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Sexta-Feira, 19 de Janeiro de 2007, 07h:56 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

O Brasil subterrâneo emerge (2)

    Onofre Ribeiro, articulista do Diário de Cuiabá, chama atenção sobre a violência na Capital. "No caso de Cuiabá e Várzea Grande, onde os assassinatos chegaram a 30 em 17 dias deste ano, é revelador de que alguma coisa muito grave está acontecendo", escreve o jornalista, na edição desta sexta (19). Confira abaixo.

    Arnaldo Jabour tem razão na sua fábula do cotidiano no Rio de Janeiro, mas que se aplica a qualquer média e grande cidade brasileira. O desenraizamento da população rural e a rápida urbanização do Brasil nesses 50 últimos anos é a principal causa da perda dos principais valores que dão estabilidade ao convívio social. 
   No caso de Cuiabá e Várzea Grande, onde os assassinatos chegaram a 30 em 17 dias deste ano, é revelador de que alguma coisa muito grave está acontecendo. É uma completa quebra dos valores sociais que se revelam na violência mortal. Há uma semana rapazes sem qualquer experiência assaltaram três donos de pick-ups de luxo. Quer dizer, a perda de noção do perigo é tão grande, que jovens amadores se arriscam a roubos especializados. As pick-ups são carros que valem mais de R$ 100 mil e têm encomendas para a Bolívia onde viram cocaína na volta. Este é um grave sinal de que a segurança pública não produz mais respeito, e que jovens de classes baixa e média abusam dos valores, por desconhecê-los. 
   Assim, quando a Secretaria de Segurança lança mão de instrumentos como a extinção de batalhões específicos para o combate geral à violência, erra quando não comunica à sociedade que está se vivendo um estado de guerra civil. Nesses casos, vale tudo em defesa da sociedade e não da corporação de grupos ou de batalhões eventualmente atingidos. Chega da corporativismo idiota! 
    Lá na frente, quando as coisas voltarem ao normal, se refaz o que precisar ser refeito. 
    Porém, é preciso mais. É preciso decretar estado de emergência e fechar os bares e botecos das áreas mapeadas como as mais violentas em Cuiabá e Várzea Grande. É nesses bares que se fomentam as intrigas que geram a violência que mata. Quem conhece esses bares sabe que os valores de relacionamento que ali vigoram são particulares e específicos. Um olhar mal-encarado é atestado de morte. Discute-se e dialoga-se muito pouco. É a índole da violência construída sobre a falta de princípios e de valores morais. 
    A escola falhou o tempo todo. A assistência social falhou também. Daí é natural que se construam jovens perdidos na realidade de convívio humano minimamente harmônico. Como querer uma sociedade fraterna e gentil nesse ambiente? 
   Por fim, num regime de angústia como o atual, é preciso uma ação coletiva que envolva as comunidades, os órgãos públicos municipais, as polícias e a inteligência policial. Mas se não houver um pacto com os delegados para tratarem a excepcionalidade, de nada adianta mandar policiais militares povoarem as ruas, se arriscarem, se na retaguarda a leniência anula o seu trabalho.
   Mesmo na hipótese de ser vencida a barreira da polícia judiciária, qualquer pacto anti-violência precisa envolver o judiciário. Os juízes soltam mesmo!
   A violência atual é emergencial, requer uma ação deliberada e forte, mas não pode ser só uma ação política e policial de governo. Tem que se compactuar com a sociedade, se não será pura perda de tempo. A sociedade colaborará e será solidária se for envolvida. Do jeito que vai, parece que isso não acontecerá, porque as vaidades pessoais e corporativas estão falando mais alto.

* ONOFRE RIBEIRO é articulista do Diário de Cuiabá e da revista RDM (onofreribeiro@terra.com.br)

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