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Sábado, 12 de Maio de 2007, 00h:03 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Por uma questão de oportunismo

   Em artigo abaixo, o jornalista e funcionário público Gilson Nunes expõe sua indignação quanto ao reajuste de quase 30% aprovado pelos deputados federais a eles próprios. A maior revolta de Nunes é que o aumento foi oficializado no primeiro dia da visita do Papa Bento XVI ao Brasil. Confira abaixo.

 

          Que todo mundo sabia que os Deputados Federais estavam ensaiando para aumentar seus salários de forma exorbitante e imoral, não é novidade pra ninguém. O que não dava para imaginar, entretanto, é que esse aumento arbitrário e abusivo viesse a ser votado e aprovado exatamente no dia da chegada do Papa ao Brasil. A revolta da sociedade é grande. Pelos comentários espalhados por todo o Estado de MT, e com certeza todo o país, essa atitude revela a convicção de que os políticos legislam em causa própria. Além dos escândalos de roubos, formação de quadrilha, decoro parlamentar, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, etc... etc... etc..., o que tenho ouvido agora é o relato de que agora, eles colecionam mais um título: covardes.

Infelizmente ou felizmente, a imprensa tem que escolher qual é a matéria do dia que vai obter maior audiência, maior ibope. Afinal, não é todo o dia que se tem a visita de um Papa aqui no Brasil e ainda mais beatificando um santo brasileiro. Como é que pode dois títulos ambíguo, embora distintos entre si, venham a acontecer num mesmo dia, por simples coincidência? Tenho que admitir que o título de “covardes” atribuído aos políticos pelo povo, se procede. Estava mais do que claro que todos os holofotes estariam voltados para dar cobertura à peregrinação Papal no Brasil.

Enquanto a igreja procura promover entre os fieis os costumes conservadores do cristianismo, reiterando sua posição quanto ao aborto, bigamia, pedofilia, HIV, dentre outros, os “passa-fomes da ganância” se inundam em pecados cada vez mais mortais. O que é lamentável é a coragem que os governos têm de dizer que: “não podemos dar esse aumento aos trabalhadores por causa do impacto na folha de pagamento”. Por que é que o tal “impacto” só existe para quem trabalha? Para quem não tem privilégios enfadonhos e marimbundos em todos os sentidos? Olha que para os trabalhadores o tal aumento que vai causar o tal “impacto” não passa de 5%.

O efeito cascata está formado e é irreversível. Não tem como evitar que todos os Estados e câmaras municipais do Brasil façam o mesmo. É como se fosse uma jurisprudência que induz o juiz a decidir, favorável ou não, outros processos de igual teor, pois sua decisão é acompanhada pelo mesmo raciocínio que justifica-se mediante o fato gerador. Não cabe apelação, tampouco agravo.

Outro fato interessante neste contexto é que um aumento de 28% para quem já ganha um pouquinho maIs de R$12.000,00 (DOZE MIL REIAS), não é considerado um assunto polêmico. Isso é engraçado! Aliás, mais engraçado ainda é saber que nesta hora não existe partido de oposição, todos se enclausuram dentro uma mesma concepção ideológica e muito, mas muito ideológica e sobretudo, democrática decisão política.

 Enquanto isso, “na sala de justiça”, toda a sociedade brasileira empunha seu terço e peregrina ao encontro do Papa em busca de melhores dias. Fico a Imaginar que ela espera por um milagre. Acredita piamente que o fato de ver o Papa, seja ao vivo ou pela televisão, ou, ainda, assistir a santa missa de corpo presente ou não, vai acabar com todos os seus problemas, todas as injustiças, discriminações, violência e etc... etc... etc... Ledo engano. È muita ingenuidade.

A fé não pode sustentar uma cruz tão pesada assim. Não queiram, todavia, colocar palavras na minha boca. Não estou dizendo que a presença do Papa no Brasil não seja de grande importância, que a sua presença não vai fortalecer a fé de nosso povo. Muito pelo contrário, a sua vinda há de nos deixar um legado de amor, de fé, de respeito, de carinho e principalmente, de confraternização. A verdade é que o verdadeiro mal está no próprio povo, pois é ele quem elege os seus representantes.

Como eu não sou diferente dos demais, quero crer que São Frei Galvão seja capaz de fazer mais um milagre:  Fazer com que os políticos se envergonhem dos oportunismos cavados por aqueles usam de seus privilégios para atuarem de má fé.

Gilson Nunes é jornalista (gilson.nunes@yahoo.com.br)

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