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Sábado, 15 de Setembro de 2007, 10h:48 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

SENADO

O triste papel do PT

    De campeões da ética, os petistas se imolam
na defesa de Renan, um fóssil da era Collor

    Ao cair da tarde de quarta-feira, sob uma chuva fina, parentes, amigos e eleitores do senador Renan Calheiros saíram às ruas de Murici, no interior de Alagoas, para celebrar a vitória do conterrâneo ilustre. Houve carreata e buzinaço, explosão de rojões e queima de fogos. Em Brasília, na mesma hora, num canto do plenário do Senado Federal, um grupo de petistas, em perfeita sintonia com o entusiasmo muriciense, confraternizava com a salvação de Renan. "Somos a bancada da abstenção", festejava a senadora Fátima Cleide, do PT de Rondônia, numa animada conversa com os colegas Sibá Machado, João Pedro, Serys Slhessarenko e a indefectível líder da bancada, Ideli Salvatti, a senadora que adora conjugar o verbo "vivenciar" mas que, durante os 110 dias do primeiro processo contra Renan, se recusou tenazmente à vivência da moralidade. Quem diria que um dia o Partido dos Trabalhadores, essa legenda que empunhou com tanto garbo a bandeira da lisura com a coisa pública, daria seu último adeus à ética justamente para salvar da guilhotina o pescoço do ex-collorido Renan Calheiros?

    A absolvição temporária do senador dos lobistas não é responsabilidade única dos petistas. "Nada de jogar no colinho do PT", diz Salvatti, que foi incansável na luta para proteger o senador das notas frias. "Isso é má aritmética", completa Aloizio Mercadante, que confessou candidamente que, entre absolver e condenar o senador dos bois de ouro, optou pela abstenção. Ah, bom... Isso fez toda a diferença. É preciso coragem para se abster em um momento daqueles.

    Mas os dois têm razão: a má aritmética não cabe no colinho do PT, que afinal tem apenas doze senadores, número insuficiente para decidir qualquer coisa. O que ambos escondem é que política não é aritmética. A oposição, basicamente representada por PSDB e ex-PFL, não conseguiu votar unida e acabou dando votos pela absolvição. Calcula-se entre sete e dez votos. A questão é que o PT, se não tem expressão relevante no terreno da aritmética, teve atuação decisiva no campo da política. Na oposição, ninguém cabalou votos, ninguém fez alianças, ameaças ou chantagens, ninguém fez campanha para livrar a cabeça do senador das fraudes. O PT fez. E como fez. E fez porque achou que deveria fazê-lo.

     A insistência petista para eximir-se do desastre no Senado deve-se à vergonha. Os senadores têm vergonha de assumir o que fizeram perante uma opinião pública avassaladoramente pró-cassação. Têm vergonha inclusive perante uma parcela de petistas que ainda se mantém fiel a antigos princípios éticos do partido. "O PT precisa ter mais firmeza a favor da ética. Essa bandeira histórica tem de ganhar contundência", reclama o senador Flávio Arns, petista do Paraná, que garante ter votado pela cassação. "O PT precisa ficar sintonizado com o que o povo pensa, com o clamor das ruas", completa Arns, um senador que, já se nota pelo discurso, não pertence a núcleos influentes do partido. Se até petistas criticam o PT, por que o partido fez o que fez? "Porque o partido está se misturando cada vez mais com o governo, uma mistura que aliás está na origem do mensalão", diz o senador Delcídio Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul, outro que garante ter votado pela cassação. "Precisamos acatar o resultado das instituições", disse o presidente Lula, no dia seguinte, em viagem à Dinamarca. Em vez de agradecer o serviço prestado pelo PT ao seu governo, Lula escolheu tomar distância diplomática em público.

    Há outra razão, além da simbiose entre partido e governo, para explicar o vexame do PT: sua renúncia completa e definitiva à ética na política. O maior rombo no casco ético do PT aconteceu quando veio a público o escândalo do mensalão. Nesse caso, o PT esperneou, negaceou e tergiversou porque espantar o mensalão era uma forma de salvar o próprio partido. Agora, com a militância a favor do senador condenado pelo Conselho de Ética, ficou claro que o PT não atropela a ética apenas quando se trata de salvar a si próprio. Nada é mais sintomático do desmanche de um partido que fez questão de apresentar-se como portador de uma "nova ética na política". O melancólico é que o PT sempre propagandeou ter a missão de mudar a cultura política nacional, impregnada de compadrio, coronelismo, corrupção. O máximo que pode ter acontecido é que, em vez disso, a cultura política nacional é que mudou o PT. Ou será que a defesa da "ética na política" nunca esteve na alma do partido, servindo apenas como instrumento eleitoral? A leitura dos principais documentos aprovados pelo PT de 1980 até hoje – mais de quarenta no total – sugere que o partido trabalha com o tema da ética à luz das necessidades eleitorais. O assunto era quase ignorado na década de 80, ganhou impulso tremendo nos anos 90, sobretudo logo depois do governo Collor, e voltou a perder ibope nos últimos anos.

     Na quarta-feira passada, às 17h28, o site oficial do PT colocou no ar uma nota informando sobre a absolvição do senador do patrimônio inexplicado. Dizia assim:

     "Por 40 votos a 35, o plenário do Senado absolveu na tarde desta quarta-feira (12) o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), da acusação de quebra de decoro parlamentar. A sessão foi secreta e houve seis abstenções. O processo pedia a cassação do mandato de Renan por ele supostamente ter usado dinheiro de uma empreiteira para pagar despesas pessoais".

     E nada mais. No dia seguinte, quando as manchetes de onze dos principais jornais do país – de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Pernambuco e Ceará – denunciavam a vergonha da salvação do mandato do senador das mentiras, o quadro de notícias do site do PT não trouxe palavra sobre o assunto. Faz sentido. Murici está em festa.

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Comentários (2)

  • BRUNO | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    e pensar q os petistas aqui, já colocaram a mão na educaçào e tào de olho na cultura.......pode?

  • julio augusto de oliveira soares | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Caso esta noticia seja confirmada,a ilustre senadora consegui macular a sua própria bela biografia é o pensamento tacânho dos fins justificarem os meios e quem é atormentado com atos e fatos desta natureza é a DEMOCRACIA que querem transformar em um Zumbi sem alma,pobre de mim e demais eleitores desta senhora ao vermos os nossos votos ferirem de morte a ética política.

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