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Terça-Feira, 12 de Junho de 2007, 10h:00 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Taxa de juros e crescimento

     A recente decisão do Banco Central de retomar um ritmo mais acelerado de redução da taxa básica de juros traz de volta uma antiga discussão sobre se realmente o principal inibidor do crescimento econômico do Brasil é a elevada taxa de juros praticada aqui há muitos anos. Com o corte anunciado pelo Banco Central de 0,5 ponto percentual, a taxa básica de juros foi reduzida para 12% ao ano. Deduzida a taxa de inflação prevista para 2007, próxima de 3,5%, teremos finalmente uma taxa real de juros abaixo dos 10%, fato inédito na história econômica do país. O tema divide os analistas econômicos especializados e deixa na berlinda muitos que atribuíram toda a culpa pelo pífio crescimento econômico do nosso PIB nos últimos anos exclusivamente às altas taxas de juros praticada pelo Banco Central como principal ferramenta para controlar a inflação, garantir o valor da moeda brasileira e assegurar a estabilidade monetária do país. As política monetárias de taxas de juros altas praticadas pelos últimos governos centrais brasileiros tem sido tão debatida, verbalizada e popularizada que foi colocada solitariamente no papel de vilã principal do fracasso do Brasil em acompanhar o mesmo ritmo de crescimento acelerado dos países emergentes. Aparentemente, em razão desse surto de "vedetismo-populista" forçado da taxa de juros, outros problemas graves que atrapalham o desenvolvimento econômico do país podem ter ficado em papéis secundários e não foram discutidos e analisados com maior profundidade.
     Um dos mais respeitados analistas econômicos do país, o ex-presidente do BNDES, Luís Carlos Mendonça de Barros, afirmou em seu artigo semanal publicado na Folha de São Paulo que "...eu não tenho medo de dizer hoje que os juros não são mais um limitador importante de nosso crescimento".
     Exemplos não faltam de países que praticam baixas taxas de juros e convivem com baixo crescimento econômico, como Japão e México. Não faltam também exemplos dos que apresentam baixo crescimento econômico e elevadas taxas de juros como Brasil e Turquia.
     Ao longo da histórica recente do Brasil vimos a satanização de alguns fatores como sendo responsáveis pelo subdesenvolvimento do país. Em determinado período eram as multinacionais. Em outro era a hiperinflação. Mais tarde era o alto custo de vida (apelidado por muitos de "carestia"). Por muito tempo culpamos a dívida externa pelo baixo crescimento de nossa economia. Um a um esses problemas foram contornados e, mesmo assim, o tão sonhado espetáculo do crescimento acelerado não chega.
     Não me parece, portanto, que são apenas e tão-somente as elevadas taxas de juros atuais a principal "piece du resistance" ao crescimento econômico do Brasil. Não é possível afirmar que, se num passe de mágica, a taxa básica de juros fosse reduzida drasticamente para algo próximo de 5,5%, imediatamente nosso PIB cresceria no mesmo patamar de países emergentes como Chile, Índia, Coréia do Sul ou a fenomenal China. O que não quer dizer que concordo que uma taxa real de juros na casa dos 8,5% seja a ideal. Ainda é a mais elevada do mundo e certamente não é um fator impulsionador da nossa economia. Mas talvez possamos aproveitar a confiança do mercado de que a política monetária praticada pelo Banco Central é eficaz para manter a inflação sob controle e que os cortes na taxa de juros continuarão, para discutirmos de forma menos passional e mais racional outros gargalos que travam o crescimento econômico brasileiro.
     O momento é propício para a sociedade exigir dos governos central, estaduais e municipais a redução dos seus gastos, única forma segura de reduzir também a carga tributária. Discutir a indigência do nosso sistema educacional, as crônicas deficiências da infra-estrutura de transportes aéreo, ferroviário, hidroviário, rodoviário, logística dos portos, energia elétrica e saneamento básico.

Vivaldo Lopes é economista, especialista em administração financeira pela FIA/USP, consultor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). E-mail (  vivaldo@uol.com.br )

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