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Terça-Feira, 28 de Agosto de 2007, 10h:15 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Ignorância e preconceito

    

     "Se permitirmos que o preconceito nos domine, seremos em breve o mais atrasado no círculo dos povos atrasados"

     "Minha colega disse que avó não namora!", comentou Tatinha.
     Lilibeth, a avó, riu, tirando os óculos como se assim pudesse rir melhor: "Mas que maluquice, filhota!", disse. "Sua colega deve ter ouvido isso dos adultos, que falam muita bobagem mesmo. Isso é preconceito!"
     Tatinha arregalou os olhos: "O que é preconceito, vovó?".
     "Preconceito é uma doença. Não do corpo, mas da alma. As pessoas com essa doença pensam tudo torto, enxergam errado. Por exemplo, acham que criança não sabe nada, que velho não pode mais ser feliz, que só os moços e bonitos amam, que a gente deve desconfiar de pessoas diferentes, que todos os pobres são perigosos e todos os ricos são maus, essas coisas."
     Meu livro infantil A Volta da Bruxa Boa, a sair nestes dias pela editora Record, fala de assuntos que hoje fazem parte da vida de uma criança. Ao contrário do que muita gente acredita, criança pensa – e tem sido fascinante descobrir jeitos de lhes falar de coisas a que elas estão expostas atualmente, coisas com as quais a menina que fui nem sonhava.
    Nesse livro de histórias divertidas, que com seu irmão mais velho, Histórias da Bruxa Boa, é uma pequena fábula sobre a família, também falo de preconceito. Acabamos de ver um acontecimento antipreconceito que deve nos ensinar, a todos, e muito: o Parapan. Pessoas com deficiências dramáticas, em lugar de estar em asilos ou escondidas em casa, praticam esportes, são excelentes neles, ganham medalhas e estão preparadas para participar das Paraolimpíadas de Pequim, no ano que vem.
     Nas competições, rapazes cegos jogaram futebol, orientando-se pelo ruído dos guizos dentro da bola. Moças em cadeira de rodas jogaram basquete. Uma jovem mãe, de sorriso aberto, elogiou ("Meu filho é um grande homem") o moço que nasceu sem as mãos e foi campeão de corrida. Os nadadores estiveram esplêndidos.
     Lição magnífica foram algumas das entrevistas: ninguém se queixou, ninguém se julgou perseguido pela má sorte. Quando se falou em preconceito, um rapaz, com sabedoria e maturidade, disse que para eles não existia preconceito, existia a vida, que procuram viver da melhor forma possível. Aqueles rapazes e moças sabem que os mais duros obstáculos nos esmagam, se não os controlamos até onde permitem nossas forças. Eles tomaram nas mãos as rédeas de sua vida, mais difícil do que a vida da maioria de nós, que tão facilmente nos consideramos vítimas por coisas bem menos trágicas do que nascer sem mãos, sem pernas ou sem olhos.
     O preconceito, doença que turva nosso olhar e entorta nossa alma, que nos diminui e nos emburrece, é uma das enfermidades mais sérias deste nosso mundo. E, atenção, não falo apenas do preconceito contra deficientes nem do preconceito contra muçulmanos, cristãos, negros, índios ou brancos. Não me refiro apenas ao preconceito contra pobres ou ricos, mas também ao lamentável preconceito contra a classe média. Contra isso que os promotores do ódio de classes chamam indiscriminadamente "as elites". Que incluem bancários, professores, auxiliares de escritório, motoristas, domésticas, balconistas, trabalhadores em geral. Isto é, os que não dependem totalmente da ajuda dos governos.
     Essa postura criminosa tanto perturba a mente das pessoas que numa manifestação de parentes de vítimas dos dois acidentes aéreos recentes, que envergonham este país, houve quem gritasse que aquela era uma manifestação "da elite". Tal intervenção, movida pelo ódio insensato e nascida da brutalidade, mostra que estamos seguindo um caminho muito perigoso. Estamos chegando a um ponto em que os que perderam mãe, pai, filho, marido ou esposa, por não serem realmente pobres, não têm direito nem de sofrer.
     Quem sabe acabaremos como uma sociedade em que bancários, médicos, professores, balconistas, operários devem se esconder de vergonha por não pedir esmola na rua ou não viver de doações públicas? Alguém começa a acreditar que a classe média hoje tachada de "elite", os que com seu trabalho conseguem comer, morar, estudar, é exploradora e quer a desgraça dos demais? Se for assim, estamos tragicamente desorientados por aqui, confundindo perigosamente as coisas. Há no ar um tipo de estímulo a esse ódio de classes destrutivo e antidemocrático. Que censura até os que, às vezes com incalculável sacrifício, entram numa universidade, fazem seu mestrado, quem sabe seu doutorado no exterior – com bolsa de estudos, sim, porque com isso ajudam grandemente a melhorar as condições de vida dos mais desprotegidos em nosso país.
     Se permitirmos que essa doença maligna – o preconceito, pai do ódio e filho da ignorância – nos domine, seremos em breve o mais atrasado no círculo dos povos atrasados, uma manada confusa obedecendo a qualquer chibata ideológica.

Lya Luft é escritora de Veja
 
 
 
 
 

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