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Sábado, 08 de Setembro de 2007, 19h:48 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

INVESTIGAÇÃO

"Renan era chamado de chefe"

Em entrevista a VEJA, advogado revela detalhes da
estranha associação entre o senador e um lobista

Bruno Lins transportou dinheiro, testemunhou conversas e entregou propina

  O advogado Bruno Brito Lins freqüentou durante anos a intimidade do lobista Luiz Garcia Coelho. Na semana passada, VEJA revelou o teor de um depoimento prestado por Bruno à polícia no qual relata negociatas conduzidas pelo lobista em parceria com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Desde então, por medo de represálias, Bruno dorme cada dia em um endereço e desligou o celular. Na noite de terça-feira, o advogado prestou um depoimento sigiloso à Polícia Federal. Bruno contou em detalhes como sacou milhões de reais no BMG a mando do lobista Luiz Coelho e como distribuiu parte do dinheiro a um deputado federal. Na quarta-feira, Bruno Lins recebeu VEJA para sua primeira entrevista sobre o caso. Durante duas horas e meia, ele detalhou como funcionavam os negócios clandestinos do lobista Coelho, seu ex-sogro, a parceria que ele mantém com Renan Calheiros, a quem chama de "chefe", e a intimidade que existe entre os dois. Contou também minúcias da participação do lobista em um dos mais nebulosos negócios do atual governo, o crédito consignado para aposentados, e entregou documentos para provar o que dizia. Bruno revelou ainda que Flávia Coelho, sua ex-mulher, usa o gabinete e o prestígio de Renan Calheiros para intermediar encontros do lobista com funcionários do governo. Por fim, narrou como foi convidado a participar de um golpe contra o fundo de pensão Postalis.

 

O CHEFE

Bruno conviveu com o lobista Luiz Garcia Coelho desde que começou a namorar sua filha, dez anos atrás. A convivência, em alguns momentos muito intensa, consolidou nele a certeza de que o ex-sogro e Renan Calheiros são muito mais que simples amigos. São parceiros, sócios e cúmplices em operações e negócios que envolvem interesses dentro do governo. "O Luiz sempre dizia que operava para o Renan", conta Bruno. É sabido em Brasília que o presidente do Senado e Luiz Coelho são amigos há pelo menos quinze anos. A intimidade é tamanha que Coelho convidou Renan, em maio de 2000, para ser padrinho do casamento de sua filha, funcionária de confiança do senador. Há semanas em que os dois chegam a se encontrar diariamente, sempre à noite, no fim do expediente, na residência oficial da presidência do Senado. Diz Bruno: "O Luiz sempre freqüentou a casa do presidente do senado. Eu escutava ele dizendo: 'Estou indo para a casa do chefe. Não tenho hora para voltar'. Isso costumava ser no fim da noite. Às vezes, voltava só de madrugada".

Quando você soube pela primeira vez da relação de Renan Calheiros com o seu sogro, Luiz Coelho?
No meu casamento. Fiquei sabendo um mês antes que ele seria padrinho, convidado pelo Luiz.

Por que você diz que ele é homem de confiança de Renan Calheiros?
Pelos comentários que ele vivia fazendo, de que o "chefe" estava dando trabalho, estava dando dor de cabeça, que o fazia trabalhar demais. Eu via o que estava acontecendo. Os comentários sobre Renan eram recorrentes.

Ele trabalhava em tempo integral para Renan?
Ele sempre dizia que ia sair para resolver alguma coisa para o Renan, ou para ir à casa do senador.

Como seu sogro se referia a Renan?
Na frente dos outros, ele quase nunca falava o nome do senador. Em casa, Renan era chamado de chefe.

Bruno faz, inclusive, uma nova revelação sobre as conexões entre o presidente do Senado e o lobista Coelho. Segundo ele, sua ex-mulher vale-se do cargo de assessora de Renan para marcar audiências para "clientes" do pai com ministros e autoridades do governo. Para isso, ela usa o e-mail do gabinete e desfruta o prestígio do cargo de chefe de cerimonial da Presidência. Explica Bruno: "O Luiz usa esse artifício para marcar audiências no governo. Funciona perfeitamente. Oficialmente, é um pedido do senador, mas quem vai é o Luiz. Imagine se alguém vai recusar um pedido de audiência feito em nome do presidente do Congresso". O advogado não sabe se o senador tem conhecimento de todas as audiências solicitadas em seu nome pela assessora, mas não tem dúvida de que a ex-mulher tem carta-branca para atuar. "Até onde eu sei, não é nada escondido."

