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Terça-Feira, 15 de Maio de 2007, 10h:44 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Resistir à religião

     De olho mais na doutrina católica do que na vida de seus fiéis, o papa Bento 16 tomou pouco conhecimento das sensibilidades locais em sua primeira visita ao Brasil.
     Ratzinger e seu segundo escalão bateram duro na relativa liberalidade moral do país -virtude que nos torna tolerantes com diferentes crenças e comportamentos. E pouco disse sobre a devassidão moral de grupos que impõem a corrupção quase completa aos poderes públicos nacionais -alguns de seus representantes, inclusive, estavam na primeira fila de convidados.
     O papa veio doutrinar o rebanho e pedir regalias para a igreja. Fez bem o presidente Lula, num de seus intervalos de extrema lucidez, ao se opor publicamente e com algum vigor à investida papal. Pouco se discute no místico Brasil sobre as relações entre igreja e Estado, religião e liberdades civis.
     Talvez porque se discuta pouco no Brasil temas que fujam dos jogos da rodada e dos telenovelixos globais.
     É uma discussão muito presente nos EUA -onde a força da fé tornou-se força política- e nas áreas de alguma predominância islâmica -onde o extremismo muçulmano quer retroagir o Estado moderno a um mero serviçal de Deus.
     Esse retorno da fé religiosa à esfera política, como mostram os exemplos acima, assusta e deve ser combatido.
     As religiões devem ser exercidas com total liberdade. Mas sempre respeitando o direito de delas discordarmos. No Brasil, de instituições ainda em consolidação, a luta pela liberdade em relação ao credo religioso alheio deve ser apoiada.
     Um de seus maiores combates é o aborto, e a coragem do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, é admirável. Outro, menos evidente, está sendo travado no Supremo Tribunal Federal, sobre a constitucionalidade da Lei de Biossegurança de 2005, que autoriza a pesquisa com células-tronco extraídas de embriões produzidos "in vitro".
     O subprocurador-geral da República Cláudio Fonteles, autor da ação de inconstitucionalidade, disse da geneticista Mayana Zatz, uma das cientistas mais respeitadas do país e defensora da legislação no STF: "A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato".
     Zatz foi precisa na resposta: "Estou triste, porque isso contraria a tradição de tolerância e de respeito à diversidade religiosa que caracterizam este país. Posso garantir que minha defesa da pesquisa com células-tronco embrionárias está longe de ser motivada por razões religiosas. É por meus pacientes, para minorar o sofrimento".
     É essa tolerância que precisa ser defendida, com máximo vigor.

 
Sérgio Malbergier é editor de Dinheiro .

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