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Sábado, 23 de Junho de 2007, 09h:19 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Jogos das espertezas

     Nas crises políticas que atravessamos sob o comando de um presidente que veio do operariado, já vão longe os nossos desencantos, assistindo o surgimento de crises atrás de crises éticas. A mais recente, conduzida por súditos de José Sarney do governo Lula da Silva, em uma desmoralização sem limites. Dentro tantos defensores do arquivamento e absolvição a qualquer custo do processo contra Renan Calheiros, está o governador de Mato Grosso, que teria pedido ao senador Jonas Pinheiro que vote pelo arquivamento do processo, quando até o próprio José Sarney, Epitá(f)cio Cafeteira e o próprio planalto já recuaram deste desgaste inevitável. O senador Sibá Machado (PT/AC), Ideli Salvati(PT/AC) e tantos outros revelam-se portadores de cinismos sem limites na defesa do não prosseguimento das conduções que avaliem a responsabilidade do senador. Hoje, o senador Sibá continuará sendo o coveiro para sepultar quaisquer investigações? Se as CPIs fossem sérias, não haveria caldeirão suficiente para tanta fervura. Quantos sobrariam?
     Grande parte dos parlamentares "tem o rabo preso" de alguma forma, e no pânico, usam como moeda espalhar sujeira no ventilador, ameaçando arrastar muita gente. Não é por outro motivo que Renan Calheiros no início, e agora voltou a fazer ameaças de denúncias para devassa em outros parlamentares. Temos a declaração de um senador dizendo que não vai se meter em nada porque amanhã poderá ser ele próprio a sentar no banco dos réus. Por isso que é muito difícil romper com este círculo vicioso, porões onde vicejam bandas inconfessáveis do corporativismo parlamentar. Tudo isso ocorre sem o menor constrangimento, pois acreditam que a opinião pública não vale nada, e que se encontram acima do mal e do bem. Esta é a face deste presidencialismo chamado de coalizão, que transfere para a base aliada os desvios que estão sob a gestão do(s) governo(s). É neste tipo de jogo que se evidencia a possibilidade desta crise atingir a espinha dorsal da estratégia de coalizão-base aliada do governo, podendo ter desdobramentos que fugiriam ao controle na garantia de fidelidade ás decisões do Planalto.
     O que chama atenção nestes fatos recentes é a verdadeira mistura e confusão entre o que é próprio do ambiente doméstico, amigos e família, do que é público e específico do Estado. É um passado que volta sempre com força e de maneira crônica, que se chama patrimonialismo. É preciso neutralizar esta herança e chaga colonial nefasta, que tem sua expressão nas relações de caráter privado impondo-se sobre as de caráter público. Temos então um Brasil legal e um Brasil real, onde a política é transformada em um instrumento de troca, em um processo de mercantilização que atinge todas as instâncias de um Estado, que deveria ser eminentemente público.
     Na recente linguagem ictiológica (peixes) do presidente, independente de tamanho dos peixes, o que se sabe é que na ecologia política real estão de fato ameaçados, por exemplo, pela sanha das empreiteiras no projeto "empacado" do PAC. Pára quem foi contra a voracidade dos tubarões, agora aliados aos mesmos, o que sabemos é que este governo é mestre em "trairagem" contra as conquistas dos trabalhadores e as políticas sociais que o povo brasileiro necessita. Em cena a compra e venda de votos parlamentares em moedas mais variadas, potencializadas pela coalizão, que se alia a tudo de ruim em nome da governabilidade. O orçamento público nativo continua como garantidor destas "negociações". Isto reflete na apatia do discurso político, na despolitização e, sobretudo, na falta de alternativa ao modelo de poder. Além da epidemia de desesperança, o preço disto na luta democrática é a extensa contribuição que se dá para uma avaliação enganosa de apelo popular, onde todos os políticos são iguais. Do descrédito na política. Isto só serve ao verniz que esconde a carcomida e corroída cultura política negativa do "toma-lá-dá-cá".

Waldir Bertúlio é sanitarista, professor da Universidade Federal de Mato Grosso e escreve em A Gazeta aos sábados

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