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Sábado, 26 de Abril de 2008, 11h:55 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:20

Artigo

História e memória: o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido

  Em meu último artigo causou mal-estar geral alguns comentários que fiz referente ao projeto indigenista de Rondon. Faz parte da memória coletiva o culto a indivíduos tidos como heróis, exemplo, grandes homens etc. É um traço comum na sociedade ocidental, particularmente a partir da Revolução Francesa, quando os heróis nacionais substituíram os santos da igreja católica, e quando os rituais cívicos (hinos, hasteamento de bandeiras, feriados nacionais) substituíram os antigos rituais monárquicos e religiosos.

   No entanto, esses heróis são construções coletivas que têm suas rupturas, seus silêncios, sua propaganda, seu exercício de poder, seu cunho ideológico, seus grupos promotores etc. Todo regime político constrói seus heróis: para a monarquia, D. Pedro I era o grande herói – foi quem proclamou a Independência; quando da República, depois de intensa busca (que passou por nomes como Frei Caneca e Bento Gonçalves), o nome escolhido foi o de Tiradentes.

  O personagem mineiro teve que ser moldado para se parecer com Jesus Cristo e ganhar um cunho mais popular (uma boa referência é o quadro de Pedro Américo, de 1893, que traz inclusive um crucifixo ao lado do corpo esquartejado para forçar a semelhança). Esse movimento de lembrança e esquecimento não é neutro. Ele está carregado de silenciamentos, e até de violência. Mas deixemos Rondon e Tiradentes de lado.

   Para ser mais claro vou utilizar outro exemplo, mais próximo de Cuiabá – já que Rondon passou boa parte de sua vida ou na floresta ou no Rio de Janeiro, e Tiradentes imaginou uma pátria restrita apenas a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro. Há meses atrás, ao folhear um dos jornais da capital, me deparei com a notícia do tombamento do túmulo de Totó Paes de Barros, no Coxipó do Ouro. A história (aquilo que faz o historiador) é uma disciplina interessante: está sempre se renovando, sendo reescrita, sendo alimentada pela memória coletiva, e pelas versões oficiais. Acima de tudo ela nos diz muito sobre quem está no exercício do poder.

   Tenho especial atração pelo tema. Em abril 2006, defendi uma monografia no assunto. Para quem tiver curiosidade intitula-se “Alianças e disputas políticas: os primeiros anos da ‘política dos governadores’ em Mato Grosso (1899-1906)” e pode ser consultada na Biblioteca Rubens de Mendonça, na UFMT. Mas como isso se relaciona com a construção de um herói? Senão vejamos.

  O coronel da Guarda Nacional Antônio Paes de Barros foi industrial, pecuarista e latifundiário. Seus ancestrais, os irmãos sorocabanos Fernando e Arthur Paes de Barros foram, em 1734, os descobridores de ouro na Chapada de São Francisco Xavier, no “Mato Grosso”, possibilitando a expansão dos domínios portugueses mais a oeste na América. Seu pai, Joaquim José Paes de Barros foi o primeiro usineiro de Mato Grosso a instalar uma usina a vapor em 1881, às margens do rio Cuiabá. Totó Paes, como também era conhecido, seguiu o exemplo do pai e fundou, em 1897, a Usina do Itaici – hoje, restam apenas as ruínas, ostentando ainda a sua imponente chaminé, símbolo de seu poder nas adjacências.

   Entre 1903 e 1906 foi Presidente do estado de Mato Grosso. No dia 6 de julho de 1906, foi assassinado por uma diligência comandada por Joaquim Sulpício de Cerqueira Caldas, enviada a mando de seu inimigo mortal, Generoso Ponce, na antiga Fábrica de Pólvora do Coxipó do Ouro. Mas o ponto que sempre me intrigou foi o fato de que ele tenha sido sepultado no mesmo lugar que seu corpo tombou.