 

A NEGOCIATA

No começo de 2005, Bruno testemunhou involuntariamente um dos negócios mais nebulosos do governo Lula. Ele acompanhou de perto as articulações do BMG com seu sogro para viabilizar interesses do banco no Ministério da Previdência – até agora, não se sabe exatamente como o BMG, um peixe pequeno do mercado financeiro, despontou com tanta pujança na liderança do bilionário mercado dos empréstimos consignados do INSS. O testemunho do advogado a VEJA, rico em detalhes e episódios, começa a esclarecer a história. Em fevereiro de 2005, Bruno conta que estava jantando na casa do lobista e presenciou uma reunião de três dirigentes do BMG com o ex-sogro. Eles conversavam na sala de estar. Bruno, na sala ao lado, escutava tudo. "Os quatro falavam sobre a necessidade de tirar Amir Lando do Ministério da Previdência", conta o advogado. Além de ter testemunhado essa reunião, Bruno diz que também ouviu telefonemas de Coelho nos quais o sogro conspirava para apear Lando do Ministério da Previdência.

Quando começaram as negociações entre Luiz Coelho e o BMG?
Antes da posse do senador Renan Calheiros como presidente do Senado, nunca tinham falado de crédito consignado, de nada. Logo depois que Renan tomou posse, as conversas sobre o BMG ficaram freqüentes, só se falava nisso. Aliás, a cúpula do banco chegou a prestigiar a posse do senador. Eu estava lá.

O que se falava?
Eu presenciei conversas e ouvi telefonemas nos quais o pessoal do BMG e o Luiz começaram a confabular para tirar o Amir Lando da Previdência e colocar outra pessoa.

Quem?
Eles falavam que tinham de nomear o senador Romero Jucá.

No começo de março de 2005, um mês depois da posse de Renan e poucos dias antes que Jucá efetivamente assumisse o Ministério da Previdência, como era desejo do grupo, Bruno conta que acompanhou Coelho até o hangar da empresa Líder, no aeroporto de Brasília. "Vamos buscar uns amigos meus", explicou o lobista, segundo o relato de Bruno. Os dois seguiram no carro de Bruno. No aeroporto, um Omega aguardava os três dirigentes do BMG, que chegaram em um jatinho. Um deles era o presidente do banco, Ricardo Guimarães. Os dirigentes do BMG e Luiz Coelho foram até o gabinete do senador Romero Jucá. "Eles ficaram por volta de uma hora e meia dentro do gabinete", lembra o advogado. De lá, o carro que transportava a cúpula do BMG retornou ao aeroporto. O que um lobista e três banqueiros foram fazer no gabinete de um senador? "O Luiz não comentou sobre o que se falou lá dentro", diz Bruno. Nos dias que se seguiram, as negociações entre Coelho e o BMG se intensificaram. O advogado conta que o banco queria mudanças na instrução normativa que regulava a concessão do crédito consignado, permitindo o desconto em folha de compras feitas com cartões de crédito. Durante as conversas sobre as alterações, diretores do banco combinaram de enviar a Luiz Coelho uma cópia da instrução vigente, para que ele se inteirasse do assunto. Em nota, o BMG sustenta que nunca tratou do tema crédito consignado com Luiz Coelho. Uma intrigante mensagem eletrônica foi enviada a Bruno Lins às 12h42 do dia 16 de março, por Marcus Vinicius Vieira, um dos diretores jurídicos do banco. VEJA teve acesso à mensagem. O e-mail desmente a versão oficial do banco sobre a conversa a respeito do crédito consignado. Dois dias depois da mensagem, em 18 de março, o então presidente do INSS, Carlos Bezerra, assinou uma instrução normativa contendo as alterações que beneficiavam o BMG.

O período em que Bezerra baixou a instrução e Romero Jucá tomou posse na Previdência – tudo que o BMG e Luiz Coelho queriam e planejavam – coincide com uma temporada de saques em dinheiro vivo no banco e com a distribuição de propina aos personagens envolvidos no caso. Bruno conta que, entre o fim de março e o início de abril de 2005, fez três saques no BMG, todos por ordem de Luiz Coelho. O primeiro no valor de 300.000 reais, o segundo de 1 milhão e o terceiro de 1,5 milhão. Seguindo orientações do lobista, Bruno conta que foi de carro a Belo Horizonte pegar uma "encomenda". No meio do caminho, Coelho telefonou e lhe deu instruções: "Você vai ligar para a Cremilda e pegar 150.000 reais". Bruno ligou para a mulher, identificada como secretária do BMG, e combinou o local da entrega: um posto, nas imediações de Belo Horizonte. "Parei no posto e fiquei esperando", conta Bruno. Logo depois, um motorista, chamado Adalmar, estacionou um BMW escuro e desceu com uma sacola de papelão. "Aqui tem 300.000", disse o motorista. Bruno, surpreso com a quantia, ligou para Coelho para se certificar de que não havia nenhum engano. No trajeto de volta, recebeu um telefonema da secretária de Coelho, que lhe pediu para fazer um depósito na conta de uma das empresas do sogro. Ele não se recorda precisamente do valor total, mas garante que não foi mais que 30 000 reais. Em Brasília, o dinheiro foi entregue ao sogro, que o guardou num cofre no quarto de sua casa, para, logo depois, começar a distribuí-lo.

