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Sábado, 04 de Agosto de 2007, 07h:20 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Tolerância zero

     Ainda estamos nas chamas da catástrofe de Congonhas.
     É que estou tomado de um profundo sentimento de pesar ao comandante Kleyber Lima, porque, como dizem na linguagem jurídica sobre o Supremo Tribunal Federal, ele teve o destino de errar por último, ou de não errar por último.
     Um provérbio latino, citado por Diógenes Laércio na "Vida e Opiniões dos Filósofos Ilustres", diz que "de mortuis nil nisi bonum" (dos mortos só se deve dizer o bem), mas no caso do comandante do vôo 3054 só se tem dito ser ele o responsável, ignorando-se todas as outras responsabilidades e convergências. Era um profissional competente, com milhares de horas de vôo e suas dramáticas palavras finais mostram o seu desespero e responsabilidade profissional. A frase do co-piloto, Henrique Di Sacco, "vira, vira, vira", é interpretada como uma ordem para manter o avião na pista ou fazer um chamado "cavalo-de-pau", isto é, rodopiar. Mas ninguém aventou a hipótese de ter sido um desejo de salvar vidas e cair fora dos prédios que cresciam à sua frente. Eles pensavam nas outras vidas, já que as suas estavam perdidas.
     É um lugar-comum repetir que todo acidente é uma conjugação de fatores negativos que se juntam para o desfecho final. Assim como todas as coisas. Só que nessas o final é exatamente o contrário do desejado. Há que recordar, em primeiro lugar, o porta-aviões que é Congonhas, que em vez de ser cercado de água por todos os lados é cercado de casas, edifícios, avenidas, praças, gentes em vez de peixes. Isso torna crítica toda operação ali realizada, em que não se pode errar sem conseqüências.      Estar chovendo acrescenta à pista pequena e mal localizada mais um fator de risco. Por último, e não por isso menor, o estar o avião com um dos reversos em pane, sem poder funcionar. Estresse de quem comanda um avião nessas situações certamente deve ocorrer e, se suas mãos hábeis se embaralham no empurra e recua dos manetes, não lhe dão o crédito de todos os erros. Some-se a tudo isso a crise que vivemos, dos equipamentos insuficientes, dos controladores incontroláveis, do desaparecimento das velhas e experientes companhias -Varig, Vasp e Transbrasil- e essa conjunção de circunstâncias nos leva a pensar nesse acidente terrível que levou tantas vidas e deixou sofrendo tantas famílias, com as quais choramos juntos e às quais devemos consolar na dor. Foi tão brutal essa tragédia que invadiu nossas casas e corações, mantendo até hoje nossa perplexidade.
     Que as autoridades não vacilem na investigação mais dura e competente que tiverem de fazer e tenham tolerância zero. Está na moda dizer "cansei". Nunca devemos cansar para combater essas coisas. Melhor não desistir.


José Sarney escreve na Folha de S.Paulo nesta coluna (jose-sarney@uol.com.br)


 

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