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Sábado, 01 de Setembro de 2007, 08h:52 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Quem quer o Brasil moderno?

     Lula se queixa de uma torcida contra seu governo. Pode até haver críticas injustas a ações governamentais, principalmente de adversários políticos, mas não há como negar que certos projetos exibem traços eleitoreiros. E que continua no palanque, como denota sua fala no encerramento da Marcha das Margaridas, em Brasília. O mandatário-mor passa boa parte do dia usando o verbo e prometendo verbas. A liturgia eleitoreira impregna a alma lulista. E ela é responsável por exageros e generalizações. Possivelmente o perfil de Lula como eterno candidato passe despercebido das platéias que o ouvem, principalmente quando se trata de multidões em praças públicas. A massa deixa escapar o senso crítico. Diante dela, o sentimento do líder em relação à sua própria multiplicação ganha força. Em se tratando de Lula, a hipótese chega às alturas. O ex-metalúrgico tem obsessiva necessidade de lembrar que é o maior, o melhor, o único capaz de conduzir o povo à Terra Prometida. Lembra João Agripino, ex-ministro e ex-governador da Paraíba, montanha de vaidade, que costumava dizer: "Deus estava com mania de grandeza quando me criou".
     Críticas aos programas sociais do governo apontam o caráter mercadológico e assistencialista que favorece a cultura da acomodação. Quem não se lembra do espalhafatoso Fome Zero, que se perdeu no baú do esquecimento? O Bolsa Família beneficia 46 milhões de pessoas com uma injeção de R$ 72 mensais para as famílias. Alguns técnicos o consideram um bom programa de transferência de renda. Mas é distributivismo em forma pura, descolado do compromisso com avanços. Joga as pessoas na sacola da mesada mensal. Basta anotar que, em vez de diminuir, o programa se expande. Que lógica é esta? A pobreza, então, aumenta? É criminoso constatar que a maternidade se transforma em commodity. Meninas de 12, 14 ou 16 anos engravidam só para terem direito ao auxílio-maternidade e abrirem uma conta no açougue, na bodega, na padaria ou na loja de celulares. Dessa forma, o governo apenas joga cimento fresco na carcomida base que Sérgio Buarque de Holanda descreve: "O gosto maior pelo ócio do que pelo negócio; certa frouxidão e anarquismo, falta de coesão, desordem, indisciplina e indolência".
     Outra recorrência no dicionário de S. Exa. é a afirmação de que governa mais para os pobres. Aplausos. O arremate, porém, merece reparos. É quando confunde elite com rico perdulário e grupos da velha política. Nesse caso, mistura joio com trigo. A crítica às elites é recorrência na tradição política. Tem sido a bengala oportunista que políticos e governantes adotam para recriminar adversários e quem não comunga de seu ideário. O sociólogo Fernando Henrique, vale lembrar, usava outra designação: "Catastrofistas e fracassomaníacos". Que, agora, Lula tenta também resgatar.
     O viés maniqueísta de atribuir à elite o sinônimo de maldade, compartilhado por segmentos que se proclamam de esquerda e presente no aparelho vocal do nosso presidente, acaba de ser desmontado por pesquisa efetuada pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida e que resultou no livro A Cabeça do Brasileiro. A fotografia de um país mais violento, mais corrupto, mais patrimonialista, menos ético, mais preconceituoso, mais estatizante - um Brasil com jeito de mais do mesmo - enche mais os olhos de estratos da base da pirâmide social do que os do meio ou do topo, que detêm maior escolaridade. Para 80% dos que não sabem ler e escrever, um contrato arrumado no governo para um favorecido político não é corrupção, mas um favor, um jeitinho. Coisa que pode ser perdoada. Já para 72% dos formados em curso superior, trata-se de um ilícito. A violência policial, a incúria, o uso do cargo público em benefício próprio, a ajuda do governo às empresas, o assistencialismo, ou seja, o Brasil ortodoxo encaixa-se melhor na cachola de dois terços da população, que forma a base menos escolarizada.
     Os beneficiados com o Bolsa Família - um em cada quatro brasileiros - fecharam contrato de apoio irremovível à figura de Lula. Já as elites aplaudem e vaiam quando há motivos. Veja-se o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (o que seria segurança sem cidadania, algo como matança indiscriminada?) que acaba de ser lançado. O combate à criminalidade é uma demanda prioritária. O que é necessário para dar certo? A combinação de inteligência, estrutura, armamento, quadros policiais preparados. Uma polpuda verba - R$ 6,707 bilhões até o fim de 2012 - foi prometida. Neste ponto, floresce a desconfiança. Como garantir uma coisa que dependerá de outro governante? A descontinuidade administrativa é uma característica dos nossos governos e esse fato é percebido (e denunciado) e não digerido pelo paladar das elites.
     Por último, resta ao ministro Luiz Dulci, conselheiro do discurso, cochichar no ouvido presidencial: "O acordo que fizemos com a elite política é o mais amplo da História recente deste país".

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e escreve em A Gazeta aos sábados

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