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Quarta-Feira, 27 de Junho de 2007, 09h:19 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

O dicionário de Renan

     "Seu cinismo chegou a um grau nunca antes atingido. Sua falta de compostura é mais um sinal eloqüente de que perdeu as condições de presidir o Senado". Confira reprodução abaixo.
    

     No universo de lobistas, bois e notas frias em que afunda, o senador Renan Calheiros insiste em manter-se na presidência do Senado e chegou a dizer que a palavra "renúncia" não consta de seu dicionário. É uma boa oportunidade para tentar decifrar o dicionário de Renan. Suas ações públicas, tais como suas palavras públicas, significam sempre o contrário do que parece. Na quinta-feira passada, o senador deu uma entrevista em que disse coisas importantíssimas, mas, para entendê-las corretamente, é preciso interpretá-las pelo avesso. Eis o que o senador falou:
     • "Não permitirei que levem o Senado a uma crise institucional. Não arredarei pé."
     Traduzindo: Renan é, ele próprio, a crise do Senado que poderia ser solucionada caso ele arredasse o pé. Mas, para além disso, a tradução correta do que ele disse é que fará tudo para que o Senado enfrente uma crise institucional, ou pelo menos caia num impasse, caso seja forçado a deixar o cargo. Será sua desforra. Já disse isso claramente a senadores mais próximos. Queria mostrar seu poder de fogo e de chantagem. Afirmou que, se alguém acha que o Senado está enfrentando uma crise institucional, ainda não sabe o que é uma crise institucional. Sugeriu que ele, sim, é capaz de provocar uma crise institucional digna do nome.
     • "Não vou permitir que devassem a vida de senadores. Expus as minhas vísceras, mas as minhas; as dos senadores não permitirei."
     Traduzindo: Renan, se for emparedado e forçado a renunciar, vai empenhar-se com afinco para expor as vísceras do maior número possível de colegas. Já começou a fazer isso quando tentou chantagear os senadores José Agripino e Demostenes Torres. Também já andou falando de sua disposição de atear fogo aos colegas para um círculo mais fechado, razão pela qual o Senado, na semana passada, foi tomado por um certo clima de chantagem. Na baixaria, diga-se, o senador Renan Calheiros deixou prosperar a insinuação de que um certo senador sustenta seus ardores de pedófilo levando adolescentes – meninos e meninas – para Brasília com passagens aéreas pagas pelo Senado. É apenas um exemplo para que o país possa se certificar da dignidade, da hombridade e da categoria de Renan Calheiros.
     • "Estou disposto a enfrentar qualquer coisa para que prevaleça a verdade."
     Traduzindo: Renan está disposto a fazer qualquer coisa para que a verdade permaneça oculta. Tem sido assim desde que se viu engolfado no escândalo de suas relações promíscuas com o lobista da empreiteira Mendes Júnior. Tentou esconder a verdade fazendo um pronunciamento aos senadores e encerrando a sessão para evitar perguntas. Tentou evitar a convocação do Conselho de Ética. Acionou uma tropa de choque formada por suplentes para defender seus interesses. Marcou e desmarcou reuniões do Conselho de Ética. Reuniu senadores em seu gabinete. Fez e aconteceu – até que, agora, com a corda no pescoço, começaram as ameaças e chantagens.
     Admite-se que os políticos dissimulem, tergiversem, disfarcem numa certa medida. Mas, no caso de Renan, seu cinismo chegou a um grau nunca antes atingido. Sua falta de compostura é mais um sinal eloqüente – apenas mais um – de que perdeu as condições de ser presidente do Senado.


André Petry é articulista de Veja

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