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Segunda-Feira, 21 de Maio de 2007, 09h:00 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

O pobre e o negro


     "As políticas raciais beneficiam uma elite negra, que chegou lá e precisa de ajuda para lá ficar, e não a imensa maioria negra, que é pobre e não consegue sair do lugar" É o que destaca André Petry, em artigo desta semana na revista Veja, intitulado “O pobre e o negro”. Confira reprodução abaixo.

     O sociólogo Carlos Antonio Costa Ribeiro, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), acaba de embarcar para os Estados Unidos, a convite da Universidade Princeton. Vai apresentar aos americanos seu trabalho intitulado "Classe, raça e mobilidade social no Brasil". É uma pena que a Secretaria de Igualdade Racial, da ministra Matilde Ribeiro, não tenha tomado a mesma iniciativa de Princeton. O trabalho do sociólogo é um poderoso facho de luz na discussão racial no Brasil. Com base em dados colhidos pelo IBGE em 1996, e aplicando fórmulas estatísticas ilegíveis para um leigo mas que não comprometem a compreensão do texto, Costa Ribeiro chega a conclusões que todo estudioso do assunto deveria conhecer.
     Entre os mais pobres, a chance de subir na vida é determinada por sua origem de classe, e não pela cor da pele. Ou seja: os pobres enfrentam dificuldades para chegar lá porque são pobres, e não porque são negros. Exemplo: o filho de um modesto trabalhador urbano tem 1,3 vez mais chance de melhorar de vida do que o filho de um trabalhador rural – e não importa a cor da pele de cada um.
     Entre os mais abastados, as coisas mudam. A chance de se manter no topo da pirâmide é maior entre os brancos do que entre os negros ou pardos. Exemplo: os filhos brancos de profissionais mais graduados têm duas vezes mais chance de ficar no topo do que de cair; já os filhos negros e pardos desses profissionais têm 1,2 vez mais chance de se manter lá em cima.
     Ao analisar as oportunidades educacionais de brancos, negros e pardos, o sociólogo encontrou um cenário semelhante. Nos níveis escolares mais baixos, como o ensino básico e o ensino médio, o peso da origem de classe é maior que o peso da cor da pele. Mas, nos níveis escolares mais altos, como concluir o primeiro ano de universidade ou diplomar-se, o peso da cor da pele aumenta. Exemplo: para completar o ensino médio, a pobreza é um obstáculo seis vezes maior que a cor da pele, mas, para cursar o primeiro ano de universidade, a pobreza é um obstáculo 2,5 vezes maior que a cor da pele.
     O que tudo isso significa? Que há mais desigualdade racial na cúpula da sociedade brasileira do que na base. Costa Ribeiro escreve: "Esta conclusão nos leva a sugerir que a discriminação racial ocorre principalmente quando posições sociais valorizadas estão em jogo". O trabalho do sociólogo prova estatisticamente que existe discriminação racial no Brasil, o que não é novidade. Também prova que, mesmo na universidade, mesmo nos bons empregos, mesmo nos ambientes onde a discriminação racial cresce, a origem de classe sempre pesa mais que a cor da pele. Sempre.
     Portanto, as políticas raciais do governo beneficiam uma elite negra, que chegou lá e precisa de ajuda para lá ficar, e não a imensa maioria negra, que é pobre e não consegue sair do lugar. Isso sugere que o governo seria mais justo e eficaz com negros e pardos se combatesse a pobreza. O movimento negro, em vez de ameaçar professores, deveria pensar nisso.


André Petry é articulista de Veja

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