   Em minhas pesquisas, descobri que o grande erro de Totó Paes foi procurar as alianças erradas. Ponce foi vitorioso por ter percebido isso. Paes de Barros buscou o apoio do Presidente da República, à época Rodrigues Alves, para se sustentar no poder. Isso não era novidade nenhum. Aliás, aos estados periféricos como Mato Grosso, a manutenção do poder dependia em grande medida do apoio Federal – devemos lembrar que o Presidente da República é o comandante em chefe das Forças Armadas. Em contrapartida, cabia aos presidentes de estado enviar ao congresso parlamentares que não fizessem oposição ao governo, e apoiassem os sucessores indicados pelo Presidente da República.

   Era essa a “política dos governadores”.
 Hoje em dia, chamam este apoio de governabilidade – embora não sejam os estados que se prostituam pelo poder, mas os partidos. Enfim, qualquer semelhança é mera coincidência! Mas vamos em frente, que ainda não cheguei onde eu queria.

   Acontece que o ano de 1905 foi trágico para o Presidente Rodrigues Alves: o Congresso fez oposição e o sucessor indicado por Rodrigues Alves não teve o apoio esperado. Mas Totó Paes manteve seu apoio. Por outro lado, o coronel Generoso Ponce buscou outras alianças, aproximando-se de Joaquim Murtinho (mato-grossense e um dos “cabeças” da oposição) e seu grupo político. Até o Vice-Presidente do estado, Pedro Leite Osório, eleito na mesma chapa de Totó Paes, seguiu a aliança Ponce – Murtinho.

   O confronto final foi explosivo: em maio de 1906, um levante armado sitiou Cuiabá. À frente Ponce e Pedro Celestino Corrêa da Costa. O Exército em Mato Grosso fez-se surdo aos apelos federais, pois muitos militares estavam envolvidos no jogo político ao lado de Ponce. O Presidente Rodrigues Alves até mandou uma força militar comandada por Dantas Barreto, que não chegou a tempo. Fala-se de quatro mil homens sitiando a capital do estado por quase um mês. Sem apoio, e sem alternativa, Totó Paes abandonou a capital do estado e se refugiou na fábrica de Pólvora do Coxipó do Ouro. Lá foi barbaramente assassinado. Sua morte foi bem vinda: com o desaparecimento do Presidente, assumia o Vice – aliado de Ponce. Seria uma enorme dor de cabeça para Ponce se Totó Paes de Barros sobrevivesse. A vingança viria com mão pesada.

   Por isso, Antônio Paes de Barros tinha que morrer.
 Mas não bastou o assassínio. Foi necessário o esquecimento, o silenciamento, o ocultamento. Embora tenha construído uma moderna usina com farmácia para os funcionários, escola, banda de música e energia elétrica própria, Totó Paes conviveu com muitas denúncias de assassinatos (muitos comprovados em processos em 1906) – o que hoje em dia chamaríamos de “trabalho escravo”. O que era habitual em muitos outros estabelecimentos agro-pecuários de Mato Grosso – naquele tempo, raro era não ser assim.

  Mas Antônio Paes de Barros encarnou os vícios de todos os outros, representando o despotismo e tudo aquilo que era atrasado. Ele sozinho. Ao mesmo tempo, construiu-se uma imagem de Generoso Ponce que encerrava todas as virtudes do herói militar, o consolidador da República no oeste brasileiro. E olha que Ponce foi chefe de partido monarquista, e comemorou o aniversário do Imperador no dia 2 de dezembro! Quando a notícia da Proclamação da República chegaram a 9 de dezembro de 1889, Ponce e quase todos os políticos mudaram de regime em menos de 24 horas.

   Mas os fantasmas, quando não são exorcizados, voltam a assombrar as cidades. O corpo de Antônio Paes de Barros precisou ser abandonado à beira de um córrego para sustentar a (falsa) versão oficial: a de que atirou contra a diligência a seu encalço, sendo revidado e morto. Os laudos cadavéricos e os depoimentos da época indicam que ele foi covardemente assassinado e saqueado. Seus descendentes foram praticamente expulsos. Sua mulher, D. Úrsula Ângela de Oliveira Paes de Barros, perdeu o direito sobre a herança do coronel – uma fortuna em terras, imóveis, principalmente a mais moderna usina da época no estado. Inconsolada, mudou-se junto com suas filhas para o Rio de Janeiro.

