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Terça-Feira, 11 de Dezembro de 2007, 09h:10 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

Guerra simbólica

     É comum ouvirmos a expressão “não se vota em partidos, mas sim em pessoas”. De fato, pela cultura política brasileira e, sobretudo, pelo enfraquecimento das instituições políticas, principalmente os partidos, no pós-ditadura militar, o voto foi personificados nos candidatos, nas pessoas, como conseqüência direta da despolitização das eleições.
     A KGM realizou estudo em julho passado, em Cuiabá, onde se comprovou que os eleitores consideram majoritariamente as propostas dos candidatos e os próprios candidatos na hora de decidir em quem votar. Os partidos, parentes, patrões, artistas, etc., acabam tendo influência irrelevante.
     Apesar dessas verdades concretas, não é bem nas pessoas que os eleitores votam. Eles votam mesmo é nos personagens que os candidatos vestem para as campanhas eleitorais, o que torna uma eleição uma verdadeira guerra simbólica, entre signos diversos. Votam, portanto, na imagem que os candidatos criam de si mesmos, dos adversários, ou na imagem que o próprio eleitor cria deles.
     Vou citar um exemplo do nosso cotidiano. Nas eleições passadas para prefeito de Cuiabá, tivemos uma disputa polarizada entre dois símbolos: de um lado, Alexandre César, encarnando o personagem do líder popular, por sua filiação ao Partido dos Trabalhadores. Do outro, Wilson Santos vestindo o personagem da pequena burguesia, por sua filiação ao PSDB.
     Quem conhece as histórias de um e de outro, todavia, logo percebeu que eles trocaram de roupa. Estavam invertidos, pois, por sua origem humilde, de engraxate, filho da lavadeira, Wilson é que combinava com o personagem de líder popular emergido do seio do povo, apesar de ser do PSDB; enquanto Alexandre, embora do PT, teve origem de classe média-alta, filho de juiz, estudante das melhores escolas, etc., Na verdade, aquela foi a disputa do ‘Galinho’ contra o ‘Mauricinho’, ou do ‘Filho da Lavadeira’ contra o ‘Filho do Juiz’.
     Essa desinversão foi fundamental para se decidir as eleições de 2004 em Cuiabá. Como ela demorou a acontecer, a disputa foi para o segundo turno. Provavelmente o episódio envolvendo outro personagem (o Seo Cândido, um frágil velhinho que teria sido vítima de um ato autoritário da família de Alexandre) foi o responsável pela desmistificação dos personagens trocados, do ponto de vista da percepção coletiva que se tinha deles. O fato de todos os principais líderes da política do Estado também terem se juntado no palanque de Alexandre pode ter emitido um sinal de que os ‘poderosos’ se uniram para impedir que o ‘filho do povo’ chegasse ao poder. Como nos ensina a psicologia, o povo é muito solidário com os mais fracos.
     Para as eleições do ano que vem, novamente os candidatos deverão vestir seus personagens. Mas, não pode ser qualquer personagem. A roupa precisa cair bem, combinar com o modelo.
     Wilson Santos, por exemplo, dificilmente conseguirá vestir novamente o modelito de líder popular emergido do seio do povo. Ele se sofisticou demais nesses três anos de exercício do poder. De ‘Galinho’, brigador, um líder de fato popular que se relacionava com presidentes de bairros e estudantes e promovia encontros para tomar cerveja e comer cabeça de boi no Baú, Wilson agora tem uma imagem impecável, com roupas bem cortadas e trejeitos de grã-fino. Não come mais cabeça de boi no Baú, lambendo as próprias mãos. Agora, com seu new loock aristocrático, freqüenta os melhores restaurantes da cidade, usa talheres de prata e também se tornou especialista em vinhos finos.
     No imaginário popular (ou inconsciente coletivo, como queiram), isso provocou uma alteração muito significativa na sua percepção pela massa. É visto como um prefeito que governa para os ricos e para o centro da cidade. As inúmeras quebras de promessa com os setores intermediários – fundamentais para sua campanha, uma vez que foram apoios voluntários num momento em que candidatura estava em xeque - ajudaram a moldar esse novo personagem, matando, ele próprio, o mito que o tornou um político de sucesso até aqui.
     De certa forma, o eleitor de Wilson Santos em 2004 hoje se sente traído, enganado, por ter votado num Mauricinho travestido de Galinho. Sobre os personagens compatíveis com os demais candidatos, tratarei nos próximos artigos.

 

Kleber Lima é jornalista, pós-graduado em marketing e analista político em Cuiabá (kleberlima@terra.com.br)

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