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Quarta-Feira, 02 de Maio de 2007, 08h:31 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

O ensino médio congestionado


"O ensino médio não sabe o que fazer com a diversidade dos alunos. O dilema mais grave é preparar para o trabalho ou preparar para o curso superior, objetivos que competem seriamente". É o que destaca Claudio de Moura, em artigo esta semana na revista Veja. Confira reprodução abaixo.

   Um aluno fez uma bela descrição do ensino médio. Segundo ele, quando cursava o fundamental, estudava coisas interessantes. Caminhando pelas ruas ou pelos campos, via no mundo real o que havia aprendido na escola. Ao galgar o médio, olhando na rua, não via nada do que havia aprendido. Era tudo abstrato e distante do mundo real. Estava frustrado.
   Por tudo o que sabemos, o médio é o nível mais engasgado. Está no meio do caminho. Não sabe o que fazer com a diversidade crescente de alunos – que não sabem o que querem. Tem demasiadas missões: precisa arredondar a formação inicial do aluno, oferecer uma competência mínima nas ciências e nas humanidades e fixar os valores de cidadania e identidade cultural.
   O dilema mais grave do médio é preparar para o trabalho ou preparar para o superior, objetivos que competem seriamente pelo tempo do aluno. Preparar para o trabalho pode exigir a formação profissional. É o império da prática, do conhecimento voltado para a aplicação concreta. Contudo, a metade dos alunos vai diretamente para o mercado de trabalho. O que ensinar a eles no médio? Conhecimentos práticos? Mas não há nada mais prático do que uma boa teoria, pois é a ferramenta para pensar corretamente. O outro papel do médio é preparar para o ensino superior. No fundo, significa ceder à pressão para aprender o que quer que seja pedido nos vestibulares.
   É universal a existência desses conflitos de objetivos. Mas cada país tem uma fórmula própria para enfrentá-los, refletindo a sua história e cultura.
   O grande divisor de águas é o que fazer com o lado profissional do ensino, versus o lado acadêmico. Ademais, alguns países oferecem vertentes mais fáceis e aplicadas (o que não quer dizer profissionalizantes) e vertentes mais acadêmicas e teóricas.
   Há dois grandes modelos. Um modelo tem origem européia, no qual há uma multiplicação de alternativas após o fundamental. Há trajetos puramente acadêmicos. Há os que mesclam o acadêmico com uma iniciação profissional. Há opções puramente profissionais, até mesmo sem acesso ao superior. Ou seja, ao longo do caminho aparecem diversas bifurcações, atendendo às aptidões e preferências dos alunos para assuntos práticos ou para as abstrações de uma trajetória acadêmica.
   O outro modelo nasceu nos Estados Unidos, com suas comprehensive high schools. Embora seja a única opção para todos, há uma oferta diversificada, com disciplinas preparando para o superior e outras de formação profissional. Além disso, a mesma disciplina pode ser oferecida com níveis diferentes de exigências. Cada aluno pode escolher seu cardápio de cursos, de acordo com suas preferências e aptidões. Uns aprendem a soldar. Na sala ao lado, outros estudam os diálogos de Platão ou até sânscrito.
   A Europa lida com a diversidade especializando as escolas. Os Estados Unidos criam uma escola única, mas, uma vez lá dentro, há muitos trajetos possíveis.
   Diante desses dois modelos (com todas as suas variantes), o Brasil optou por um terceiro. Na teoria, é muito flexível. Mas, na prática, acabamos com um sistema único. Não se pode escolher entre escolas diferentes nem há um leque de opções dentro da mesma escola.
   Terminamos com uma escola única que não consegue oferecer aos alunos academicamente menos ambiciosos uma educação sólida, no nível em que possam beneficiar-se dela. No outro extremo, soterramos com um entulho de conteúdos os que freqüentam escolas onde o verdadeiro currículo é o vestibular da universidade pública mais próxima. O preço de ensinar de mais é que os alunos aprendem de menos.
   Nunca demos a atenção devida ao técnico – que não passa de um monte de matérias profissionalizantes que se somam ao currículo já sobrecarregado do médio (22 disciplinas no técnico de eletrônica da UFMG!). Repetimos o que costuma não dar certo alhures. Diante da alternativa bem-sucedida de deixar o técnico para depois de formado, os ideólogos da área protestaram, citando Gramsci, um autor falecido antes de o ensino técnico tomar corpo. Dá para desconfiar, quando a solução tupiniquim é diferente de todas as outras.

Claudio de Moura Castro é economista- claudio&Moura&Castro@attglobal.net)

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