   O assassinato de Totó Paes influenciou até nos destinos de uma pequena cidade às margens do rio Cuiabá: área de sua influência política, a antiga Vila de Melgaço (atual Barão de Melgaço), que havia sido sede do município de Santo Antônio no auge do poder do coronel, foi rebaixada a distrito. Talvez sua atual atrofia econômica esteja ligada ao desinteresse histórico assumido pelos governantes de Mato Grosso – quase todos carregando em suas veias os sangues dos Ponce e dos Corrêa da Costa. Curioso, é que esta bela e apaixonante cidade é o único lugar que faz referência à memória do ex-Presidente, com seu nome em uma escola e em sua principal avenida.

   A Ponce e seus descendentes couberam os louros da vitória. Durante décadas foram muitos os Ponce, Corrêa da Costa, os Müller (Maria de Arruda Müller, esposa de Júlio Müller era neta de Generoso Ponce) a governar o estado de Mato Grosso. Por isso, a impossibilidade de retornar ao assunto. A história sempre foi submetida à vigilância do Estado. A memória dessas famílias está edificada nos bens tombados pelo estado como Patrimônio Histórico: grande parte do conjunto das “Obras Oficiais”, inauguradas por Getúlio Vargas na década de 1940, durante a interventoria de Júlio Müller.

   Os nomes das ruas da capital também contribuem para o esquecimento: há a Rua Pedro Celestino, a Generoso Ponce, a Avenida Fernando Corrêa da Costa, e outras. A antiga rua Antônio Paes de Barros teve seu nome alterado para Cândido Mariano logo após a sua morte.

   Com tal vigilância, foi difícil à memória coletiva se desvincular do discurso oficial. Construir uma versão somente sua, menos ligada à construção de heróis ou vilões. Uma versão que mostre os personagens históricos como eles realmente são: passíveis de erros, de atos medíocres, de atos violentos ou de atos nobres; mas acima de tudo, como filhos de seu tempo. Por isso, durante muito tempo a única resposta a ser dada sobre este momento era a de que Totó Paes era o vilão, e Ponce, o mocinho. Mas, como eu disse, a história está constantemente sendo reescrita.

  Foi a ascensão de Dante de Oliveira ao governo de Mato Grosso que levantou um interesse pela recuperação da Usina do Itaici. Talvez pelo fato de não ter uma ligação tão estreita com os descendentes de Ponce e Corrêa da Costa. E só neste momento foi possível o interesse pelo túmulo vazio de Antônio Paes de Barros – seu corpo foi transladado para o Rio de Janeiro em 1911.

   Hoje, tendo o paranaense Blairo Maggi como governador, alimenta-se a imagem de um Coronel Antônio Paes de Barros industrial, moderno e prático – uma visão também romântica, e construída. Essa visão encerra os anseios de um estado que parece querer se industrializar. Até mesmo a estrada para Barão de Melgaço, via Santo Antônio, foi asfaltada, levando àquela cidade a esperança de negócios no eco-turismo.

   Contudo, devo lembrar que as relações trabalhistas daquela época eram dominadas pelo sistema da caderneta, que aprisionava o trabalhador ao lugar através de dívidas intermináveis e crescentes (é claro que Totó Paes não fugia a isso). A Usina do Itaici chegou a cunhar sua própria moeda, o que configura uma maneira de controlar a saída de dinheiro de seus domínios, restringindo a compra por parte de seus funcionários aos lugares circunvizinhos.

   Essa imagem do ex-coronel construída hoje, portanto, é perigosa, pois faz esquecer que sendo filho de seu tempo, ele não foi nem santo nem demônio. Este é o perigo quando tentamos retomar discursos silenciados: passamos a projetar neles os valores modernos, os quais nunca tiveram (chamamos a isso de anacronismo). No caso, também silenciam aqueles que sofreram o horror de violências sob a sombra da chaminé da centenária Itaici, para homenagear o coronel industrial, transformando-o numa pessoa quase perfeita – quase celestial. Não nos cabe silenciar, mas trazer à tona este momento sem a imagem romântica, com todas as suas facetas, pois nós seres humanos somos muito mais complexos do que os velhos contos de fadas com a mocinha e o vilão.

Lauro de Souza Portela é historiador e mestrando
em História pela UFMT

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