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Terça-Feira, 17 de Julho de 2007, 10h:21 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Grandeza e miséria do Cristo Redentor

     Mobilizados, os brasileiros elegeram uma estátua meio assustadora uma das maravilhas do mundo

     Se há alguma coisa feia no Rio de Janeiro, é o Cristo Redentor. Bonito é o pico em que está fincado, uma pedra que sobe lá em cima, o cocuruto a varar com audácia territórios privativos do céu. Mais bonita ainda é a vista lá de cima, a mais bela que se pode ter de uma cidade. O caminho para chegar ao topo também é bonito. O jornalista Marcos Sá Corrêa, num artigo recente, citou o registro deixado pela francesa Adèle Toussaint-Samson, professora que morou no Rio nos tempos do Império – quando ainda não havia Cristo sobre o Corcovado –, depois de uma escalada de seis horas: "Eu podia imaginar um pouco a vista esplêndida que me esperava lá em cima. Mas não pudera pressentir a emoção profunda que sentiria à visão de uma natureza saindo virgem das mãos de Deus".
     Já o Cristo, em si... A expressão é vazia como a de um robô. É pesadão como um guindaste. Tirem-no de seu contexto e, num palco, viria a calhar para encarnar a estátua de pedra que determinou a ruína de Don Juan. O olhar que não olha é de um extraterrestre desembarcado com a missão de assustar. A figura é toda rígida, gelada, esquemática. Marcos Sá Corrêa ressalta a sorte de o Cristo estar cravado num lugar decretado parque nacional. "Quem não sabe o que isso quer dizer, imagine tirar a estátua de onde está para pô-la no morro mais alto do Complexo do Alemão, a que também não faltam credenciais para representar a autêntica paisagem urbana do Rio."
     O entorno deslumbrante o salva. Mas há algo de que não se pode perdoá-lo: o mau exemplo com que contaminou cidades, vilas, vilarejos e bairros Brasil afora. Contam-se aos milhares os cristos redentores que brotaram pelo país nestes 76 anos que se seguiram à implantação do primeiro, no alto do Corcovado. São cópias que, não podendo repetir o gigantismo do original, se assemelham a rebentos malformados de espécimes premiadas. São encontráveis no topo de morrinhos miúdos, feios, indignos, ou no centro de praças tacanhas. Para prefeitos sem conta, inaugurar o Cristo Redentor da cidade representou ponto de honra do mandato. Ainda que em versão nanica, ou disforme, ou com feições ainda mais assustadoras do que o original, a estátua do Redentor já se traduziu em votos, em muita eleição por este Brasilzão de Deus.
     Há ainda uma generosa oferta de cristos redentores para uso privado. As lojas de plantas e peças para jardins os oferecem ao lado dos cogumelos de pedra, sapos e anões da Branca de Neve. E assim o Cristo Redentor, eleito na semana passada uma das sete novas maravilhas do mundo, vai cumprindo, em paralelo a esse grandioso laurel, o destino de objetos tão triviais, gastos e desvalorizados quanto os pingüins de geladeira. No concurso das maravilhas, realizado em âmbito planetário, no qual as pessoas eram convidadas a votar pela internet ou pelo telefone, o Cristo chegou em terceiro lugar, logo atrás da Muralha da China e das ruínas de Petra, na Jordânia, e à frente de Machu Picchu, no Peru, de Chichén Itzá, no México, do Coliseu, em Roma, e do Taj Mahal, na Índia.
     Dois aspectos dessa lista chamam atenção. O primeiro é como são velhas as novas maravilhas. O Cristo Redentor é o caçulinha. O segundo mais novo, o Taj Mahal, tem mais de 300 anos. As outras maravilhas datam da Antiguidade euroasiática ou do período pré-colombiano. Votou-se no certo e no seguro. Entre os 21 finalistas do concurso, a única obra de arquitetura moderna era a Ópera de Sydney. Mas é preciso lembrar que os australianos não tiveram nem antiguidade, nem incas, nem astecas. Não terá sido pelo gosto ao risco e à inovação que descarregaram seus votos numa obra de vanguarda. Mais provavelmente, foi por falta de alternativa. A exceção australiana confirma a regra de que, "na primeira eleição global da história", como alardeia a empresa que concebeu e organizou o concurso – e na qual, segundo a mesma empresa, mais de 100 milhões de votos foram contabilizados –, o voto foi maciçamente conservador.
     O segundo aspecto é a esmagadora predominância do Terceiro Mundo, representado por seis das sete maravilhas da lista vencedora. O Coliseu é a única exceção. Não conseguiram se classificar nem a Torre Eiffel, nem a Estátua da Liberdade, nem o Alhambra. O Cristo – e seus companheiros, entre os quais dois irmãos latino-americanos, Machu Picchu e Chichén Itzá – papou-os todos, com farofa. No Brasil houve mobilização intensa em favor do candidato nacional, inclusive com campanhas promovidas por empresas. Supondo-se que, em outros países, a votação se tenha dado igualmente dentro de critérios nacionalistas, cada povo puxando por sua própria maravilha, a população do Terceiro Mundo terá se aproveitado de sua grande superioridade numérica para se impor. Foi como um concurso de miss, em que concorriam monumentos em vez de mulheres e em que todos podiam votar. O Brasil aproveitou-se da circunstância para, fechado em torno de um candidato único, não deixar escapar a oportunidade. Para essas coisas, brasileiro se mobiliza.


Roberto Pompeu de Toledo é articulista de Veja

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