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Sábado, 27 de Janeiro de 2007, 08h:11 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Os quatro tempos da administração pública

 "A cada etapa, o administrador tem uma cara", comenta o professor Gaudêncio Torquato, em artigo intitulado 'Os quatro tempos da administração pública', neste sábado (27), em A Gazeta. Confira reprodução abaixo.

   No ciclo da vida administrativa que se inicia, sob o signo de renovadas esperanças, convém falar dos quatro anos que teremos pela frente nos 27 Estados da Federação. Como se sabe, a vida de uma administração - federal, estadual ou municipal - se assemelha a um carro de quatro marchas. Cada ciclo corresponde a uma marcha. A primeira dá o empuxo do carro na largada. O motorista testa o ambiente, olha para a frente e para os lados, fazendo o mesmo diagnóstico dos governantes, no início do mandato. Na segunda marcha, o carro avança com mais velocidade, correspondendo ao segundo ano da administração, quando os governantes praticamente começam a governar, depois de sanear o Estado e colocar a casa em ordem. A terceira marcha é a decolagem, com o carro andando solto e a administração, de modo equivalente, cumprindo uma bateria de obras aceleradas. Na quarta marcha, o carro, muito veloz, faz ultrapassagens, queimando etapas. O governante, aqui, seleciona o que mais lhe convém politicamente.

   A cada etapa, o administrador tem uma cara. Na primeira sentada de cadeira, a cara é a do menino que ganhou um brinquedão. Ingressa num mundo de fantasias. Passa longo tempo fruindo as delícias do poder da caneta. Surpreendendo-se com a força do cargo, vai testando as capacidades de mandar, solicitar, nomear, desnomear, receber atenção. Nessa primeira foto, o governante tem cara de anjo, ainda é modesto, ouve muito, aceita conselhos. Torna-se, de certo modo, cúmplice dos interlocutores. A segunda cara é a de despachante. Passa a atender um sem-número de pessoas, por dia, assina toneladas de papéis, adensa a burocracia. Dorme contando carneirinhos, aliás, pedintes que entraram e saíram pela porta do curral, ou melhor, salão de despachos.

   A terceira cara é a do artesão-obreiro. Cansado da rotinite dos papéis, sai do confinamento dos palácios e prefeituras, corre para canteiros de obras, lambuza-se de poeira, visita cidades, dá incertas em hospitais, despacha nas ruas. Imagina-se com a idéia do povo aplaudindo as obras. O governo é um território delimitado por placas, frases de efeito e logomarcas. As fotos de um governante suorento e trabalhador (símbolo do obreirismo faraônico) inundam redações para transmitir a imagem de uma administração transformada em canteiro de obras. A quarta cara é a de César, imperador romano. Queixo apontando para a testa do interlocutor, rodeado de áulicos, em profusão de elogios e falsas versões, diminui o ritmo da fala, aumenta os espaços da articulação de bastidor e a circunferência da barriga. É claro, nessa fase áulica e festiva, a comilança invade as noites, sob os aplausos de uma galera bem selecionada e distante do povo. Neste ponto, o governante refugia-se na articulação política. E refestela-se no marketing.

   As caras dos mandatários expressam o próprio ciclo de vida da administração. Da simplicidade, da primeira fase, à arrogância, da última fase, eles retratam a incultura política do país. Entram como inquilinos dos espaços públicos e saem como proprietários de feudos. A coisa pública (res publica), para muitos deles, se transforma em fazenda particular. Muitas vezes, a falta de preparo do governante torna-o refém de um grupo de donatários, que faz a partilha do governo, distribuindo cargos, benesses e posições. Os programas de assistência social se transformam em moeda de troca do fisiologismo paroquial. "Aos amigos, tudo, aos inimigos, os rigores da administração". A mediação político-administrativa é, geralmente, feita por um restrito grupo de assessores-secretários técnicos, posicionados na administração para elevar o perfil de qualidade do governo. É o verniz cosmético da seriedade.

   Para piorar as coisas, os governantes não lavam a cara para tirar a cera que cobre as protuberâncias da pele. Impregnam-se de onisciência e onipotência. Em muitos Estados, vestem-se de Deus. Mas o povo, que não é bobo, consegue distinguir se os deuses que se apresentam, nesse início de 2007, não são apenas diabos cosmetizados, interessados em vender gato por lebre.

  Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e escreve em A Gazeta aos sábados

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