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Quinta-Feira, 01 de Fevereiro de 2007, 11h:41 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

LEGISLATIVO

Íntegra do discurso do novo presidente da Assembléia

 Senhoras e senhores,

Quando se lançavam ao desconhecido, superando o medo e mares bravios, os primeiros navegadores olhavam para o firmamento e clamavam pelos ventos. Aos indolentes e despretensiosos, os céus mandavam a calmaria, que não assustava, mas também não conduzia a lugar algum; aos corajosos, Deus derramava as tempestades e as tormentas, fortalecendo suas almas e revigorando-lhes a vontade de desafiar os oceanos. Muitos foram aqueles que conseguiram suportar o rigor dos ventos, mas poucos foram os que souberam tirar proveito dele para direcionar seu destino, içando velas rumo às promessas venturosas do futuro.

Como os velhos marinheiros, escolhi as longas jornadas. Também atravessei incontáveis temporais, mas nunca deixei de confiar na sorte dos ventos, que me impuseram adversidades e obstáculos, sim, mas sempre souberam soprar bons caminhos.

Aportei nestas terras em 1980, como estudante do curso de Agronomia da Universidade Federal de Mato Grosso. Meu primeiro sentimento foi o de paixão por este lugar. Fui arrebatado pelos encantos destas paisagens. O conhecimento dos temas ligados à agricultura, me abriram as portas para o jornalismo especializado. Naquele tempo, o agronegócio era ainda uma miragem, mesmo assim acreditei nos ventos que sopravam nesta direção. Fixei-me nas árduas lides da imprensa como maneira de conhecer este imenso Estado e me tornar um porta-voz de sua gente.

Conforme o tempo avançava, mais identidade e mais amor assumia por Mato Grosso. Investi meu futuro aqui. Formei-me também em Direito e busquei na política uma continuação da tarefa de defender nosso povo, elegendo-me vereador por Cuiabá e, depois, duas vezes deputado estadual.

Portanto, minha principal bússola nesta bela viagem, tem sido o esforço e a luta cotidiana pela superação. Minha estrela-guia é a crença de que o suor fecunda a terra com a semente da prosperidade e abençoa o espírito dos valentes com o bálsamo da esperança. Pois, como ensinou o poeta romano Virgílio, “o trabalho persistente vence tudo”.

Mas, o trabalho sem a fé nada pode; apenas edifica paredes frágeis e não finca as estacas de um alicerce sólido e duradouro. Estou aqui construindo meu próprio destino, por graça do Senhor. Porque minha fé é maior que minha coragem, mais límpida que meu desejo e mais forte que meus propósitos. “Eu sou o teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão”, proclamou o livro do Êxodo, para entalhar na consciência dos homens que o livre arbítrio é estéril sem a devoção. Deus nos oferece a paisagem, mas o caminho nós mesmos devemos palmilhar com sabedoria e humildade. Cada passo é uma existência. Cada dia uma nova luta.

Temos que aprender a lutar. Lutar com dignidade e coragem é a herança de homens e mulheres livres, que se apegam à vida com o destemor dos missionários, que usam a palavra como espada para ceifar o pessimismo e as obras como escudo contra a descrença. A justiça é o amálgama dos puros. E diante dos justos, o vício definha e fenece. “O bom coração rompe a má sorte”, profetizou Cervantes, em Dom Quixote.

Nesta Assembléia, nossos corações se entrelaçam na busca pela justiça e pelo desenvolvimento humano e econômico de nosso povo. O que nos une não é nada mais que a luta pelos direitos individuais, pelas salvaguardas constitucionais e pelas oportunidades coletivas.

Senhores deputados,

Somos os legítimos emissários da vontade popular, sagrados pelo voto livre e direto. Somos a alma do Estado soberano. Somos a seiva da vida democrática. Aqui neste Parlamento praticamos o diálogo e a tolerância. Brota deste plenário a mítica fonte da representatividade e do equilíbrio político. Repousa sobre os ombros desta geração de parlamentares, mais que a prosaica outorga de atividades burocráticas; paira sobre nossa responsabilidade, isto sim, o compromisso de esculpir institucionalmente a nova face de nossa comunidade, aperfeiçoando nossos traços culturais, realçando nossa vocação para o desenvolvimento, revitalizando o apoio às causas sociais e combatendo as mazelas burocráticas e intervencionistas do Estado.

Legislar é um ato de fé!

