Últimas

Segunda-Feira, 04 de Junho de 2007, 11h:48 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Invasão da vida pública

 

     "Renan respondeu às acusações no lugar errado – a cadeira de presidente do Senado.O que fazia ele sentado lá? Tentava se confundir com a instituição. É o nosso Luís XIV das Alagoas?" . Confira reprodução abaixo. 

     O senador Renan Calheiros, capturado no centro do escândalo sobre suas relações financeiras com um lobista de empreiteira, cometeu o pecado de invadir a vida pública.
     Ao tentar explicar-se para os colegas por meio de um discurso de 2.800 palavras que levou 23 minutos para ler, o senador quis apresentar-se como vítima de uma invasão de sua vida privada. No discurso, disse que iria "confessar pecados" e revelar "segredos sagrados" para defender-se do "pseudo-escândalo" sobre sua "vida pessoal". Reclamou que não tinha o direito de usufruir a "cláusula pétrea" que garante "privacidade a todos" e reclamou do "constrangimento" de expor sua "vida íntima e pessoal". Voltou ao tema várias vezes e, lá pelas tantas, declarou: "O que eu quero mais uma vez denunciar é essa ignomínia da invasão da minha vida privada, daquilo que é mais sagrado na construção da sociedade, que é a família". Tudo show de autovitimização.
     Veja não invadiu a privacidade de Renan Calheiros. Denunciou, isso sim, que o senador tinha relações promíscuas com um lobista de empreiteira que pagava suas despesas pessoais. Que despesas? A pensão e o aluguel para a jornalista Mônica Veloso, com quem teve uma filha. Ponto. Na reportagem, VEJA não publicou o nome da criança. Não disse que o senador era casado quando teve a filha, não disse que se tratava de uma relação extraconjugal, não informou quanto tempo durou o romance, onde se encontravam, nada. Não disse – para usar uma expressão que o senador adora – "abissolutamenti nada" que pudesse soar, ainda que remotamente, como uma invasão de sua vida pessoal. Aliás, que se saiba: VEJA teve acesso a cinco transcrições de conversas gravadas entre o senador e a mãe de sua filha. É lixo para jornalistas, mas uma delícia para alcoviteiros. VEJA fez jornalismo e não lhe invadiu a vida privada.
     Renan é que invadiu a vida pública. A começar pelo fato de que respondeu às acusações no lugar errado – sentado na cadeira de presidente do Senado. O que fazia ele sentado lá? Nem Jader Barbalho, quando enredado em seus ranários e fazendões, agiu de modo tão lamentável. E por que Renan falou daquela cadeira? Para envolver o Senado da República em sua crise individual. Para se dar mais poder, impressionar a platéia, jogar o peso de sua autoridade sobre a mãe de sua filha, escudar-se na instituição. Renan não foi acusado de nada na condição de presidente do Senado, mas como homem público, de quem se suspeita pesadamente que se envolveu numa teia de favores e corrupção. Que falasse da tribuna, como qualquer senador. Mas não.
     A certa altura de seu discurso, lacrimoso e esburacado, o senador deixou evidente sua tentativa de envolver o Senado da República em seu problema pessoal e chegou a dizer o seguinte: "Quando me agridem, ferem também uma das mais altas instituições nacionais. Quando me miram atingem a instituição". Mas que raios o senador pensa que é? A personificação das instituições nacionais? Luís XIV das Alagoas? Le Sénat c'est moi? A atitude do senador é um disparate, mas não é propriamente um ineditismo: é apenas o velho retrato da usurpação da coisa pública com propósitos pessoais.


André Petry é articulista de Veja

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

CAA-MT fará vacinação contra H1N1

ittalo leite 400 caixa de assistencia   A Caixa de Assistência dos Advogados de Mato Grosso (CAA/MT), presidida por Ittalo Leite (foto), já deu início à Campanha de Vacinação Contra a gripe H1N1. Serão disponibilizadas seis mil doses da vacina para imunização contra a Influenza A e B,...

Governo compra 103 motos para PM

O governo estadual vai entregar nos próximos dias 103 motocicletas à Polícia Militar. Isso deveria ter ocorrido nesta segunda, mas foi adiado e ainda sem data definida. As motos serão utilizadas pelas equipes de policiais da Companhia Raio de Moto-Patrulhamento, Força Tática e pelo policiamento ordinário na Região Metropolitana de Cuiabá e em vários outros municípios. No primeiro lote, o governador Mauro...

Ex-prefeito, contratos e multa do TCE

jeovan faria 400   O ex-prefeito de Campinápolis, Jeovan Faria (foto), vai ter de pagar uma multa equivalente a 10 UPFs/MT, o que corresponde hoje a R$ 1,8 mil, como punição por contratação de pessoal por tempo determinado sem atender à necessidade temporária de excepcional interesse público....

Decon investiga "fura-fila" da vacina

O delegado Rogério Ferreira, da Especializada do Consumidor (Decon), instaurou o que se chama de Auto de Investigação Preliminar para apurar possíveis irregularidades no cumprimento da ordem de vacinação contra a Covid-19 dentro dos critérios estabelecidos pela Prefeitura de Cuiabá. Na prática, busca investigar possíveis situações de “fura-fila” e outras circunstâncias ilegais. Rogério...

Um assessor parlamentar no TCE-MT

carlos brito 400   Carlos Brito (foto), que já ocupou diversos mandatos eletivos, será nomeado assessor parlamentar do TCE, cargo ligado diretamente à presidência. Ali, em sintonia com o gabinete do presidente Maluf, terá a missão de regulamentar o processo de solicitação da Assembleia...

Covid mata 20º pastor da Assembleia

aparecido domingues pastor cidao 400   Morreu neste sábado mais um pastor da Assembleia de Deus em consequência da Covid-19. Aparecido Francisco Domingues, o Cidão (foto), que era vice-presidente em Paranaíta, é o 20º pastor da Igreja em Mato Grosso a vir a óbito, após ser infectado pelo novo...