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Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007, 07h:32 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Lula e o sábio anticlímax

   "Um Lula confrontado com as demandas de um lulismo tem consciência de que uma frente de mudança é hoje multipartidária". A avaliação é de Candido Mendes, membro da Academia Brasileira de Letras, em artigo nesta segunda (22) na Folha de S. Paulo. Leia reprodução abaixo.

    LULA TEM todo direito a férias, na fruição olímpica do novo mandato. Nunca foi tão poderoso o homem do Planalto, a ponto de se permitir o anticlímax deliberado da repartida. A pescaria no Guarujá pode até servir de parábola à certeza do presidente da República, na volta ao trabalho e na força pensada do como o fará. Inclusive no descartar a convenção das expectativas frente ao que seja o avanço da mudança social brasileira. Responde o instinto, hoje, de Lula, a essa visão funda de sua gente, que sofre a injustiça e a penosa melhora coletiva, ao contrário das elites do subdesenvolvimento e suas retóricas da pressa ou do luxo utópico pelas alternativas.
    Os quadros do Planalto serão, mais do que nunca, os desta fidelidade do Planalto aos seus companheiros, de par com a outorga de suas tarefas. Descentralizou sempre e guarda a visão colegiada sindical, que confia e não tem a urgência de cobrar.
O discurso de posse conseguiu fugir ao bordão do crescimento, tal como o sucesso a advir não precisa de mais que da dita interinidade do presente governo.
Os ministros terão dificuldade em sair dos cargos, tanto não se confrontem com o novo baralho clientelístico de recompensas, para assegurar um situacionismo esvaziado da dominância petista original.
    Mas até onde, na pescaria do Guarujá, dá-se conta o presidente Lula de que não precisa de um governo clássico de união nacional, quando sua força objetiva independe de partidos nem precisa de decantadas reformas básicas e quebras-de-braço com o Congresso Nacional?
    Assegurou o primeiro mandato o processo de redistribuição de renda -e o povo sabe disso- extravasado do assistencialismo do Bolsa Família, como vituperaram os opositores, somado ao microcrédito e ao sucesso da agricultura familiar. E não precisará o Executivo de outro poder, no avanço do programa.
    E, para falar das heterodoxias criativas, aí está o arranque das parcerias público-privadas, as PPPs, fora dos fantasmas estatizantes e ao mesmo gosto do governador José Serra, na presença ativa do Estado na geração da nossa riqueza.
    O reenfoque partidário que supõe o novo governo é prospectivo e vai já ao realinhamento federal para o ganho das eleições municipais e, aí, ao favorecimento do PMDB para enfrentar o pefelismo a ter hoje como sócio o tucanato, esvaziado da proposta social democrática de antanho.
    O partido que vem agora ao poder não o faz impunemente. Tanto ocupe o espaço petista, tanto tem mais a oferecer ao eleitorado que os ganhos e perdas do situacionismo de sempre.
    Um Lula confrontado com as demandas de um lulismo, desprendido de seu partido, tem consciência de que uma frente de mudança é hoje multipartidária, a fugir tanto do populismo quanto do purismo ideológico das esquerdas clássicas, à busca das efetivas mudanças abertas no cenário internacional.
    O discurso de posse é o de quem já venceu as tentações de uma consciência solitária no Planalto. E atenta ao quanto, para além do partido implodido, supõe, ao lado da valorização sindical, a dos movimentos sociais e das cidadanias políticas, brotadas do Bolsa Família e do trabalho sem carteira assinada.
    O eventual fracasso do presidente Lula escapará da tábua de expectativa da oposição. Seu sucesso se antecipará no caráter plebiscitário que poderão ter as novas eleições municipais, fugindo aos microinteresses para vir ao apoio federal, pondo a Federação a serviço de um Estado de desenvolvimento.    Uma política urbana remeterá, numa consciência de mudança, tal como o Bolsa Família tocou o país para vencer, de vez, a melancolia de mero retorno ao status quo, dos fins de festa clássicos das nossas Presidências.


 

CANDIDO MENDES , 78, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

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