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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2007, 09h:03 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Juros, câmbio e nós

     Sem ligações aparentes entre si, a decisão do Fed, o banco central dos EUA, de reduzir a taxa de juros no mercado americano, a persistente desvalorização do dólar no mercado mundial e a produção agropecuária de Mato Grosso guardam uma ligação mercadológica que poderá afetar, para o bem e para o mal, a dinâmica da economia de nosso estado.
     O dínamo da economia de Mato Grosso é movimentado pela produção agropecuária, liderada pelos grãos, fibras e carnes. Um dos campeões nacionais da produção de alimentos, Mato Grosso tem grande porção da sua produção vendida no mercado externo, sendo, por conseguinte, muito sensível às políticas cambial e de incentivos fiscais à exportação, ambas determinadas pela equipe econômica do governo federal.
     Uma das principais vantagens competitivas do agronegócio de Mato Grosso sustenta-se no modelo de renúncia fiscal da chamada Lei Kandir que isenta do pagamento de tributos estaduais e federais a exportação de bens primários, e nos mecanismos de desvalorização cambial que estimulam as vendas para o mercado externo, contribuindo para a geração de superávits anuais na balança comercial brasileira.
     Com a implantação da Lei Kandir, as exportações de bens primários em Mato Grosso, liderados pela soja, deram um salto esplendoroso, comparável aos dos maiores campeões olímpicos. Em 1996 as exportações de nosso estado eram de apenas US$ 659,30 milhões, saltando para US$ 4,33 bilhões em 2006. Além dos benefícios da Lei Kandir, outro fator que alavancou as exportações mato-grossenses foi a política de desvalorização cambial, adotado pelo governo federal a partir de janeiro de 1999, que atingiu seu ápice ao final de 2002 quando a relação o dólar chegou a ser cotado a absurdos R$ 3,80.
     O anúncio do Fed de reduzir sua taxa básica de juros de 5,25% ano para 4,75% foi a sua intervenção mais marcante para conter a onda de turbulência financeira iniciada a partir do mercado imobiliário dos EUA, gerando uma crise de confiança que se alastrou por toda a economia mundial. As bolsas de valores do mundo inteiro reagiram imediatamente, algumas até mesmo vivendo clima de euforia, vislumbrando a possibilidade de grandes investidores direcionarem seus recursos para outros mercados mais atrativos que o americano. O resultado imediato no Brasil foi a queda da cotação do dólar frente ao real. Na última sexta feira o dólar estava cotado a R$ 1,86.
     Se os agricultores mato-grossenses já se sentiam penalizados com o dólar cotado pouco acima de R$ 2,00, com a cotação a R$ 1,86 tendendo a R$ 1,80, a situação agrava-se ainda mais, reduzindo a já achatada renda agrícola.
     Como não vejo de imediato perspectiva de alterações na relação dólar/real, pois a tendência mundial de desvalorização do dólar frente a todas as moedas não se modifica e até acelerou com a última medida do Fed, resta à cadeia produtiva de Mato Grosso adaptar-se ao novo cenário do real valorizado perante o dólar para manter o elevado ritmo de crescimento da última década.
     Reduzir custos de produção, exigir dos governos estadual e federal investimentos para melhoria da infra-estrutura, logística, transportes e destinar uma porção maior da produção para o mercado interno tornam-se medidas obrigatórias e decisivas para os empresários agrícolas, pecuários e indústrias processadoras de alimentos instaladas em Mato Grosso, como forma de mitigar um pouco os efeitos negativos do real valorizado, ao mesmo tempo que tiram proveito do crescimento do mercado interno, impulsionado pelo aumento do consumo das famílias e pelos investimentos produtivos.

Vivaldo Lopes é economista, especializado em gestão empresarial pela FIA/USP, consultor da Fundação Getúlio Vargas. E-mail: vivaldo@uol.com.br

 

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