É amarrar os fios da realidade no tear de sonhos. Legislar é tecer esperança, fiando o amanhã nos pontos de convergência, e na arte de modelar possibilidades. Usamos o tear do debate para compor a estampa do destino de nossa gente, desenhando oportunidade e justiça social. “Nossa realidade é feita de fatos, de sangue nos olhos e lama nos sapatos”, cantou Chico Buarque, nos anos 70, para expressar seu desapontamento com a situação nacional. De lá para cá, a única coluna patriótica que sustenta nossa autodeterminação é o arraigado sentimento democrático que se cristaliza no Parlamento brasileiro.

Erramos! Como qualquer outra entidade, cometemos enganos. Mas as falhas eventuais não encobrem nossa vontade férrea de defender o povo. Nossa organização é firme e soberana. E, ao longo do tempo, têm sido o esteio dos avanços políticos da sociedade brasileira.

Mesmo nos momentos de trevas e autoritarismo, o Parlamento não se curvou. Assumiu a posição de vigilância e luta. Resistiu. Alguns de seus eleitos foram perseguidos e pagaram a ousadia com a própria vida. Saibam, senhores, que até as ditaduras e as tiranias já governaram; mas só a sabedoria e a esperança souberam legislar.

Caros irmãos deputados,

Nossa missão será árdua. Teremos que edificar uma obra de engenharia política notável. Com nossos mandatos, assumimos também a incumbência de construir a travessia de uma estrutura anacrônica de poder, ancorada em preceitos desgastados, para um marco regulatório moderno que estimule a produção, reduza tributos, gere empregos, promova avanços sociais, invista em tecnologia, financie a educação e trave um combate rigoroso contra a miséria.

Legislar é ousar. É desafiar anagramas coloniais do serviço público. É impor o desejo da maioria garantindo os direitos da minoria. Neste fundamento, temos que reconhecer a imensa boa vontade do governador Blairo Maggi, um personagem que muito tem contribuído para alargar os horizontes de nossa sociedade, ajudando a arrebentar, com desvelo, velhos grilhões que dificultavam o progresso de nossa gente.

Senhoras e senhores,

Nossa geração não tem mais tempo para aguardar o acaso. Algumas questões devem ser enxergadas com o farol da urgência e iluminadas pela inadiável busca de soluções compartilhadas entre governo e comunidade.

A violência urbana é uma delas. Nossos jovens tombam sem honra no campo de batalha informal na periferia das grandes cidades. Balas perdidas riscam o futuro de estudantes e trabalhadores. O tráfico de drogas rouba a paz de nossas famílias. Somos reféns do crime que se organiza e afronta o Estado. Basta lermos os jornais ou acompanharmos o noticiário do rádio ou da televisão para compreendermos que a violência não é um cenário distante, ela bate em nossas portas.

Outro tema importante, do qual não podemos fugir, será o ordenamento da exploração de nossos mananciais. O meio ambiente não pode ser a vítima corriqueira da visão deformada de empreendedores voltados unicamente para uma filosofia expansionista do capital. O que está em jogo agora é a saúde de nosso bioma. É o futuro do planeta.

Senhores deputados,

Jamais alcançaremos um grau aceitável de civilidade e aperfeiçoamento humano se o setor educacional não sofrer uma profunda transformação nos próximos anos; alterando métodos, focando as atenções na qualificação profissional, na renovação de linguagem, no investimento em tecnologia e na ampliação do atendimento multidisciplinar. Para tanto, governo, setor privado e sociedade devem se unir. Não apenas para ajustar condutas, mas sim para fomentar este novo modelo educativo.

Sem investimentos no ensino não podemos planejar um Estado rico e auspicioso. Porque a ignorância é a pior das misérias.

Também não podemos relegar a um plano secundário, áreas como a saúde, saneamento e habitação. Setores de infra-estrutura social responsáveis por permear o Índice de Desenvolvimento Humano em nossa sociedade.

Gente saudável, abastecida por água tratada e morando com dignidade: este é o cenário pelo qual tanto nos desdobramos nesta Casa. Um quadro que se completa com uma maior atenção a problemas urbanos, tais como o adensamento populacional de cidades como Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis, repercutindo na ocupação inadequada dos espaços e na ineficiência do transporte coletivo.

Gente também precisa de oportunidade e de emprego. Por isso, vamos perseguir de maneira obsessiva as questões pertinentes à geração de emprego em nossa região. Que os necessários investimentos em infra-estrutura se convertam rapidamente na oportunidade de trabalho para nossos cidadãos. Porque o maior patrimônio de um Estado não são as estradas, as pontes, as usinas hidrelétricas, os aeroportos ou portos; nosso maior capital é a felicidade de nossa gente.

