Últimas

Segunda-Feira, 28 de Maio de 2007, 12h:51 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

O prende-e-solta

"Um bando de gente vai para a cadeia, o bando inteiro é libertado e não há condenação de ninguém. O que isso significa?" Confira reprodução abaixo.

     O leitor há de se lembrar da Operação Vampiro, promovida pela Polícia Federal em maio de 2004. A operação estourou uma quadrilha que fraudava licitações em órgãos federais e prendeu dezessete suspeitos. Passados três anos, não tem ninguém na cadeia e não tem ninguém condenado. O leitor também há de se lembrar da Operação Sanguessuga, mais famosa que a outra por ter revelado o envolvimento de dezenas de parlamentares. Realizada em maio do ano passado, a operação descobriu a existência de um propinoduto na compra de ambulâncias com recursos públicos. No dia em que foi deflagrada, a operação prendeu 48 pessoas. Um ano depois, o número de presos é zero. O de condenados também. Dos 72 parlamentares suspeitos, nenhum foi cassado.
     Os vampiros e sanguessugas são dois exemplos de uma regra: as operações da Polícia Federal sempre prendem muita gente, que logo é libertada e nunca é condenada. Em novembro passado, o jornal O Globo fez um levantamento sobre vinte grandes operações de combate à corrupção e organizações criminosas desde 2003. Descobriu que 785 pessoas haviam sido presas, mas apenas quarenta permaneciam atrás das grades. O saldo: 94% dos presos estavam soltos. Claro que é melhor 6% de ladrões presos do que nada, mas há uma constante incômoda: um bando de gente vai para a cadeia, o bando inteiro é libertado e não há condenação de ninguém. O que isso significa?
     Na semana passada, doze advogados criminalistas entregaram uma carta ao presidente do Superior Tribunal de Justiça, o ministro Raphael de Barros Monteiro Filho, na qual reclamam, entre outras coisas, da "forma açodada e descriteriosa com que o Judiciário tem deferido medidas de força" – entre elas, as prisões temporárias. Os advogados estão dizendo que o prende-e-solta é resultado de uma Justiça destrambelhada. Talvez tenham razão, talvez não tenham, mas uma coisa é inegável: o festival de prisões, seguido do festival de solturas, autorizadas sempre depois da simples tomada de depoimento do preso, mostra que algo está errado. Ou as prisões ou as solturas.
     O pior é que as operações policiais, que no início foram como um sopro de alento para uma sociedade exausta de tanta impunidade, começam a disseminar uma atmosfera de folia inconseqüente. À impressão de que as prisões de tubarões da corrupção podiam ser o começo de um combate efetivo à corrupção segue-se a sensação de que tudo não passa de pirotecnia. Afinal, qual o efeito concreto de fazer uma saraivada de prisões e, logo em seguida, uma saraivada de solturas?
     A Operação Sanguessuga flagrou um sistema de propina em torno de emendas ao Orçamento – no caso, para trambicar com ambulâncias. Agora, a Operação Navalha descobriu um esquema semelhante – no caso, para roubar em obras públicas. Ou seja: quando os sanguessugas estavam sendo presos (e soltos), os navalhentos encontravam-se em plena roubalheira. O prende-e-solta pode fazer a festa da polícia, mas parece que não intimida ninguém. Será que querem nos iludir, simulando que se disparam mísseis contra a corrupção, quando na verdade são apenas fogos de artifício?


André Petry é articulista de Veja

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Ação de promotor e volta de restrições

Adalberto Ferreira   O promotor de Justiça Adalberto Ferreira garante que prefeito de Juscimeira Moisés dos Santos não havia editado nenhum decreto endurecendo as regras de restrições à pandemia do coronavírus antes do MPE propor ação na Justiça. Ao falar sobre nota publicada...

Oséas agora está nas mãos de Abílio

oseas machado 400 curtinha   Oséas Machado (foto) conseguiu derrubar Abílio Júnior, a quem denunciou por quebra de decoro parlamentar, e assumiu a cadeira deste na Câmara da Capital. Agora, o cassado se articula para dar o troco. O problema é que ambos estão no PSC. Oséas quer buscar a...

Decreto "anula" o MPE em Juscimeira

moises 400 juscimeira curtinha   Em Juscimeira, o promotor de Justiça Adalberto Ferreira recorreu à Justiça de forma desnecessária. Pleiteou e conseguiu uma liminar para suspender um decreto do prefeito Moisés dos Santos que, segundo a ação, havia reduzido as medidas de isolamento social, permitindo...

Kero-Kero quer levar Abílio para Pode

wilson kero kero 400 curtinha   Na contagam regressiva do prazo para o troca-troca partidário - vence em 3 de abril para quem pretende ser candidato em outubro deste ano -, o vereador Wilson Kero-Kero (foto), do PSL e um dos opositores à gestão Emanuel Pinheiro em Cuiabá, está fortalecendo o Podemos. E se...

ECSP explica confusão com Marcrean

marcrean 400 curtinha   A Empresa Cuiabana de Saúde Pública (ECSP) emitiu nota sobre a suposta “carteirada” do vereador Marcrean Santos (foto) no HMC. Ele foi pivô de confusão e um vídeo viralizou nas redes sociais. Segundo a ECSP, o parlamentar foi até o local pedir informações...

PL quer suspender dívidas das cidades

max russi curtinha 400   Ex-prefeito de Jaciara, o deputado Max Russi (PSB) apresentou projeto que visa suspender os pagamentos das dívidas dos municípios com o Estado, durante o período de calamidade pública que foi decretado pelo governo por causa da pandemia do coronavírus. Max ressalta que MT não deve...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.