Últimas

Quinta-Feira, 04 de Janeiro de 2007, 06h:27 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Os parceiros simbiônticos

    "Lula foi ajudado por uma oposição que se esmerou em poupá-lo, estendendo a tábua de salvação para livrá-lo do naufrágio". É o que diz o analista político Augusto de Franco, em artigo nesta quinta (4) na Folha de S. Paulo.

Confira na reprodução abaixo

      O FATO é que começamos o ano 5º da "Era Lula" sem oposição no país. Tal como o governo, a oposição partidária no Brasil também constitui fenômeno inédito. Segundo ela, a vitória eleitoral terá sido uma espécie de anistia para os crimes do governo corrupto de Lula da Silva. Assim, vamos esquecer tudo. Vamos parar de ficar cobrando de onde veio o dinheiro do mensalão e do falso dossiê e o que faziam os homens de confiança de Lula na trama, quem traiu o presidente, como foram usados os cartões corporativos da Presidência, onde foram parar aquelas cartilhas...
     Apostando todas as fichas na loteria do calculismo eleitoreiro, a oposição colheu o óbvio: consagrou a impunidade dos malfeitores e a continuidade da "sofisticada organização criminosa" que se instalou no Planalto.
     Tenho uma tese a esse respeito: só foi possível a eclosão do fenômeno político inédito que estamos vivendo no Brasil desde 2003, com Lula e o PT no poder, devido à existência de um partido com as características do PSDB. Eles, PT e PSDB, dão a impressão de parceiros simbiônticos. Uma crítica mais ácida diria que o PSDB fez o papel de "Kerenski brasileiro". Mas essa foi uma conseqüência objetiva do seu comportamento fora do poder, sem nenhum desdouro para a gestão e as intenções democráticas do estadista Fernando Henrique Cardoso.
     Ademais, o colaboracionismo oposicionista foi o resultado do comportamento adotado pelos dois principais partidos de oposição, e não uma orientação dessas agremiações. Tal comportamento evoluiu, manifestando-se como renúncia de ser e fazer oposição (2003, ano em que os tucanos foram atacados pela "síndrome da oposição responsável"), passando pela vacilação e pela leniência tática (2004 e parte de 2005), avançando para características menos colaborativas (2005, no auge do escândalo do mensalão), mas recuando novamente para formas implícitas ou explícitas de conivência (a partir de agosto de 2005 até o início formal da campanha eleitoral em agosto de 2006).
    Lula não deveria ser mal-agradecido. Ele deve tudo às oposições, sobretudo aos tucanos. Ele jamais foi abalado pelo PSDB e, sim, por suas próprias trapalhadas e as dos seus auxiliares que, uma vez descobertas, não poderiam deixar de ser denunciadas pela imprensa. Pelo contrário, Lula sempre foi ajudado por uma oposição que se esmerou em poupá-lo e blindá-lo e, de agosto de 2005 até o final daquele ano, construiu uma operação de resgate do presidente, estendendo-lhe a tábua de salvação do palanque de 2006 para livrá-lo do naufrágio. Deu no que deu.
     Não contente com isso, a oposição ainda lhe fez o favor de não travar a decisiva pré-campanha, de janeiro a agosto de 2006. Enquanto o PSDB aguardava, apalermado, o início do horário eleitoral, durante oito meses, Lula, disputando sozinho, praticamente dobrou as suas intenções de voto, pulando, segundo o Datafolha, de um patamar de 33% (no início do ano passado), para 41% (em março), para 43% (em maio), para 46% (em junho) e para 49% (em agosto). Deu no que só poderia dar mesmo.
     Eis-nos, agora, novamente na tempestade. Lula recuperou a sua nau, mas a nossa está à deriva. Nossos pilotos abandonaram o barco, pressurosos como sempre, para cuidar de seus próprios interesses. Quando tudo isso passar, será que eles não terão vergonha de contar para seus filhos e netos o ridículo papel que desempenharam nesta história? Eu teria.
Quando tudo isso passar. Mas... e se não passar assim tão rapidamente? E se estivermos apenas no início de um período regressivo de longa duração? Quem vai reagir? Quem vai resistir?
    Se você é um democrata, deve estar indignado. Mas como você foi abandonado, é possível que tenha feito um propósito nesta entrada de 2007: imitar as oposições e dizer que a vida é assim mesmo. Não importa se Lula continuar avacalhando o Brasil e urdindo uma maneira de não sair (de fato) do poder: você dirá que não tem nada com isso. Pior: você pode, imitando mais uma vez as oposições, só se mexer se surgir um movimento oposicionista (de fato), propondo retirar Lula do poder. Aí, sim, você marchará ombro a ombro com os bravos tucanos para defender a governabilidade.
     Sorte sua se, como ocorre com esses propósitos que fazemos no início de cada ano, você não cumprir o prometido. Nem que seja pela falta de virtude, desejo que você seja poupado da vergonha de ter que explicar para os seus filhos e netos as razões pelas quais resolveu dobrar a espinha. São os meus votos de Ano Novo.


AUGUSTO DE FRANCO, 56, é analista político do blog www.democracia.org.br e autor, entre outros livros, de "A Revolução do Local: Globalização, Glocalização, Localização". Foi membro do comitê-executivo do Conselho da Comunidade Solidária no governo FHC (1995-2002)

 

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

SD e chapa competitiva pra vereador

aluizio lima 400   Comandado no Estado por Zé do Pátio, prefeito de Rondonópolis, o Solidariedade ganhou novos filiados em Cuiabá e já tem uma lista de 32 pré-candidatos a vereador, numa expectativa de conquistar até quatro cadeiras. Além dos recém-filiados, vereadores Vinicius Hugueney...

MDB diz apostar em Thiago em Roo

thiago silva 400 curtinha   Dirigentes do MDB contestam o registro em nota no Curtinhas, assegurando que a oposição está forte em Rondonópolis e que deve unificar os grupos políticos e derrotar o projeto de reeleição do prefeito Zé do Pátio. Pesquisas internas estão deixando...

Pátio, adversários fracos e reeleição

ze do patio 400 curtinha   O prefeito de Rondonópolis Zé do Pátio (foto), por mais populista, demagogo e com uma gestão avaliada pela maioria como desastrosa, caminha a passos largos para conquista de mais um mandato. Tende a vencer pela lógica do menos pior. Seus virtuais adversários são...

Pode recebe 2 já derrotados em BG

sandro saggin curtinha 400   O Podemos conseguiu juntar em Barra do Garças o grupo de dois já derrotados à prefeitura, Daltinho, que também foi deputado e em 2018 teve votação pífia na tentativa de reeleição, e Sandro Saggin (foto), um "eterno" candidato. Entregue ao ostracismo,...

Câmara de Barra devolve R$ 100 mil

joao rodrigues 400 presidente c�mara barra do gar�as   A Câmara Municipal de Barra do Garças devolveu à prefeitura R$ 100 mil para serem investidos em medidas de combate ao novo coronavírus. O presidente do Legislativo, vereador João Rodrigues de Souza, o doutor...

Auditor assume Secretaria de Controle

demilson nogueira 400   O auditor Newton Gomes Evangelista, servidor de carreira, é o novo secretário de Controle Interno da Assembleia. Ele já respondeu também pela Auditoria-Geral da Casa. Newton assumiu a Controladoria Interna no lugar do ex-prefeito de Ponte Branca, Demilson Nogueira (foto), que deixou o posto...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Você concorda com a decisão de prefeitos, que começam a decretar estado de emergência, fechando comércio, serviços públicos e o transporte coletivo?

sim

não

sei lá!

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.