foi na bucha: Não faço isso! Em seguida chamou esses eleitores para a responsabilidade do voto consciente. Dizia ele que se fizesse aquilo teria que apelar para a ajuda financeira do empresariado. E dessa forma não seria mais um deputado do povo e sim, mais um, entre tantos outros, mero representante da classe empresarial. Ele queria ser livre para servir aos interesses dos mais pobres, os favelados, os sem tetos.
     Mesmo assim, naquele ano, Gilson foi o Deputado Federal que obteve mais votos pela oposição. O nosso candidato ao governo, o Padre Pombo, "o Pombo da Paz, o Pombo do Amor, o Pombo da Esperança", como dizia o Gilson, sem gastar um centavo, só não foi eleito devido às inúmeras fraudes ocorridas em todo o estado. Bob Filds, que comprou o seu mandato de Senador jamais voltou a Mato Grosso. O candidato que assumiu o governo naquele ano, fez carreira política, acumulou fortunas e deu bananas pro povo. E eu, que vivi uma parte dessa historia, nunca fui candidato, e jamais serei! Desejo apenas seguir no combate a corrupção o bom exemplo do amigo Gilson de Barros: O Protesto do Povo! O Homem de Sempre!


Antonio Cavalcante Filho é coordenador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral em Mato Grosso (MCCE-MT)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

PTB tem 25 e deve eleger 2 à Câmara

misael galvao 400 curtinha   O PTB lançou 25 nomes a vereador em Cuiabá. E a tendência é de eleger entre um e dois. As maiores apostas são os seus próprios vereadores: Misael Galvão (foto) e Adevair Cabral, respectivamente, presidente e primeiro-secretário da Mesa Diretora da Câmara....

Retorno à Câmara após 6 mandatos

fulo 400 curtinha   Figura bastante popular, especialmente na região da Vila Operária, Lourisvaldo Manoel de Oliveira, o Fulô (MDB), que foi vereador de Rondonópolis por seis mandatos, está de volta. Hoje suplente, ele assume provisoriamente nesta segunda a cadeira do titular Thiago Muniz, que pediu licença...

Bolsonaro nem aí para políticos de MT

nelson barbudo 400 curtinha   O cerimonial da Presidência da República deu de ombros para os políticos, inclusive para a bancada federal mato-grossense, na visita de Bolsonaro, sexta, em Sinop e Sorriso. Alguns tentaram, de forma insistente, tirar foto com o presidente. E até conseguiram. Mas o capitão preferiu...

Tião com Flávio e "pau" nos Campos

tiao da zaeli 400 curtinha   A maior bronca dos Campos em Várzea Grande hoje é com o ex-prefeito Tião da Zaeli (foto), que motivou o amigo e empresário Flávio Vargas, dono do frigorífico Frical, a entrar na disputa à sucessão municipal. E Flávio conseguiu construir um amplo arco de...

A única dos maiores fora da reeleição

rosana martinelli 400 curtinha   Seis dos 10 prefeitos dos maiores municípios de MT poderiam disputar a reeleição neste ano por estarem no primeiro mandato ou já tendo exercido outros não consecutivos. E, destes, somente Rosana Martinelli (foto), de Sinop, não se recandidatou. Percebeu dificuldades...

Poconé tem 4 no páreo; Euclides dança

euclides santos 400 curtinha   Em Poconé, o ex-prefeito Euclides Santos (foto) nadou e morreu na praia. Numa queda de braço dentro do PSDB, Euclides, que havia se mudado para Cuiabá e tem o filho na disputa para vereador, perdeu espaço e autonomia para a ex-prefeita Meire Adauto, presidente municipal da legenda tucana e...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você acha que o efeito-Bolsonaro terá impacto no resultado das eleições de novembro em MT?

sim - onda Bolsonaro continua

não - efeito não influencia mais

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.