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Domingo, 12 de Julho de 2009, 01h:09 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:23

RELATO

Municípios expõem contrastes; na 070 índios ameaçam

   Romilson Dourado

  Após quase três anos "enfurnado" aqui no RDNews em Cuiabá, comecei a viver uma experiência diferente de visitar para conhecer e retratar um pouco a história e, principalmente, as personalidades empresariais e políticas dos municípios. Durante uma semana estive em alguns municípios das regiões do Vale do São Lourenço, do Sul e do Leste, como Jaciara, Rondonópolis, Poxoréu, Primavera do Leste, General Carneiro e Barra do Garças. A cada mês quero me deslocar para uma determinada região, até visitar todos os 141 municípios mato-grossenses.

   Nesta primeira etapa, me deparei com situações inusitadas. Percebi ações administrativas nas ruas mas, também, quadro de caos e de ingerência, conflitos e tensão. Encontrei um povo cheio de planos e que sabe cobrar do poder público, mas que também não tem paciência para esperar tanto por providências, desde questões básicas, como abertura de novas salas de aula, à atração de indústrias para fomentar emprego e renda à população.

   Há municípios que, no âmbito administrativo, depende praticamente do FPM para manter os serviços essenciais, enquanto outros se transformaram de tal modo que enfrentam até congestionamento no trânsito. Quem pensa que a lentidão no trânsito no horário de pico em Mato Grosso só acontece em Cuiabá é porque não esteve nos últimos meses em Barra do Garças, na divisa com Goiás. A BR-070, que corta a cidade, registra longa fila de veículos, principalmente pesados. A situação é similar em Primavera do Leste.

   Perigo na rodovia

   Aliás, o setor de transporte continua sendo problemático nas regiões. Quando se tem rodovia federal, não se vê manutenção e conservação a contento. Na quinta (9) me deparei com dois acidentes num trecho de menos de 20 km, entre Primavera do Leste e General Carneiro, na BR-070, todos provocados por buracos na rodovia. No primeiro, um motorista de uma carreta acabou perdendo o controle do volante numa curva, depois de tentar desviar de uma "cratera" na pista. Transportava mais de 20 toneladas de carne maturada. O motorista, a esposa e a filha sobreviveram ao acidente. O que me chamou atenção foi o fato do condutor da carreta ter sido socorrido no local e permanecido ali mesmo, enquanto esperava por outro tipo de socorro, desta vez para resgatar a carreta tombada e manter "intocável" a carga perecível.

   O alerta, inclusive por parte de policiais, foi de que o motorista não poderia deixar a carga sem uma vigilância humana porque índios xavantes, espalhados em várias aldeias na região do Sangradouro, poderiam saqueá-la. Fiquei assustado com esse tipo de comentário. Disseram mais. Contaram que, se alguém abandonar nessa região algum veículo que tenha apresentado problema mecânico e sair em busca de socorro, quando voltar certamente não encontrará mais os pneus. Ao arrepio da Funai, índios costumam bloquear a BR-070 e chegam a cobrar pedágio dos motoristas como condicionante para liberar a pista.

   Acompanhado de minha esposa Suely, segui viagem, rumo a Barra do Garças. Um pouco à frente, eis que avisto dois veículos com a frente e lateral destruídos. Um deles estava capotado. O acidente teria sido motivado por buracos na rodovia. Um motorista foi desviá-los e provocou colisão. Cerca de 15 índios, pintados para a guerra e em poder de pedaços de pau, cercavam um homem, que gritava por socorro. Era um dos motoristas envolvidos no acidente. Ele demonstrava sentir muita dor nas costelas. Mesmo assim, os xavantes disseram que a vítima estava mentindo e que não sairia dali. Acontece que o outro carro batido e capotado pertence aos índios, que tiveram um dos membros da etnica socorrido para o hospital e se encontrava em estado grave.

    Com uma máquina fotográfica nas mãos, desci rápido do carro, com a intenção de ajudar. Perguntei o que estava acontecendo. Um cacique logo me disse:
     - Esse homem aí causou acidente e agora vai ver! Se companheiro morrer no hospital, ele também morre aqui. Daqui ele não sai!
   Olhei para o motorista acidentado, que estava trêmulo. Preocupado com sua integridade física, ele me disse, baixinho:
   - Me tire daqui, pelo amor de Deus! Eles querem me matar! Eu estou muito machucado.

    Nesse momento, chega um veículo com mais cinco indígenas. O clima começa a ficar tenso. Três motoristas de carreta param, descem e se tornam espécie de "protetores" da vítima sob ameaças de morte. A todo instante o cacique insulta:
   - Seu vagabundo, fique mentindo. Fala que está machucado só para sair daqui, mas não vamos deixar. Se índio morrer no hospital, você também vai morrer?

    Aquela situação foi me deixando angustiado. Não tinha como avisar a polícia porque a região não tem cobertura de telefonia móvel celular. Tentei, então, intermediar uma negociação. Propus que o homem acidentado fosse levado para hospital acompanhado de uma comissão de indígenas. A sugestão foi descartada de imediato. E, aí, a coisa acabou ficando feia para o meu lado. Os índios formaram um círculo. Enquanto um agarrou no meu braço, um outro, num verdadeiro pulo de gato, se apropriou da máquina fotográfica. Depois disso, ameaçaram me prender e também bloquear a rodovia. Implorei para pegar o equipamento de volta, mas não teve negociação.

    A alternativa foi sair de fininho, sem a máquina fotográfica e vários registros e com a sensação de impotência diante de um grupo de indígenas revoltados e agressores. Consegui avisar a polícia uma hora depois, quando cheguei no destacamento militar de Paredão, distrito de General Carneiro. De imediato, o policial plantonista acionou as polícias Federal (PF) e Rodoviária Federal (PRF) de Primavera do Leste. Pensei em retornar ao local do conflito, mas confesso que o temor de que algo mais grave poderia acontecer me fez seguir viagem. Felizmente, a vítima que estava sob ameaça conseguiu, com a chegada dos policiais, ter a sua integridade física assegurada.

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Comentários (5)

  • Carlos Alves Dutra | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Meu caro Romilson que bom que vc acordou para o mundo real!! Essa é a nossa realidade!!Que bom que vc descobriu isso!

  • Maga | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Romilson é isso que nos sentimos quando pedimos para vc publicar certas materias, não tão dramatica quanto a sua que podia perder a vida, mas sintimos issos todos os dias quando alguma injustiça acontesse, quando esses roubos dos poderes fica mas e mais em evidencia, agora derão para desviar o ererio nas vista de todos, nem escondem mas. E o povo é delapidado todos os santos dias. Que Deus te abençoe, Proteja , e te de vida e saúde.

  • Ronaldo | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Poxa Romilson, Amarelou?? Tem que peitar os caras meu..rsssss

    Parabéns pela iniciativa, de sair a campo!

  • Marcos Almeida | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Esses índios são mesmo um bando de imprestáveis que não servem pra nada!!! Só atrasam a evolução do mundo...

  • ivan paduim | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Romilson ja o admirava pelo brilhantismo de seu blog e como competente jornalista que é, agora então com esse novo projeto fico ainda mais admirado. assim saberemos a real situação dos municipios e seus gestores.
    HA SÓ UM PUXÃO DE ORELHA, JORNALISTA NÃO PODE TER MEDO.. RSRSRSRSRSR

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