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Sexta-Feira, 06 de Abril de 2007, 00h:00 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Lata na vara

      Por ocasião dos 288 anos de emancipação político-administrativa de Cuiabá, comemorados neste domingo (8), a articulista de A Gazeta, Adriana Vandoni, recorda, em artigo, a sua infância no centro e conta que o Clube Feminino sempre esteve no seu imaginário. Confira abaixo.

     Sou saudosista pela própria natureza, sinto saudade de tudo, até do que não vivi. Quando entro hoje no Clube Feminino, agora restaurado pelo secretário de Cultura de Cuiabá Mário Olímpio, sinto como se estivesse entrando em um castelo.

     É verdade. Passei a minha infância ali perto. Morava na Rua Campo Grande e quase todos os dias pela manhã eu acompanhava minha mãe que ia bater papo na casa de Tia Dindinha, ao lado do então abandonado Clube Feminino. Tia Dindinha era Irene Novis, tia e madrinha da minha mãe. Essa é uma mulher que marcou profundamente minha vida. Ela possuía enorme alegria e felicidade de viver, parecia nunca ter tido problemas. Hoje eu a definiria como serelepe, graciosa, viva. Espalhava alegria e doçura com seu rostinho de menina sapeca. Lá de dentro de casa eu sabia quando Tia Dindinha estava passando pela frente, ela passava assobiando, um assobio que era só dela, era como se ela estivesse dizendo: “bom dia, sou eu que estou passando”.

      Então eu ficava lá, escutando a conversa das duas e quando elas comentavam dos antigos bailes do Clube Feminino eu voava na minha imaginação. De tão encantada, tinha a impressão de escutar as músicas que tocavam nos bailes. Lembro-me das duas comentarem sobre um fato ocorrido lá quando um jovem foi impedido de entrar no clube por não ter compostura. Ao escutar o “não tinha compostura” disparei a perguntar o que significava aquilo. Elas explicaram que o rapaz era encrenqueiro, meio revoltado e insatisfeito com sua própria vida, apesar de ser apenas um rapaz e, como era assim “azedo”, brigava em todos os bailes, por isso estava proibido de freqüentar o clube Feminino. Foi a presidente do clube na época que o barrou na entrada do baile. O caso ficou meio confuso em minha cabeça até que, já crescida, conheci o dito cujo, hoje já um senhor, e entendi tudinho o que elas queriam dizer.

    Dessa forma o Clube Feminino sempre fez parte do meu imaginário. E foi lá que dias atrás, acompanhando minha filha num fim de tarde organizado pelo cuiabaníssimo Carlinhos Alves Correia, que me encontrei com a sempre esfuziante Carlina. Nossa, há quanto tempo não batíamos um bom papo! Conversa vai, conversa vem sobre a Cuiabá da nossa infância e sobre muitos cuiabanos, quando Carlina disse:

      - E quando a gente pegava água da Prainha com uma lata amarrada numa vara? Você lembra Adriana?

     - Ah pópará, Carlina. Disso eu não lembro.

    - Lembra sim, Adriana. Deixa de ser cínica. Você também pegava água da Prainha com lata na vara pra molhar a rua e baixar a poeira.

    - Não pegava não. Lembro da Prainha ainda aberta, claro, mas nunca peguei água com lata na vara, juro.

    - Hummm, tá bom Adriana, vou fingir que acredito.

    Essa discussão foi motivo de deliciosas gargalhadas. Mas juro de pé junto, que nunca peguei água da Prainha com lata na vara. E olha que eu era de aprontar, até entrar no Cine Bandeirantes caminhando pelos telhados, isso eu fazia. Mas fui perguntar a mais pessoas e de fato essa era uma prática comum. Eles pegavam latas de tinta, faziam muitos furos em baixo, amarravam numa vara e faziam uma espécie de regador. Acontece que Carlina morava quase ali na Prainha e ela devia fazer isso não pra baixar a poeira, mas de molecagem mesmo. Ou alguém duvida que ela tenha sido moleca na infância? Aliás, sobre Carlina preciso contar do convite da sua festa de 15 anos. Foi bárbaro. Gente, tinha um espelho e o texto só podia ser lido pelo espelho. Nossa, nunca mais me esqueci do convite de espelho. Era muito chique, meus olhos até brilhavam. Porém, eu não recebi o convite, só meu irmão que pra me sacanear não me deixava nem pegar no convite, e ainda zombava de mim:

   - Você não vai porque é café-com-leite, eu não, já sou grande, vou pra festa de Carlina. Criança tem que dormir cedo.

   Ele dizia isso como se existisse uma diferença enorme entre nós. Ai que ódio que isso me dava. Eu sapateava de raiva e ele ria da minha cara. Acho que fiquei traumatizada. Tudo por causa do convite de espelho.

   Pois é, são tantas histórias e causos da nossa Cuiabá que eu ocuparia o jornal inteiro pra contar. Esse meu saudosismo...em outro artigo eu conto sobre os espetinhos de abacaxi com carne de porco, espetados em meias bolas de isopor encapadas com papel de alumínio. Era chiquéeeerrimo, mas pereciam porcos espinhos futuristas...hahaha.

   Será que no Clube Feminino serviam abacaxi com carne de porco, espetado no isopor? E na festa de Carlina, será que teve? Nunca fiquei sabendo. Ai...esse meu trauma!

 Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ e articulista de A Gazeta. Cuiabá/MT - Site: www.prosaepolitica.com

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