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Sexta-Feira, 09 de Novembro de 2007, 07h:59 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

O equívoco e o padre

     "É um erro tanto absolver Júlio Lancellotti (socorrendo-se de sua obra social elogiável) quanto desmoralizar a obra social (socorrendo-se de um padre sob suspeita)"

     O caso do padre Júlio Lancellotti está servindo de pasto para maus bois. O padre denunciou que vinha sendo extorquido por um ex-interno da velha Febem e, de lá para cá, o caldo entornou. O padre já foi acusado de pedofilia, de espancar meninas, de manter relacionamento homossexual pago com o mesmo ex-interno da Febem que supostamente o extorquia, de desviar dinheiro de ONG... Até agora, não se sabe ao certo se o padre é vítima de calúnias ou se os pecados e crimes de uma vida clandestina estão vindo a público.
     O caso é que, como Lancellotti é uma legenda no trabalho de proteção aos direitos humanos, a meninos de rua e menores infratores, sua atuação está ocupando o centro do palco. O que deveria estar sob os holofotes não é o trabalho do padre, é seu comportamento: o padre é culpado ou inocente?
     Para desmoralizar o respeito aos direitos humanos, o apoio a meninos de rua ou adolescentes infratores, pode-se festejar o caso de Lancellotti. Com isso, é como dizer que a proteção à massa de desamparados é uma cascata demagógica que envolve até padre pedófilo e ladrão. É bom ficar alerta contra a manipulação, mas ela não é nova. Trata-se da corriqueira tática de culpar o mensageiro pela mensagem.
     O que chama mais atenção é defender o padre escorando-se em seu trabalho em favor dos desvalidos. No dia 22 de outubro, arcebispos, bispos e sacerdotes fizeram uma nota de solidariedade a Lancellotti. A nota, assinada por três religiosos, entre eles o arcebispo Odilo Scherer, que acaba de ser promovido a cardeal pelo papa Bento XVI, é exemplo primoroso de equívoco.
     Na nota, os religiosos dizem que Lancellotti está passando por "momento de provação e sofrimento" em decorrência do "trabalho evangelizador que há décadas realiza, em São Paulo e no Brasil, junto aos mais pobres". Que a atuação do padre "sempre foi uma grande referência para a Igreja e a sociedade". Que é um "sinal do amor misericordioso de Deus junto aos irmãos mais sofridos".
     Todas as referências ao trabalho de Lancellotti são verdadeiras, mas a provação e o sofrimento do padre não têm nada a ver com sua atuação pelos pobres. Têm a ver com a suspeita de pedofilia, de violência, de desvio de dinheiro. Os religiosos, movidos pelo corporativismo católico, caíram na mesma mistificação dos que querem culpar o mensageiro pela mensagem.
     A obra social do padre não pode servir de muleta para absolvê-lo nem para condená-lo. São coisas distintas. Colocar tudo no mesmo balaio é criar confusão. É um erro tanto absolver o padre (socorrendo-se de sua obra social elogiável) quanto desmoralizar a obra social (socorrendo-se de um padre sob suspeita).
     Por trás, há uma disputa ideológica devido aos laços evidentes de Lancellotti com o PT. Há a defesa de um padre petista pelo elogio à sua obra. E há a condenação de um padre e sua obra por ser petista. É pasto para maus bois. Quando se descobriu que um dos mais famosos pediatras de São Paulo, Eugênio Chipkevitch, abusava sexualmente de seus jovens pacientes, a ninguém ocorreu botar a culpa na pediatria.

 

André Petry é articulista de Veja

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