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Domingo, 27 de Setembro de 2009, 19h:49 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:24

Rumo a 2010

O homem que vive entre feras

  Desde a inauguração, moro vizinha ao Shopping Goiabeiras, espaço que acolheu a adolescência dos meus filhos, num atravessar de rua constante, um movimento frenético e alegre, repetido várias vezes ao dia.

   Lembro-me das polêmicas noites de domingo. Os moradores do entorno querendo assistir ao “Fantástico” e o Shopping rivalizando com uma programação cultural na rua;  ambiente meio bucólico; um shopping numa capital e uma programação que lembrava festa no interior, em plena Av. Lava Pés. Palco enorme montado e lá pelas 8h30, 9horas a Banda Terra entrava com Edmilson Maciel cantando “América do Sul”, de Ney Matogrosso, num volume que não deixava alternativa senão correr para a sacada e cantar junto, desperta América do Sul... (toda admiração à interpretação do Edmilson).

   Hoje acessei o site do Shopping e na página da apresentação, entre outras coisas, ainda diz ser um espaço seguro. Pensei nos riscos que corremos nesses espaços coletivos onde o indivíduo, às vezes, se depara com a condição de ter que escolher entre ser o carrasco ou a vítima, entre manifestar-se ou abster-se da emissão de qualquer juízo, seja verbal ou comportamental. Alí há um padrão de indivíduos que são aceitos socialmente, que não são ‘suspeitos’, porque se vestem, falam e agem uniformemente, robotizados pela ditadura comportamental absorvida pela mente dos que administram tais empreendimentos.

    Contraditória porém, essa linha de raciocínio. Os shoppings deveriam se caracterizar como espaços de múltiplo uso para as diversas tribos sociais, espaço para a representação da diversidade cultural; roupas coloridas, cabelos compridos, homens de chapéu não deveriam ser vistos como seres ameaçadores da ordem. Porém, após a confirmação de três casos de intolerância e agressão é preciso repensar a utilização desse espaço.

   A violência nesses ambientes atinge sobretudo pessoas com comportamentos não prefixados ou assimilados pela mente dos fortões que controlam a movimentação desses lugares, através dos circuitos fechados. Atentos a tudo, mas alheios ao principio da tolerância e sobretudo, ao principio básico de que o homem não é mais o lobo do próprio homem, certos seguranças estabelecem as técnicas de guerilha como “modus operandi” diante de qualquer movimentação e a substituição dos métodos de persuasão pelo método da violência tem sido atitude recorrente do homem nesses espaços controlados. E esse poder tirânico ameaça e constrange por preconceito socioeconômico, preconceito pessoal, atitudes de desconfiança e deboches, que cala o indivíduo sem que antes tenham tempo ou oportunidade para se expressar.

    Certa vez li que o formato das obras dos Shopping Centers priorizam a arquitetura que permite ver amplamente a movimentação dos corredores. Nesse contexto a relação entre o ver e o saber o que estão fazendo tem a nítida pretensão de alimentar o sistema de vigilância para, ao menor sinal, acionar o sistema punitivo. A violência  praticada no shopping Goiabeiras alimentou um momento de terror, com a intenção de punir as condutas consideradas desviantes pelo algoz, e o castigo, com intervenções físicas severas, cinicamente foi aplicado de acordo com a gravidade da  desobediência, segundo o caráter doentio e perverso do carrasco.

    Mas a violência não pode ser compreendida ou abrandada nunca. Violência é a força do perseguidor que golpeia quem não quer dobrar-se as suas vontades e a violência no Shopping Goiabeiras, constrangeu, imobilizou, prendeu e golpeou a vítima até a morte, numa sessão de tortura sem tréguas e sem compaixão. Nasce, portanto, na cabeça dos homens esse instrumento perverso de punição e para combatê-la é preciso desenvolver a consciência na cabeça dos próprios homens que matam por motivos moralmente reprováveis, além de banais.

   Casos de violência não podem ser banalizados tampouco esquecidos e nesse caso, a justiça foi feita de forma rápida e segura, porque existem muitas pessoas, profissionalmente, comprometidas com a verdade, com a elucidação dos fatos e com punição dos culpados. Lembro-me mesmo assim de Augusto dos Anjos, poeta brasileiro, considerado “maldito”, que em 1901 escreveu Versos Íntimos, que transmite uma certa sensação de perplexidade diante do descaso.

“Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera”.


    Olga Borges Lustosa é acadêmica de Ciências Sociais da UFMT e chefe de Gabinete da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Rural

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Comentários (2)

  • Eduardo Moreira Lustosa | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Mãe, parabéns por mais um artigo muito bem escrito. É de se pensar sobre esses critérios que nos são impostos para sermos aceitos. Mas mesmo quem está dentro desses padrões, corre perigo, seja no shopping, na rua ou até mesmo em casa. Beijo!

  • Jacyara | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Olguinha, boa tarde






















    Como sempre você me encanta, muito gostoso o teu texto.
    Ao interagir contigo, veio em minha mente Dr.Naldson Ramos e algo que ele falou sobre as novas formas de violencias, seus objetos, seus metodos e podemos dizer os novos espaçõs de seus fortes e bunkers. Como cientista social, estou tendo um olhar multisocial, ou seja visualizar os problemas em vários olhares. Não podemos mais ter só as tres matrizes máximas: Politica, economia e sociedade. Hoje dentro da nossa ciencia dinamica e reflexiva (in. Antony Guiddes) e dos campos (P.B), temos toda uma gama de objetos sociais a serem focados, por exemplo: o oásis que éra o Shopping mudou em lugar aterrador, por que? A necessidade de uma guarda pretoriana com técnicas ninjas e açoes que nos lembra os subterranêos da ditadura. Por que isso, qual a necessidade? A origem familiar dos envolvidos, a história paterna de assasinatos e violencias e a chegada a Cristo Jesus, como defesa? P.Bourdier está plenamente lembrado, quando a sequencia passa para o espaço prissional, o principal acusado, o tido como chefe, não pode ficar no espaço comunal em função de suas condições militares, familiares ou o que mais foi forjado, em busca de algum tipo de beneficio ao frio executor.

    Fiquei chocado com estes tristes acontecimentos e fiquei alguns dias evitando voltar ao Goiabeiras e neste final de semana, quando foi executado aquele bandido no Rio de Janeiro, fico pensando se não foi com um misto de vingança que aceitamos passivamente aquela morte.Pensou nisso- observe que a sociedade dinamica se apropria de fatos sociáis acontecidos e deles retira lições que serão usadas no dia a dia e para a manutenção desta mesma sociedade.































    Meu carinho, amiga.






























    Jacyara

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