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Sexta-Feira, 06 de Novembro de 2009, 17h:34 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:24

Rumo a 2010

O Privado, o Público e o Assassinato da Cidadania

   Supermercado Modelo, Miguel Sutil. O cliente chega no caixa e mostra dois produtos iguais com preços diferentes. A legislação nesse caso determina que seja cobrado o preço menor. A Caixa chama o gerente que afirma que vai resolver tudo rapidinho. Pouco depois ele volta com as duas embalagens e diz: “Pronto!”.  A Caixa finaliza a compra. Quando chega no carro o cliente percebe que o gerente cobrara tudo pelo preço mais alto.

   Mesma loja do Modelo. Na embalagem do pão integral 12 grãos está escrito 500 gramas, o que significa que o peso com embalagem deve ser algo em torno de 540 gramas. O mesmo cliente coloca no carrinho os dois últimos pães da gôndola e percebe que um deles parece bem menor que outro. Vai até o setor de padaria e pesa os dois. Um, o maior 542 gramas. O outro, o menor, 432 gramas, com a embalagem. Avisa a atendente. De duas uma, ou o supermercado agiu de ma fé ou não está preparado para atender honestamente o consumidor, afinal, se o cliente percebeu a diferença, os profissionais da empresa teriam mais ainda condições de fazê-lo. 

   No Pet Shop o vendedor aconselha o cliente a comprar uma coleira anticarrapaticida da marca Previn, fabricada pela Coveli. E sugere que seja levado um liquido higienizador para lavagem do canil e quintal. O cliente acata as duas sugestões.  Nas semanas seguintes aumenta consideravelmente o numero de carrapatos no cachorro dele. O cliente lembra que há três anos acontecera a mesma coisa. Só que a coleira se chamava Previn Plast. Manda um e mail para o fabricante narrando a história. Um veterinário liga para ele. Mal preparado (ou mal educado mesmo) não aceita os argumentos e ainda ironiza o cliente.

   Uma moradora do Pedra 90 vai à Policlínica. Está há dias com dor do lado direito do corpo que a tem impedido inclusive de trabalhar. O médico (?) diz que ela precisa fazer uma ultrasonografia e a manda para o Pronto Socorro onde, de acordo com ele, será atendida. No PS praticamente a expulsam  afirmando que ela não chegou lá de maca, logo não pode ser atendida e muito menos receber um pedido para realizar o tal ultrasom. Ela decide tentar fazer os exames pagando por eles numa clínica particular. Doce ilusão. Gastaria mais que o salário para se livrar do jogo de empurra em que se transformou a situação da saúde no Brasil. Os patrões decidem ajudá-la. Ela consegue pagamento de forma parcelada. O ultrasom constatou uma “aderência”, resultado de uma cirurgia feita anteriormente pelo SUS e o medico pede uma tomografia computadorizada para traçar o caminho a ser seguido.

   O contribuinte recebe uma multa por não estar usando cinto de segurança num determinado horário, na Avenida XV de Novembro. No horário da infração, o contribuinte estava no consultório atendendo. Além disso, o carro que o contribuinte dirige tem uma dessas modernidades de segurança: se ao sentar no banco do motorista e ligar o carro e o cinto não estiver sendo utilizado dispara automaticamente uma campainha que vai aumentando até se tornar insuportável. Ou seja, não há como não se usar o cinto com o carro em movimento. O contribuinte tenta entrar em contato com o Detran. São dezenas de tentativas e o telefone nunca atende. Decide ir até lá  e mandam-no pegar um formulário e recorrer. Numa época em que corre-se o tempo inteiro e na qual o tempo ficou consagrado como sendo dinheiro, lá se vão quatro horas desperdiçadas na vida de um cidadão que paga todos os seus impostos.

   Órgãos de defesa do consumidor descobrem que desde a privatização os contribuintes estão pagando um bilhão de reais a mais por ano às distribuidoras de energia elétrica. Querem o ressarcimento, mas o governo federal se antecipa, por meio da agencia reguladora, e afirma: não é  o caso de ressarcimento e sim apenas de se corrigir o problema daqui para a frente.

   Numa prefeitura do interior do país, funcionários tinham empréstimos consignados descontados de seus salários, mas não repassados ao banco, que colocou o nome de todo mundo no SPC.

   Em outros órgão públicos municipais, estaduais e federais candidatos derrotados em eleições ganham emprego com salários superiores à media do que ganha o brasileiro. Ou seja, o povo não o aceitou. Mas apesar disso a mamata está garantida pelos gestores (?) que os transformam em  assessores.

   Na UFMT, um professor chega as 08h15 para uma aula que deveria ter começado as 07h30. E vai embora as 09h00 para uma aula que deveria terminar as 11h30. Nenhum aluno reclama e segue em frente o pacto da mediocridade, segundo o qual alguns fingem que ensinam e outros fingem que aprendem.

   Na mesma UFMT, titulares de cargos são frequentemente substituídos temporariamente por colegas que fazem parte  do grupo que ocupa o poder no momento e que, com certeza, não foi o inventor dessa modalidade de agradar o que antigamente se chamava de “panelinha”. A matemática é simples: ganham os substitutos e os titulares. Perdem apenas o contribuinte e a sociedade que poderia, com essa grana, ter um ensino de mais qualidade.

   Ainda na UFMT, por um salário de miséria (menor do que o município paga por 20 horas), um substituto é obrigado a passar quatro manhãs inteiras dentro de sala de aula. Como com o salário não lhe é possível sobreviver, ele tem que dar aulas em mais dois ou três lugares. Ou seja, em nenhum deles a qualidade será prioridade. Perde a sociedade que vê a cada dia mais profissionais chegando ao mercado sem preparo algum para aquilo em que se formaram.

   Enquanto tudo isso acontece no setor público e no privado, ironicamente representantes destes mesmos setores a cada dia cobram mais e mais dos pais que ensinem cidadania a seus filhos, que os transformem em pessoas que farão de nossos filhos seres capazes de transformarem nosso país num país menos injusto. Só que, se continuar assim, vai chegar o dia em que mesmos os que hoje assim agem vão desistir pelo cansaço porque chegarão á conclusão que a cidadania foi assassinada.

   E ai vai se cumprir a profecia de Claude Levi Strauss, que essa semana deixou muito de nós um pouco mais órfãos, e o mundo vai terminar sem a raça humana. Alias, como será belo e tranqüilo esse mundo sem essa raça egoísta que não o respeita, que o massacra, que trai, que corrompe, que ilude e que não tem a menor consideração com o próximo.

   Maurelio Menezes, jornalista, é professor de Jornalismo e do Tronco Comum do Curso de Comunicação da UFMT.

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