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Domingo, 24 de Dezembro de 2006, 02h:36 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Os dois mato grossos

 

A acelerada modernização da agropecuária de Mato Grosso proporcionou uma revolução econômica nunca vista antes na trajetória histórica do Estado. É o que garante o economista Vivaldo Lopes, em artigo no Diário de Cuiabá deste domingo (24).

Confira o artigo de Vivaldo na reprodução abaixo.


Os dois mato grossos

     A acelerada modernização da agropecuária de Mato Grosso proporcionou uma revolução econômica nunca vista antes na trajetória histórica do estado.

     Mato Grosso já teve visionários empreendedores que montaram grandes indústrias como a usina de açúcar Itaicy, no município de Santo Antonio de Leverger, a Descalvados, que produzia e exportava charque e extrato de carne em Cáceres e a multinacional Herva Mate Laranjeira, em Dourados. Nem mesmo esse período de opulência econômica, entre os anos de 1870 e 1950, é comparável ao estágio de desenvolvimento econômico que o estado alcançou a partir da ocupação produtiva dos cerrados do centro oeste. Implementada por uma decisão estratégica dos governos militares de expandir as fronteiras agrícolas do país, foi beneficiada por uma série de descobertas científicas no campo da biotecnologia que permitiram desenvolver novas técnicas de fertilização dos seus áridos solos e variedades de sementes que se adaptaram às condições edafo-climáticas de Mato Grosso.

    Saímos, em algumas décadas, da posição de economia periférica de produção de subsistência para uma economia moderna que, apesar de ainda ter quase toda sua base produtiva sustentada em bens primários (grãos, carnes, fibras, madeira e minérios), alcançou patamares de produção e produtividade que a transformaram num dos mais importantes estados brasileiros na produção agropecuária e a transformou numa plataforma exportadora de importância mundial. O avanço e modernização da agropecuária fez a inserção competitiva de Mato Grosso na economia nacional e mundial. Os próximos passos do ciclo virtuoso de crescimento do estado passa por uma diversificação de sua base produtiva e pela industrialização, tendo como carro-chefe a agroindústria.

    Todavia, é necessário que toda a sociedade mato-grossense reflita sobre as distorções sociais e humanitárias que nem mesmo o vigor do dinamismo econômico das últimas décadas tem conseguido reduzir. O estudo dos indicadores sociais, de saúde, econômicos e demográficos dos municípios mato-grossenses indicam a existência de dois mato grossos que convivem no mesmo território físico. O Mato Grosso Califórnia e o Mato Grosso Haiti. Os habitantes do primeiro vivem num verdadeiro paraíso econômico e de bem estar social, com padrão de renda, consumo, oferta de bons serviços públicos e qualidade de vida idênticos aos melhores países desenvolvidos como Noruega, Dinamarca, Suécia e Finlândia. Fisicamente, esse Mato Grosso está nos cincoenta municípios que têm as economias mais dinâmicas do estado. Quase todos têm sua economia sustentada na moderna produção agrícola. A renda per capita e o IDH médio desses municípios são superiores à média do país. O nível de escolaridade e expectativa de vida são elevados e o analfabetismo e mortalidade infantil são baixos. No outro Mato Grosso a situação é completamente diversa. Os municípios do Mato Grosso Haiti apresentam forte migração de sua população jovem, níveis de pobreza muito alto, suas economias estão estagnadas há anos, suas administrações públicas dependem dos repasses obrigatórios federais e estaduais. Uma das principais fontes de renda são os baixos salários públicos e os parcos benefícios das aposentadorias. Nesses municípios concentram-se a maior quantidade de famílias que vivem na linha de pobreza absoluta e os piores níveis de oferta dos serviços de saneamento básico.

    O esforço para enfrentar e solucionar tal situação não deve ser obrigação apenas de governantes. Antes, deve ser de todos os mato-grossenses. Cidadãos comuns, governantes, líderes políticos, empresas, líderes empresariais, religiosos, universidades e instituições não governamentais. Não terá consistência qualquer plano estratégico de desenvolvimento para Mato Grosso que não estabelecer objetivos, metas e procedimentos operacionais para a solução desse abismo social e econômico que separa esses dois mato grossos.



   * VIVALDO LOPES é economista, especializado em Gestão Financeira pela FIA/USP, consultor da Fundação Getúlio Vargas

vivaldo@uol.com.br

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