Últimas

Sábado, 26 de Maio de 2007, 10h:45 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Greve esquizofrênica

     De forma semelhante ao que ocorre com diversos colegas docentes da UFMT, já estou vivendo o entardecer do meu percurso profissional. Já participei de várias greves aqui e em outras instituições nas quais trabalhei. Portanto, a minha percepção do direito de greve não está ancorada apenas nas recentes paralisações ocorridas na UFMT, mas em outros tempos e em outros espaços. Foi aqui, porém, que conheci essa modalidade de "adiamento do calendário letivo da graduação" a que se convencionou chamar de greve, pseudogreve, meia-greve, quase-greve e que, na sociedade, é percebida como uma "palhaçada", "molecagem" ou "férias prolongadas".
     Hoje quero propor a essa modalidade de greve um novo atributo: o de uma manifestação esquizofrênica. Ela nos induz a uma situação semelhante a daquele sujeito que se sabe um maluco, mas que se diz um Napoleão. Vejamos, pois, a loucura de um dia de greve!
     Iniciamos a nossa manhã-de-greve paralisando as atividades no ensino de graduação, alegando motivações salariais, melhoria da qualidade do ensino, essas coisas.
     Já à tarde, retornamos com as atividades normais no ensino de pós-graduação argumentando que a greve afetaria o conceito do Programa, prejudicaria a instituição, resultaria na redução de bolsas e assim por diante... Portanto, somos obrigados a trabalhar à tarde por razões semelhantes àquelas que justificaram a suspensão das atividades matutinas.
     À noite mantemos regularmente os cursos de especialização porque, afinal, são "pagos" e funcionam como uma complementação salarial. Além disso, alguns desses caça-níqueis (semelhante ao que ocorre com os bingos) já foram assimilados pela sociedade como um período de entretenimento ou como uma forma de angariar algum ganho intelectual ou financeiro. O argumento de que devemos mantê-los porque a sociedade exige ou porque o nosso salário é baixo, não parece uma justificativa suficiente para burlar a greve.
    O nosso dia-de-greve continua com a manutenção das atividades de pesquisa e de administração, estas, com argumentos igualmente contraditórios uma vez que consideramos que os nossos cronogramas de pesquisa e a manutenção dos serviços que garantem a nossa remuneração são mais legítimos do que o direito dos estudantes concluírem os seus cursos no tempo adequado.
    São essas e outras contradições que comprometem a coerência das nossas greves uma vez que lhes conferem múltiplas identidades contrastivas.
    A verdade que agora aparece clara para nós e para a sociedade é que essas "greves" esquizofrênicas penalizam duramente o segmento mais fragilizado da universidade, o "primo pobre", o ensino de graduação. Os programas de mestrado, as atividades subsidiadas, os cursos "pagos" etc. continuam funcionando como sempre, normal e solenemente.
    Esse modelo de greve tem sido praticado e defendido no nosso sindicato com o discurso enganoso de que trata-se "do mais legítimo direito democrático" e que a nossa greve é "inspirada na luta histórica dos trabalhadores ingleses", etc. etc. etc.
    Ora, convenhamos! Essa cantilena não pode ser levada a sério pelos docentes e pela sociedade. Trata-se de um discurso oco, falso, destituído de fundamentos na realidade. Seu eco limita-se aos nossos ouvidos, acostumados com a falseta da nossa própria voz.
    Mais uma vez estamos diante de uma proposta de greve, de uma falácia, de uma enganação, de um tiro no pé. Os seus contornos e os seus sintomas identificam um sindicalismo esquizofrênico, decadente e desacreditado. Portanto, para o bem da categoria e da sociedade, digamos um não à greve na UFMT!

Darci Secchi é professor do Instituto de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Nezinho, nova derrota e aposentadoria

nezinho 400   Aos 69 anos, o petebista Carlos Roberto da Costa, o Nezinho (foto), considerado da velha guarda política, tentou, mas foi reprovado nas urnas em Nossa Senhora do Livramento. Ele concorreu a prefeito em quatro pleitos. E já exerceu dois mandatos. Nezinho já foi secretário-adjunto de Fazenda do Estado,...

EP cresce 5; Abílio perde 3, diz Ibope

emanuel pinheiro 400 curtinha   Pelos números do Ibope, revelados nesta sexta à noite pela TV Centro América (Globo), Abílio Júnior (Podemos) oscilou negativamente 3 pontos percentuais em menos de uma semana, de 48% para 45% das intenções de voto. Já o emedebista Emanuel Pinheiro (foto)...

Sob arrogância, ataque e desrespeito

abilio junior 400 curtinha   O candidato Abílio Junior (foto), que disputa o segundo turno em Cuiabá com o prefeito Emanuel, chegou bastante nervoso e irritado para o debate nesta sexta, na TV Vila Real (Record). Demonstrando arrogância, ignorou o superintendente do Grupo Gazeta de Comunicação, Dorileo Leal, na...

Candidatos, tensão, debate e bate boca

antoniocarlos   Em debate tenso, na TV Vila Real (do grupo Gazeta) e, após troca de acusações sobre atos de corrupção e servidores fantasmas, os candidatos à Prefeitura de Cuiabá Abílio Júnior (Pode) e Emanuel Pinheiro (MDB) protagonizaram bate boca por mais de uma vez. O clima ficou...

Abílio contrata 400 fiscais para eleição

A campanha do candidato Abílio Júnior (Pode) decidiu contratar 400 fiscais para atuar nesta eleição de domingo. Isso derruba o discurso do candidato do Podemos de que todos atuam de forma voluntária em prol da sua vitória. Aliás, quando questionado sobre a grande estrutura que montou neste segundo turno, inclusive sobre a equipe de marketing, disse que todos são colaboradores. Na sua versão, ninguém recebe pelo trabalho,...

Entrando na briga à AMM muito tarde

maurao curtinha 400   Mauro Rosa, o Maurão (foto), que está encerrando o segundo mandato como prefeito de Água Boa, é o único candidato no duelo com Neurilan Fraga, que busca mais um mandato no comando da AMM, entidade que representa as prefeituras mato-grossenses. O problema é que Maurão entrou...