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Domingo, 14 de Janeiro de 2007, 08h:26 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Socialismo e mercado

     O economista Vivaldo Lopes, discorre, em artigo neste domingo (14) no Diário de Cuiabá, sobre o socialismo. Leia reprodução abaixo.

    Esse foi o termo utilizado pelo mitológico guru da administração moderna, Peter Drucker, em seu antológico livro, de 1975, “A Revolução Invisível”, no qual ele descreveu o fantástico crescimento do capitalismo americano a partir da modernização e popularização do seu mercado de capitais. Drucker demonstrou que os Estados Unidos promoviam verdadeira revolução “socialista” ao estimular que os seus cidadãos comuns se tornassem donos das maiores empresas americanas por meio da compra de ações, ao mesmo tempo em que a União Soviética praticava o capitalismo de Estado, ao concentrar as atividades produtivas no poder público. 

   Paradoxalmente, a única reforma levada a efeito com sucesso pelo governo esquerdista do presidente Luis Inácio da Silva foi a modernização do mercado de capitais brasileiro. Se o atual governo não foi o ideólogo dessa reforma, deu sequência ao trabalho já iniciado pelo presidente da Bovespa, Francisco Magliano, não aparelhou partidariamente a Comissão de Valores Mobiliários – CVM e fez alterações na legislação do imposto de renda que facilitaram aos cidadãos comuns aplicarem parte de sua poupança na compra de ações de grandes e até médias empresas. Estimulou, ao mesmo tempo, as empresas a financiarem grandes projetos de expansão através da abertura de seus capitais, fazendo lançamentos públicos de ações. Captar recursos para novos projetos de expansão através do lançamento de ações é a reforma mais engenhosa e barata que o capitalismo já criou para os negócios. 
   Nunca as empresas brasileiras captaram tantos recursos em bolsa. Somente em 2006 foram 125 bilhões de reais em emissões debêntures e certificados de recebíveis. Vinte e seis empresas lançaram ações na Bovespa, um recorde dos últimos anos. O salto de qualidade do mercado de capitais é atestado com a participação, até então inédita no Brasil, de médias empresas, como a OdontoPrev, operadora de planos odontológicos e a BrasilAgro que tem seu modelo de negócios baseado na compra de propriedades rurais, levá-las ao nível ótimo de produção para em seguida vendê-las. A BrasilAgro já nasceu ingressando na bolsa, onde captou, em maio de 2006, 580 milhões de reais com o seu lançamento inicial de ações. 
    O fortalecimento da CVM e o bom trabalho que vem desenvolvendo nas análises de novas ofertas de ações e de fiscalização das atividades foram fatores que aumentaram a confiança do investidor. O excelente trabalho que o presidente Francisco Magliano desenvolve há vários anos à frente da Bovespa com inúmeras campanhas de divulgação do mercado de ações também foram fatores decisivos para o salto qualitativo do mercado de capitais. Além disso, a estabilidade econômica, controle da inflação, redução gradual da taxa de juros, combinados com outros aspectos positivos da economia estimularam o investidor a aplicar no setor privado. Fomos também favorecidos pela excelente fase da economia mundial que liberou parte da liquidez internacional para o mercado de capitais brasileiro, favorecendo as empresas nacionais que tiveram 70% de suas novas ações lançadas compradas por investidores estrangeiros. 
   O mercado de ações não se encontra ainda em estágio à altura das dimensões da economia brasileira. Temos apenas 390 empresas com ações negociadas em bolsa, enquanto especialistas apontam um potencial de 2.000 empresas que podem ter suas ações ofertadas em bolsa. 
   Ao contrário das reformas trabalhista, previdenciária, tributária e política que não tiveram nenhum avanço no atual governo, a reforma do mercado de capitais, a mais liberal de todas, pode ser tributada como um sucesso. Resta agora dar sequência ao salto qualitativo, com melhor integração da Bovespa com bolsas de outros países para atrair mais investimentos estrangeiros, facilitar mais o acesso das médias empresas à Bovespa, regulamentar melhor os fundos de pensão de empresas privadas e executar campanhas didáticas de popularização da aplicação em ações.

* VIVALDO LOPES é economista, pós-graduado (MBA) em gestão financeira de empresas pela FIA/USP, consultor da Fundação Getúlio Vargas - FGV (vivaldo@uol.com.br)

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