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Quinta-Feira, 17 de Maio de 2007, 10h:05 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Terceiro mandato está vivo

     No Congresso, terça-feira e ontem, muita gente boa buscava interpretar as afirmações do presidente Lula em torno do tema reeleição, feitas durante entrevista coletiva no Palácio do Planalto. De sua parte, o pessoal da imprensa registrava, com agrado evidente, a retomada de uma prática que andou esquecida por anos e anos, qual seja, a de o primeiro mandatário submeter-se com certa periodicidade aos questionamentos dos jornalistas, sem a exigência de prévio encaminhamento das perguntas, por escrito.
     Mas, voltando à reeleição, é verdade que partiu da imprensa a iniciativa de provocar o presidente a tocar no assunto. E foi bom, porque a resposta de Lula acabou sendo bastante enfática: não será (candidato), não pensará nem cogitará qualquer hipótese do terceiro mandato. E apresentou suas razões: a Constituição não permite e ele não pretende brincar com a democracia. Além disso, lembrou, é contrário à tese da reeleição, sempre foi, e só concorreu ao segundo mandato, no ano passado, por ter sido obrigado a isso.
     Vamos por partes. Primeiro, a verdade é que, neste país, a Constituição tem sido mudada de vez em quando, ao sabor dos ventos políticos, e que, portanto, não seria de descartar-se a hipótese de o atual presidente vir a montar um "acórdão" com os partidos para obter a aprovação da emenda que lhe permitiria concorrer ao terceiro mandato. As condições aqui são bem diversas, mas vale invocar, só como advertência, o que ocorre na Venezuela chavista. Assim, não é o caso de confiar cegamente na garantia presidencial de que não será candidato. Não porque ele seja um político de tendência populista, mas porque está no poder e é parte de um esquema de poder. Pode parecer uma hipótese absurda, e é, mas na realidade não seria impossível montar um esquema que o "obrigasse" a subir novamente nos ombros do povo a rampa do Palácio do Planalto.
     Segundo, a resposta de Lula ao questionamento dos jornalistas só podia mesmo ser essa. Se dissesse que vai ser candidato, ele estaria antecipadamente rasgando a letra constitucional. Terceiro, é óbvio que ele não foi sincero na sua afirmação de que só se candidatou ao segundo mandato porque foi obrigado. Mesmo como força de expressão, a justificativa não cabe porque, como todos sabemos, Lula quase não governou no seu primeiro mandato justamente porque estava em campanha permanente. Poucas vezes alguém desejou tanto, como ele, conquistar mais quatro anos de mandato, fosse por querer igualar-se a Fernando Henrique Cardoso, fosse por achar que os primeiros quatro anos eram insuficientes para o exercício do poder, fosse ainda por não ter cumprido boa parte das promessas feitas na campanha de 2002.
     Em sã consciência, ninguém deve mesmo imaginar que pela cabeça do presidente Lula esteja passando a idéia de continuísmo. Neste momento não há condições nem políticas nem institucionais para isso. Por outro lado, ele antecipou em sua entrevista algo que todo mundo sabe, mas que ele ainda não havia verbalizado: quer fazer o seu sucessor. Essa afirmação é um trunfo de alcance inimaginável. Com ela, o presidente assume, na prática, o papel de grande coordenador do processo de escolha do próximo candidato do seu esquema. Ao mesmo tempo, bota vários dos seus ministros-candidatos para trabalhar sem descanso pelos próximos dois ou três anos. Cria ainda uma blindagem contra as críticas de muitos pretendentes, mesmo da oposição e, de qualquer forma, não fecha nem mesmo a porta para ele próprio emergir mais tarde, na hipótese improvável de uma complexa combinação de fatores, como postulante ao execrado terceiro mandato.

Carlos Monforte é jornalista em Brasília e escreve em A Gazeta às quintas-feiras


    

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