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Segunda-Feira, 16 de Julho de 2007, 10h:49 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Olha o Nenê aí, gente!

     "O empresário que fundou o símbolo do dinamismo do capitalismo brasileiro acha que cômodo mesmo é fugir de toda a sofisticação da automação bancária – e guardar dinheiro em casa"
  
     O empresário Nenê Constantino é um fenômeno. Desde que seu nome foi envolvido no escândalo que resultou na renúncia do ex-senador Joaquim Roriz, Nenê Constantino ficou na muda como bom mineiro. Ele era dono do cheque de 2,2 milhões de reais que Roriz disse ter descontado no dia 13 de março, embolsado 300.000 reais e devolvido o troco, de 1,9 milhão de reais. Mas Nenê Constantino não dizia nada. Na semana passada, os repórteres Jailton de Carvalho e Gerson Camarotti, do jornal O Globo, conseguiram fazer Nenê falar. Ele confirmou a versão de Roriz e fez um acréscimo delicioso: disse que o troco de 1,9 milhão de reais ficou em sua casa, guardadinho, até 3 de julho. Nesse dia, Nenê depositou o dinheiro no banco, contadinho, até com as moedinhas dos centavos. O dinheiro, portanto, ficou 112 dias parado, em casa. Nesse tempo, numa aplicação convencional do mercado financeiro, renderia 72.000 reais.
     Os procuradores – esses incrédulos! – desconfiam que Nenê Constantino só fez o depósito para dar alguma credibilidade à farsa contada por Roriz. Só pode ser uma injustiça! Nenê Constantino, esse empresário fenomenal, talvez esteja apenas dando ao país uma mostra de seu talento para acumular dinheiro. Foi deixando de ganhar 72.000 reais aqui, mais 72.000 reais ali que Nenê deve ter enriquecido. Foi com essa clarividência, com essa pertinácia para o lucro, com essa inovadora prática de guardar dinheiro debaixo do colchão (no país dos juros estratosféricos!) que Nenê fez sua fortuna. Os procuradores não estão reconhecendo o valor da lição excepcional que Nenê nos dá! E de graça!
     Nenê Constantino tem 76 anos e nasceu pobre na cidade mineira de Patrocínio. Nem concluiu o curso primário, mas, aos 18 anos, conseguiu comprar seu primeiro caminhão, que virou jardineira, que virou um ônibus, que virou três ônibus, que viraram quinze, que viraram 132, que viraram 1.478 – e assim construiu uma das maiores frotas de ônibus do mundo. É podre de rico. Aos 69 anos, fundou a Gol. Outro sucesso retumbante. O crescimento da empresa aérea foi tão vertiginoso que a Gol se transformou num símbolo do dinamismo do novo capitalismo brasileiro. É essa trajetória de sucesso que foi construída com a esperteza de perder 72.000 reais aqui, mais 72.000 reais ali, com a esperteza de guardar dinheiro em casa. Brasileiros e brasileiras, eis uma forma inovadora de começar a fazer fortuna! Captem a lição!
     Por que o empresário guardou o dinheiro em casa por 112 dias? Ele respondeu: "Por simples comodidade". Viram só? O empresário que fundou o símbolo do dinamismo do capitalismo brasileiro acha que cômodo mesmo é fugir de toda a sofisticação da automação bancária – e guardar dinheiro em casa, ora. E por que Nenê resolveu dar um fim à comodidade e depositar o dinheiro depois de 112 dias? "Para evitar distorções ainda maiores." Viram só? Perceberam a agilidade? O caso veio a público em 23 de junho, e Nenê ficou quietinho. Dez dias depois, já na véspera da renúncia de Roriz, com água vazando por todos os lados, Nenê resolveu "evitar distorções".
     O caso deixa uma indagação: dos políticos se cobra tudo; e dos empresários tudo pode?

André Petry é articulista de Veja

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