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Sábado, 01 de Dezembro de 2007, 08h:54 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

O Brasil no pelotão

     Em honra ao feito, alguns fatos recentes, uns
tantos comentários e, para culminar, até versos

     De acordo com o último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado na semana passada, o Brasil avançou para o primeiro dos três grupos em que se dividem os países segundo o índice de desenvolvimento humano (IDH). Deixamos o grupo intermediário, o dos países com "médio desenvolvimento humano", e passamos a integrar, ainda que em septuagésimo e último lugar, o honroso pelotão do "alto desenvolvimento humano". O feito vale ser cantado em versos:

 

     De agora em diante, quando o assunto é ideagá,
regozijemo-nos, irmãos: chegamos lá!

 

     O IDH, criado pelo indiano Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia em 1998, é uma medida que combina riqueza com níveis de escolarização e expectativa de vida. A promoção do Brasil é atribuída por um lado ao crescimento da renda proporcionado pelo programa Bolsa Família e por outro pelo aumento da expectativa de vida, que passou dos 70,8 anos no relatório do ano passado para os 71,7 anos no de 2007. Com isso, atingimos 0,800, a pontuação mínima – numa escala de zero a 1 – para figurar entre os mais desenvolvidos. O Brasil, se o leitor se recorda, é aquele país em que, por ordem cronológica...

     Segunda-feira 19: um turista italiano de 29 anos é morto em Ipanema ao tentar evitar que fosse roubado o cordão de ouro de seu pai. Terça 20: os jornais noticiam que uma menina, identificada como "L.", passou quase um mês dividindo a mesma cela de delegacia com mais de vinte homens, no Pará. Quinta 22: onze pessoas são presas, acusadas de pertencer à quadrilha que, apesar de trancafiado numa cadeia tida como "de segurança máxima", o notório Fernandinho Beira-Mar continuava a comandar. Sábado 24: o corpo de uma professora uruguaia, decapitado e com evidências de que sofrera estupro, é encontrado em Imbassaí, no litoral da Bahia. Domingo 25: uma arquibancada do superlotado Estádio da Fonte Nova, em Salvador, desaba, causando sete mortes e dezenas de feridos. Ainda bem que...

 

     Tais probleminhas, um aqui, outro acolá,
que são eles, diante de um alto ideagá?

     Domingo 25, "dia internacional pela eliminação da violência contra a mulher": a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal, órgão da ONU) divulga relatório afirmando que três em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de "violência extrema". Terça 27: um mendigo é queimado na região central de São Paulo. Tem 80% do corpo atingido e é internado em estado desesperador. Mesmo dia: o delegado-geral da polícia do Pará diz que a menina L., aquela trancafiada com os homens na delegacia, tem "alguma debilidade mental". A culpa seria portanto dela. Ainda na terça 27: a Fundação Getulio Vargas divulga estudo informando que 53% dos brasileiros não contam com saneamento básico nos locais em que moram. Ao ritmo em que avançam as obras no setor, a cobertura só será completada, segundo o estudo, no ano de 2122. Ainda bem que, para contrabalançar projeções tão pessimistas...

 

     Aqui, segundo atesta nosso ideagá,
vigora alto padrão de vida desde já.

 

     Imagens fortes são geradas do Brasil para o mundo. A do corpo do italiano morto em Ipanema, estendido, coberto, no asfalto da Avenida Vieira Souto, enquanto a seu lado, sentado no meio-fio, o irmão o velava, a cabeça enterrada entre as mãos, alheio aos carros e às pessoas que passavam. A do Estádio da Fonte Nova dividido: uma parte comemorando a ascensão do time do Bahia à série B do Campeonato Brasileiro, aos pulos e gritos, no gramado, enquanto outra parte, aflita, zonza ou desesperada, se reunia em torno dos mortos e feridos. A da menina L. fotografada de costas, ao lado de um policial. Baixinha e miúda, ela não chega ao ombro do acompanhante. É uma criança. Um cínico poderia concluir:

 

     Se o ideagá tão bem nos trata em sua prancheta,
figure-se como anda o resto do planeta!

 

     O governo da Bahia e o do Pará chegaram a conclusões coincidentes quanto aos desastres que os afligiam. O da Bahia decidiu implodir o estádio em que ocorreu a tragédia do domingo. O do Pará vai demolir a delegacia em que a menor L. esteve presa, trocando sexo por comida com os homenzarrões que lhe faziam companhia. Ainda bem que existe o IDH para lembrar-nos que integramos o pelotão dos países mais afortunados. Senão até poderíamos imaginar um "poemeto da solução final":

 

     Vão pôr abaixo o Fonte Nova na Bahia
e no Pará demolirão a delegacia.
     Uma consulta, sem maldade ou intenção vil:
Será que dava pra demolir o Brasil?

Roberto Pompeu de Toledo é articulista de Veja

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