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Terça-Feira, 31 de Julho de 2007, 09h:00 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Silêncio! É Proibido Vaiar

     Hoje é o dia "D". Talvez, quando o leitor ou a leitora estiver escorregando os olhos por estas linhas, o presidente da maior nação latino-americana já esteja por aqui. Há toda uma expectativa. E não é para menos, pois Sua Excelência irá anunciar mais de R$ 500 milhões de investimentos do PAC em obras de infra-estrutura para Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis, diante de uma platéia cuidadosamente selecionada, incumbida apenas de assistir a cerimônia. Os aplausos são permitidos, bem como a movimentação das bandeirolas, porém jamais, nem em pensamento, a manifestação sonora de desagrado, sob forma de gritos, assobios, pateadas, apupos ou buzinadas. Melhor seria o silêncio.
     Tem-se, assim, um cenário dividido entre o proibido e o permitido. Uma fita cinematográfica, então, revive o Estado autoritário, onde se aceita tão-somente o riso do "triunfo sobre um inimigo derrotado", pois o "Grande Irmão", atento a tudo e a todos, está sempre disposto a oprimir e a torturar a população, com o fim único de lhe controlar a mente e as ações, a exemplo de "uma bota pisando num rosto humano", escreve George Orwell, em sua obra intitulada "1984". Semelhante com que se viu muito tempo depois, no "nazi-fascismo", "Stalinismo" e, evidentemente, na ditadura burocrático-militar de 1964-1985. Nestes regimes, os governantes eram tidos como "pais da nação", do povo, e, por conta disso, cultuados. Suas visitas "atraíam" às ruas estudantes, funcionários públicos e populares, que os saudavam com bandeirolas e a cantarolar o hino nacional.
     Em meio a esse espetáculo das massas, entraram na adolescência, fizeram-se adultos e tornaram-se pais muitos dos atuais políticos brasileiros. Alguns destes foram levados a participar de tal evento, outros tantos lutaram contra a situação existente. Os senhores Lula da Silva, Blairo Maggi e Wilson Santos, independente de suas idades, distintas, é claro, pertencem a esse tempo. Mas, curiosamente, hoje em dia, à frente da administração pública federal, estadual e municipal, respectivamente, parecem escolher a manifestação manipulada, aquela em que somente se aceitam os aplausos. A propósito, o presidente sempre foi acalentado pelas pesquisas que o paparicam, igualmente como era tratado nos tempos de sindicato e na presidência do PT. Não considera a si próprio, portanto, como um Silva qualquer razão pela qual o cidadão comum lhe deve eterno aplauso, principalmente quando traz investimentos. Aliás, para os governantes e seus sequazes, falar de vaia é tão difícil quanto aceitá-la. Compreende-se, agora, o gesto do alcaide-mor de Cuiabá em pedir para os peessedebistas não vaiarem o ex-metalúrgico, pois teme que o referido constrangimento possa prejudicar a parceria entre a prefeitura e o governo federal; se pudesse, faria o mesmo pedido a todos os munícipes, talvez não com o mesmo teor de chantagem. Afinal, é hora de agradecer imensamente ao presidente da República pela tamanha generosidade para com as cidades e a população mato-grossenses. Ah! É bom não se esquecer, o dinheiro que chega é do contribuinte cuiabano, rondonopolitano, várzea-grandense e dos demais brasileiros de outras paragens.
     Isso, obviamente, garante a cada cidadão o direito de se posicionar contrário ou favoravelmente ao comportamento em geral de uma dada autoridade. Ninguém deve, nem mesmo o governador, tampouco o prefeito impedir o munícipe de vaiar o presidente Lula da Silva. Afinal, cabe aqui repetir uma frase de Winston Churchill: "Feliz do povo que pode vaiar seus governantes". Vaiar não deixa de ser uma manifestação, uma expressão livre de opinião, garantida pela Constituição e pela democracia. Não vale, portanto é o proibir, nem ficar em silêncio, engolindo em seco a indignação pelo caos.

Lourembergue Alves é professor da Unic e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço às terças-feiras, sextas-feiras e aos domingos ( lou.alves@uol.com.br )

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