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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2007, 07h:36 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:19

Artigo

Todos são militantes de alguma forma?

     Ser militante não é fazer parte de uma “tribo” qualquer e andar em grupo tentando convencer os outros a adotarem posições extremadas. Ser militante não é tapar os olhos e desobedecer à razão para não enxergar o outro lado, como se existisse apenas uma única verdade (as que defendem).
     Ser militante não significa estar disposto a pegar em armas para fazer valer, a qualquer custo, as nossas convicções. Ser militante significa apenas defender, com coragem, as nossas posições, ainda que elas possam nos criar embaraços.
     Militância é um compromisso. O “militante” que não tem compromisso algum costuma fazer o jogo dos outros. Ele vende a sua fala sem se aperceber disso. Ele é um ingênuo, porque acredita que está contribuindo para o progresso da ciência e da sociedade, quando está se reduzindo a um mero porta-voz de empresas, governos e pessoas mesquinhas. Para não ser taxado de radical, prefere ficar em cima do muro. É um omisso, um acomodado, um covarde. Não tem espinha e se curva.
     Muitos “militantes”, especialmente os que se proclamam não políticos, sem ideologia, não sintonizados com a verdade e a objetividade, costumam repudiar a verdadeira militância, como se o compromisso com idéias ou causas fosse um equívoco.
     A maioria deles, no entanto, pratica a Militância, mesmo que não se dêem conta disso. Até porque estar neutro é uma condição absolutamente militante. Não se pode ficar neutro quando se contempla a injustiça social, quando se dá de cara com governantes corruptos, quando se surpreende lobbies poderosos afrontando o interesse público ou quando se flagram madeireiros devastando o nosso Mato Grosso.
     O problema está em definir o que seja militância?
     Alguns provavelmente confundem militância com filiação partidária e, querendo se mostrar distantes das mazelas praticadas pelos partidos brasileiros, optam por não assumir essa condição. Há quem acredite que militância é o atributo que une jovem empunhando bandeiras pelas ruas, gritando slogans sem sentido, como os moços da TFP – Tradição, Família e Propriedade que nos atormentavam nos faróis, em tempos idos, contra o “dragão do comunismo”. Há pessoas que identificam militância com o MST e, imaginam que, de uma hora para outra, centenas de simpatizantes virão tomar as suas propriedade, adquiridas com muito suor e lágrimas.
     Militância não pode e não deve ter essa leitura. O não militante está sempre disposto a abdicar das suas posições para não perder o emprego, para conseguir clientes, para ser aceito em um grupo do qual possa extrair vantagens. O não militante tem uma ética muito particular: busca estar de bem com a maioria e, especialmente, com os que detêm o poder.
     O militante está interessado não apenas na grande descoberta, mas no impacto que ela possa acarretar para a sociedade. Ele contextualiza, ele busca perceber além do fato em si e não adota, nunca, uma posição ingênua. É cético, por excelência, porque admite que não existe verdade imutável, como tem aprendido, ao longo da sua vida, com a história da ciência. Ele separa os cientistas do bem dos cientistas do mal, principalmente daqueles com suas teorias revolucionárias.
     Talvez seja mais fácil não ter posição, submeter-se ao poder, fingir que nada vê e nada ouve. Mas essa postura encerra uma armadilha perigosa. Quem perde a dignidade, não serve pra coisa alguma. No fundo, os empresários inescrupulosos, os poderosos, os patrões autoritários, os governantes, respeitam mesmo os que militam. Por isso, empenham-se tanto em destruí-los. Em cooptá-los. O não militante é como um outdoor velho, perdido na paisagem. Ninguém liga pra ele, embora ocupe espaço. É apenas um nome a mais na folha de pagamento. Um dia, pela sua absoluta inutilidade, será descartada. Militantes não são fáceis de substituir, mas gente sem coragem e sem caráter se encontra em qualquer esquina.


Dejair Soares é ex-diretor da extinta Fema (hoje Sema), publicitário e gestor público em Cuiabá

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