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Sexta-Feira, 26 de Janeiro de 2007, 08h:15 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Governo, violência e insegurança

     A violência e o estado de insegurança voltam a ser tema central do professor Juary da Silva em artigo desta sexta (26) em A Gazeta. Confira reprodução abaixo.

    Os temas violência e insegurança são recorrentes quando se debate a realidade brasileira pelo menos nos últimos 70 anos. Durante as décadas de 40 e 50, quando o Brasil ainda era um país essencialmente agrário e estava no auge da expansão da fronteira agrícola rumo ao oeste paulista, Estados do Paraná, Mato Grosso e Goiás, a violência era fundamentalmente ligada às questões de posse e uso da terra e das relações de trabalho no campo.

    Durante as décadas de 60, 70 e 80, à medida que a fronteira agrícola ia se movendo em direção ao Centro-Oeste e Amazônia, a violência ia acompanhando o processo de ocupação, incluindo a violência nas áreas de garimpo. Foi, a partir do final da década de 60 e mais especificamente da década de 70 com a mudança do perfil demográfico brasileiro, onde o urbano passou a ter primazia sobre o rural, a consolidação da cidade como dinâmica da vida política, social e econômica brasileira, incluindo o surgimento das áreas metropolitanas, dos aglomerados urbanos que a questão da violência urbana passou a dominar o cenário de insegurança generalizada no país.

    O processo de urbanização no Brasil ocorreu fruto das migrações rurais rumo às cidades e ao mesmo tempo das migrações internas, principalmente do Nordeste para São Paulo, Rio de Janeiro e várias outras cidades ao redor dessas duas cidades e de outras capitais do Centro-Sul.

     A ocupação das áreas periféricas tanto do Rio quanto de São Paulo possibilitaram o surgimento das cidades-dormitórios, um cordão de miséria, pobreza e promiscuidade como modelo de sobrevivência, contribuindo para a formação da chamada "cultura da violência".

    Mesmo que tenha havido uma redução considerável das taxas de crescimento demográfico no Brasil como um todo, os índices de urbanização foram sempre muito acima da média do crescimento populacional brasileiro. Ocorreu uma verdadeira explosão urbana e este fenômeno extrapolou os limites de São Paulo e Rio, para se tornar modelo de "desenvolvimento urbano" brasileiro.

    Todas as capitais e regiões metropolitanas, inclusive Brasília, que foi planejada para ser uma cidade-gueto, bem no meio do cerrado, possivelmente para abrigar a cúpula política, afastando-a da realidade do dia-a-dia do Rio de Janeiro, seguiram e continuam seguindo o mesmo modelo.

    Este modelo representa a construção de cidades segregadas, onde para uma minoria privilegiada existem todos os serviços básicos que devem atender às necessidades fundamentais do ser humano como habitação digna, água, saneamento, pavimentação, iluminação pública, energia, transporte, segurança, enfim, esta camada privilegiada desfruta de boa a ótima qualidade de vida.

    Para os pobres e miseráveis que ocupam irregularmente o espaço urbano, constroem suas "casas", na maioria das vezes simples barracos, minúsculos para o tamanho da família, à beira de córregos, alagados, em baixo de viadutos ou áreas impróprias para habitação, sem nenhum serviço básico - esta é a unica alternativa face a inexistência de políticas públicas voltadas para atender as necessidades da população pobre.

    Com baixa qualificação profissional, altos índices de analfabetismo ou semi-alfabetização, milhões de famílias que vivem nas periferias urbanas não têm oportunidade de trabalho, de lazer e de futuro. Aí é que surge a vinculação entre pobreza, miséria e a violência, afetando diretamente as crianças e adolescentes. A ausência de políticas públicas facilita o surgimento das escolas do crime como única "alternativa" de vida!

   Assim, podemos concluir que a omissão e a incompetência de sucessivos governos tanto no nível federal, quanto nos Estados e nos municípios, principalmente das cidades médias e grandes, em solucionar esses graves problemas sociais representam a maior causa do surgimento e agravamento da violência, principalmente da criminalidade urbana.

    Para atacar as raízes da violência precisamos de governantes mais competentes e comprometidos com as necessidades do povo. Enquanto isto não acontece, teremos que conviver com os bandidos de colarinho branco empoleirados nas estruturas do poder e com os bandidos comuns que aterrorizam o dia-a-dia do povo! Este deve ser o cerne do debate, longe das pirotecnias da demagogia política incapaz de avançar em busca de soluções verdadeiras para problemas tão graves como a violência e a insegurança!

  Juacy da Silva é professor universitário, mestre em sociologia, colaborador do jornal A Gazeta. E-mail: professorjuacy@yahoo.com.br

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