Últimas

Terça-Feira, 18 de Setembro de 2007, 09h:36 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

(O)caso dos cursinhos?

    "Parece irreversível a perda de espaço e de prestígio dos cursinhos. Vários fecharam, e os que sobraram tendem a ter menor distinção.Mas os melhores empresários do setor migraram para o ensino regular, em que tiveram enorme êxito"

     Nos idos de 1950, ensino superior era a universidade pública mais próxima – além de uma PUC ou outra. Competiam todos os alunos pelas poucas vagas. Na guerra pela aprovação, apareceram os cursinhos pré-vestibulares. Seus trunfos eram professores extraordinários demonstrando seu virtuosismo no quadro-negro e preparando apostilas para seus alunos. Fui aluno de um e lá aprendi mais do que em todo o curso médio. O vestibular unificado e as provas de múltipla escolha dos anos 60 permitiram a expansão dos cursinhos mais bem-sucedidos, pois, com uma prova única, o mesmo programa servia para todos. Alguns viraram grandes sistemas, preparando milhares de alunos para passar nos cursos mais difíceis.
     Mas os tempos mudaram. As melhores escolas adotaram o método dos cursinhos, nas séries finais do ensino médio. Ainda mais devastadores para eles, os vestibulares competitivos passaram a ser uma proporção cada vez menor das vagas oferecidas. Com tamanha expansão do ensino privado superior, passou a entrar quem quer (e pode pagar). De fato, chegam a existir tantas vagas quantos são os alunos se formando no ensino médio. Metade delas permanece sem preenchimento.
     Será o ocaso dos cursinhos? Parece irreversível sua perda de espaço e de prestígio. Vários fecharam. Sobraram muitos, mas esses tendem a ter menor distinção – alguns são voltados para alunos mais pobres. Contudo, se definharam os cursinhos, seus melhores empresários migraram para o ensino regular, no qual tiveram enorme êxito e passaram a operar muitas escolas. Mais adiante, criaram as redes (objeto de meu último ensaio). Mais adiante, expandiu-se o ensino público médio e a clientela do ensino privado perdeu poder de compra. Buscando novos mercados, esses empresários migraram para o ensino superior. Lá encontraram terreno fértil para sua expansão acelerada. Nos dias que correm, entre as cinco maiores instituições educacionais privadas, apenas uma não começou como cursinho. Na origem de todas as demais estão cursinhos para engenharia, direito e medicina. O cursinho opera em um mercado aberto. Não há reservas de mercado nem proteções legais. Os mais bem colocados em vestibulares de engenharia e medicina costumavam ser logo selecionados para virar professores dos cursinhos em que estudavam (não se exigem diplomas, só talento). A mensalidade precisava ser competitiva, os super-teachers eram disputados entre os cursinhos e os materiais eram avaliados pelos alunos. A transparência de resultados é total: no dia seguinte, os jornais mostram quem passou onde. É o caldo de cultura do empreendedorismo: oportunidades e liberdade. Quem sabe Darwin diga algo interessante sobre uma trajetória tão meteórica? Gato que cai do muro deixa espaço para outros mais equilibristas. Samurai de reflexos lentos é decapitado pela katana de seu adversário. Os gatos e os samurais sobreviventes são mais aptos. A sobrevivência dos cursinhos mais aptos foi um processo de seleção natural, competindo no mercado mais difícil de quantos há em educação.
     Só para sobreviverem já era preciso competência superior. E, para se expandirem, tinham de ser melhores do que os melhores, com foco cirúrgico em resultados. Era necessária grande competência gerencial para operarem em um mercado tão brutalmente competitivo. Poucos conseguiram. Venceram os de DNA superior. Ao migrarem para a educação acadêmica, encontraram uma concorrência muito menos acirrada. Isso foi verdade tanto no ensino básico como no superior, para onde se moveram mais adiante. Ou seja, ao entrarem no ensino acadêmico, os DNAs sobreviventes já haviam sido postos à prova em condições mais árduas. Onde puseram o pé, tiveram sucesso, seja competindo com ensino mais barato, seja com mais qualidade. Houve até migração para parques gráficos e produção de computadores. Não é comum em outros países a migração do ensino informal para o formal. Como a jabuticaba, o DNA dos cursinhos sobreviventes parece ser algo idiossincraticamente brasileiro.

Claudio de Moura Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

IFMT e novo laboratório pra testagem

deiver 400 curtinha   Numa iniciativa inédita, o Campus do IFMT Cuiabá - Bela Vista, sob o diretor-geral Deiver Alessandro Teixeira (foto), terá um novo laboratório a ser utilizado para análise sorológica da Covid-19, através da pesquisa de IgG e IgM. A obra, orçada em R$ 1 milhão,...

Comitê chama órgãos fiscalizadores

emanuel pinheiro 400 curtinha   Para colocar fim às críticas sobre suposta falta de transparência na aplicação dos recursos transferidos a Cuiabá pelo governo federal com vistas ao enfrentamento à pandemia, o prefeito Emanuel Pinheiro (foto) determinou que seu secretário de Saúde, Luiz...

PT sob risco de não eleger ninguém

marcos viana 400 curtinha   Mesmo tendo cabeça de chapa para prefeito, no caso o ex-juiz federal Julier Sebastião da Silva, o PT dificilmente elege um vereador em Cuiabá no pleito deste ano. A chapa de pré-candidatos proporcionais é fraquíssima. O "grande" nome do partido é da professora Edna...

Único da família Oliveira pra vereador

luluca 400 curtinha   Na queda-de-braço entre irmãos, venceu, por enquanto, Luiz Arthur Oliveira Ribeiro, o Luluca (foto), que será candidato a vereador pelo MDB em Cuiabá, carregando o espólio político da família Oliveira. Irmão de Luluca, o ex-vereador Leonardo Oliveira, que procurou e...

2 nomes do DEM avaliam desistência

ivan evangelista 400 curtinha   A chapa de pré-candidatos do DEM a vereador pela Capital corre risco de sofrer duas baixas consideráveis. Os ex-vereadores Ivan Evangelista (foto), que atuou na Câmara por 13 anos, e Leonardo Oliveira, por dois mandatos, podem vir a desistir do teste das urnas. Mas, por enqanto, ambos garantem...

Sexto suplente na Câmara por um mês

aluizio leite 400 curtinha   Aluízio Leite (foto), filiado histórico do PV, tomou posse como vereador pela Capital na último dia 2. Mas vai ficar na cadeira por somente 31 dias, até o retorno do titular, delegado Marcos Veloso, que se afastou para cuidar de assuntos pessoais e hoje se encontra hospitalizado com...

MAIS LIDAS

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Em Cuiabá, o prefeito suspendeu a decisão de implantar rodízio de veículos entre placas pares e ímpares devido à Covid-19. Mas quer debater a ideia. Você concorda com rodízio?

concordo

discordo

tanto faz

não sei

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.