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Segunda-Feira, 17 de Dezembro de 2007, 07h:48 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

Resistência ao pacote de maldades

     O benefício da dúvida, mas, quanto à equipe econômica, as certezas parecem absolutas. A turma de Guido Mantega estava posta na sombra da curva da estrada, à espreita de uma oportunidade para dar o bote que acaba de dar. Até sentiam-se incomodados, o ministro da Fazenda e seus penduricalhos, com os arroubos sociais e desenvolvimentistas do presidente da República, aliás, todos coordenados e executados na chefia da Casa Civil, pela ministra Dilma Rousseff.
     Pois a oportunidade apareceu e os neoliberais do governo acabam de atacar. Por conta de tertúlia meramente política que levou as oposições e dissidentes oficiais a rejeitarem, no Senado, a prorrogação da CPMF, lançam-se os responsáveis pela política econômica na tentativa de impor a marcha a ré ao país. Cortes de despesas no setor social e de infra-estrutura, congelamento de vencimentos e salários, aumento de impostos, contingenciamento de verbas orçamentárias para obras públicas e reequipamento das forças armadas, supressão de direitos sociais - vai para o espaço tudo o que vinham engolindo os adversários da afirmação da soberania nacional. Pelas propostas que correm as avenidas de Brasília, o pretexto da extinção da CPMF e de seus 40 bilhões de reais de arrecadação servirá para encher o pacote de maldades a ser anunciado esta semana.
     A menos que o presidente Lula reaja, o que não parece fácil diante das ameaças de caos econômico feitas por Mantega, mergulharemos outra vez no modelo que marcou os anos de 2003 e 2004, quando o governo Lula praticou os mesmos crimes de lesa-pátria que Fernando Henrique Cardoso impôs ao país por oito anos.
      Está tudo perdido? Pode ser que não, porque no Palácio do Planalto forma-se um núcleo capaz de resistir ao pacote de maldades do ministro da Fazenda. Dilma Rousseff, Luiz Dulci, Franklin Martins, Marco Aurélio Garcia e, de fora, Patrus Ananias e Tardo Genro, preparam a resistência. Seus adversários tecnocratas já os rotulam de "exército brancaleone", mas quem sabe estarão enganados? Porque o Lula começou a dar a volta por cima, mesmo enquadrado pelo pavor da volta da inflação, pela prioridade do pagamento de juros da dívida pública, pela permissão de lucros astronômicos aos bancos e aos especuladores. Aparece agora o pretexto para a equipe econômica fazê-lo retroceder, dar o dito pelo não dito e o feito pelo não feito. Resistirá o presidente?
      Abatendo o prejuízo - É claro que 40 bilhões de reais constituem uma soma olímpica, daquelas difíceis até de imaginar, mas alguma coisa poderia ser abatida, ou melhor, reposta pelo governo, caso o Poder Judiciário ajudasse. O Poder Judiciário? Sim, porque somando-se o que foi roubado dos cofres públicos nos tempos do mensalão, dos sanguessugas e de tantos escândalos a mais, conhecidos e encobertos, quanto poderia retornar se os tribunais acelerassem seus julgamentos, punindo os culpados e fazendo-os devolver o produto do roubo? Caso se agilizassem os mecanismos para devolver ao Brasil o que ladrões contumazes enviaram para fora, seria mais um esforço. Até mesmo o cancelamento dos gastos com os cartões institucionais da presidência da República e arredores ajudaria, mesmo como grãos de areia numa praia de nudez explícita. Mais psicológicas do que efetivas, certas economias serviriam para integrar o governo com a população.
     Suicídio é crime - Determina o Código Penal processo e pena de cadeia para um suicida que fracassa ao atentar contra a própria vida. É crime. Além do que, em termos religiosos, o suicídio configura pecado mortal. Uma fraqueza, um momento ou anos de desespero e desilusão, um desequilíbrio qualquer - tanto faz, mas condena-se ao fogo eterno quem destrói o bem maior concedido por Deus, a existência.
     Com todo o respeito, então, e por mais que se reconheça os inestimáveis serviços prestados ao país pela CNBB, não dá para entender como seus dirigentes estão pedindo apoio à greve de fome adotada pelo bispo dom Luiz Cappio. Se o religioso permanecer irredutível, morrerá de inanição. Por ato de vontade própria, exclusivamente. Além de, caso não se arrependa no último segundo de vida, estará condenado às profundezas.
     Não se discutem os motivos de o bispo insurgir-se contra o desvio das águas do rio São Francisco. O próprio Nordeste dividiu-se de alto a baixo. Exigir mais debates públicos, discussões científicas, movimentação popular, passeatas e demais atos de protesto é um direito de todos, a começar por dom Cappio. Mas ameaçar com o suicídio, não dá.
     O bispo pode ser e provavelmente será um santo. Alguém respeitado e reverenciado. Mas até por caridade deveria a CNBB estar tentando convencê-lo a utilizar outros instrumentos que não a greve de fome. Claro que pedindo orações em favor dele aos fiéis. Orações, porém, pela sua vida, jamais para justificar a sua morte.

Carlos Chagas é jornalista em Brasília

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