O dinheiro do BMG teve que fim?
Dois ou três dias depois, o Luiz me chamou na casa dele e me pediu para levar 150 000 reais para o Carlos Bezerra, no hotel Metropolitan.

A que horas ocorreu esse encontro?
À tarde. Eu fui sozinho até o hotel. O próprio Carlos Bezerra me atendeu. Estava de calça jeans, sapatos e camisa social. Entreguei a sacola na porta do quarto, ele agradeceu e eu fui embora.

Você fez mais alguma entrega de dinheiro nesse dia?
No mesmo dia, por volta das 9 da noite, Luiz me entregou 50.000 numa sacolinha, dessas de presente. Disse: "Dá uma passadinha na casa do Leão (José Roberto Leão, diretor da Dataprev) e deixa esse negócio para ele". Fui à casa do Leão e entreguei a sacola.

Três semanas depois, já em abril, Coelho pediu pela segunda vez ao genro que buscasse dinheiro no BMG. Dessa vez, numa agência em Brasília, localizada num shopping. Coelho orientou Bruno a procurar o gerente da agência. "Eram maços de notas de 100, com cintas do Banco Central", relembra Bruno. O gerente informou que o pacote continha 1 milhão de reais. Cerca de um mês depois, Bruno recebeu a terceira missão do sogro e foi novamente à agência do BMG em Brasília buscar outro "envelope". Como da vez anterior, Bruno recebeu o pacote das mãos do mesmo funcionário, só que com 1,5 milhão de reais. A mansão onde eram feitas as negociatas e guardada a propina tem 1 000 metros quadrados e fica num bairro de luxo da capital. O cofre-forte é cinza, mede cerca de 1 metro quadrado e fica escondido na suíte de Coelho, no 2º andar.

O GOLPE

Na Páscoa de 2006, Bruno fez uma viagem de carro com o sogro a Arraial d'Ajuda, na Bahia. O casamento dele com a assessora de Renan já estava degringolando, mas Coelho fez uma proposta ao genro. O lobista confidenciou que estava prestes a entrar num grande negócio e queria que ele coordenasse o início das operações. O plano de Coelho era construir um resort de luxo em Trancoso, na Bahia, com dinheiro do fundo de pensão dos Correios, o Postalis. O resort custaria 250 milhões de reais, mas a idéia era estimar o investimento em 500 milhões de reais, para que o fundo, ao arcar com aparentemente metade do empreendimento, pagasse tudo. O banco BVA ficaria responsável por avalizar o negócio. Bruno presenciou uma reunião na casa do sogro em que o assunto foi discutido e na qual estavam presentes o presidente do BVA, José Augusto dos Santos, e o então presidente do Postalis. Segundo Bruno, o lobista disse que Renan seria um dos sócios, por causa da influência que o PMDB tinha junto aos fundos de pensão.

O negócio não foi para a frente?
Eles ainda estavam negociando a compra do terreno. O Luiz me contou os planos, me convidou para participar, mas eu não aceitei.

O Renan participaria do negócio?
Meu ex-sogro disse que ele poderia ser um dos sócios.

Bruno Lins conta ainda que esteve com o senador Renan Calheiros no dia 28 de junho passado, no escritório do advogado Eduardo Ferrão. Explica que resolveu procurar o advogado quando começaram a surgir rumores de que suas revelações estariam sendo usadas por um conhecido estelionatário da cidade para extorquir o senador. Estelionatário por coincidência muito conhecido da família Garcia Coelho. Ele diz que foi ao escritório para esclarecer que, pessoalmente, nada tinha contra o senador Calheiros. Explicou ter narrado à polícia as atividades de seu ex-sogro para se defender das ameaças que vinha sofrendo desde que decidiu se separar. Renan ouviu tudo atentamente – e nada falou. Nesta semana, o presidente do Congresso será julgado em plenário pelo envolvimento com Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, lobista que pagava suas despesas pessoais.

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