Porque é da energia do braço e do pulsar vigoroso do coração destes anônimos arquitetos do possível, que subtraímos a força motriz para impulsionar o progresso. Do sonho dos pioneiros colhemos campos de soja, milho e algodão. Da fibra dos empresários levantamos indústrias e a sofisticação de nosso parque tecnológico. Da dedicação dos estudantes montamos o planejamento do porvir. E do calo das mãos de operários e lavradores tiramos inesgotável capacidade para semear o futuro.

Senhores deputados,

Temos incontáveis problemas pela frente. Mas, também possuímos uma fórmula mágica para buscar soluções: o diálogo. Nosso remédio está na alquimia para transformar contraditórios em convergência, disputas em entendimento e conflitos em paz! A pedra angular desta reconstrução institucional é o debate. Ou seja, a exaustiva e imperturbável militância da política. Expressão tão maltratada pelos nossos contemporâneos, mas que emoldura o foco das alternativas para o combate às nossas mazelas sociais.

Talvez por isso, o aperfeiçoamento técnico de nossa legislação eleitoral seja tão premente. Para que os partidos ganhem musculatura ideológica e evoluam para a condição de vetores das transformações políticas de nossa sociedade. Somente com legendas fortes poderemos trilhar os verdadeiros caminhos das democracias participativas.

Os partidos com representação neste Parlamento, demonstram elevado espírito de compromisso público, colocando-se sempre em defesa das legítimas aspirações de nossa comunidade. PSDB, PT, PTB, PP, PMDB, PDT, PFL e PPS são os elos de uma corrente inexpugnável, quando se trata da proteção dos valores mato-grossenses. Mais do que isto, nosso colégio de partidos sustenta a crença nos direitos individuais e coletivos de nossa gente. Pois, conforme escreveu o pensador católico Alceu de Amoroso Lima: “A democracia é um regime de convivência e não de exclusão. Baseia-se na liberdade, como forma de organização”.

Hoje consagramos, aqui neste plenário, a vitória da unidade. O soerguimento do diálogo como principal instrumento de negociação política. A eleição da chapa à mesa diretora da Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso, que tenho a honra de presidir, se converteu, ao logo dos últimos meses, em ferramenta de união e concórdia da maioria dos senhores deputados.

Mais do que um vitorioso, sinto-me um agraciado. Ungido pela bondade de meus pares. Porque qualquer um dos senhores daria dimensão e estatura ao cargo que assumo com humildade e zelo. Recebo esta delegação compungido pela modéstia, mas comprometo-me, com os senhores e, sobretudo, com a sociedade mato-grossense, transformar-me em um leão sempre que sinta ameaçadas as prerrogativas desta Casa de Leis ou aviltada a soberania do povo.

Que a minha humildade nunca seja confundida com apatia; que a minha disposição para o diálogo não seja interpretada como indecisão; e que minha afeição jamais seja trocada por submissão. Terei a firmeza que esta cadeira exige, a coragem que meus companheiros esperam de mim e a força que o povo me outorgou.

Bebo da fonte de sabedoria dos antepassados, da experiência de meus antecessores que nos legaram uma herança de bons princípios e altivez cívica; mas banho-me nas águas transparentes do viço e da juventude daqueles que têm ideais e lutam por um futuro melhor.

O passado é o espelho do que somos; e o presente, reflexo do que podemos ser.

Senhores deputados,
Quero abraçar a cada um, manifestando a gratidão pela confiança depositada em mim. Saibam que farei tudo para honrar tal expectativa. Somente a retidão e o caráter de personagens tão ilustres da vida mato-grossense, como vossas excelências, seriam capazes de tamanho gesto de grandeza, conferindo-me a presidência desta augusta Casa de Leis.

Agradeço ao corpo funcional deste Parlamento, pelas lições diárias de dedicação e competência com que orientam nossos serviços. Faço especial referência à imprensa, que oferece transparência aos nossos atos, aliando-se ao nosso compromisso de salvaguardar os interesses do povo.

Rendo aqui também homenagens à minha família - minha esposa Andréia, meus filhos Ricardo Guilherme e Gabriel, meu pai Dácio, minha mãe Doroti, meus irmãos Márcio Leandro, Ronaldo César e Alberto, minhas irmãs Deise, Rosana, Adriana e Giseli - e aos meus leais amigos e eleitores, pois sem o carinho e o apoio deles jamais teria chegado até aqui. Eles são os bons ventos de minha jornada.

Quero agradecer a Deus, o Grande Arquiteto do Universo, que tem abençoado a minha vida e iluminado o meu caminho.

E diante do futuro que nos espera, eu finalizo minhas palavras lembrando Paulo, o apóstolo evangelizador, quando lá em Romanos ele diz: “Se Deus é por nós, quem será contra nós”.

Muito obrigado!

Sérgio Ricardo - presidente da Assembléia Legislativa

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