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Segunda-Feira, 23 de Julho de 2007, 09h:33 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

Artigo

Tragédia e deboche

     O conceito de que irresponsabilidade tem limite foi obra do processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso. Numa gravação, sempre graças a elas, o então ministro Mendonça de Barros alertava de que estavam passando do limite da irresponsabilidade num conchavo para beneficiar um concorrente. Também no primeiro mandato de FHC ocorreu o acidente do Fokker Cem da TAM que matou quase uma centena de pessoas.
     Como sempre foi do costume brasileiro, o presidente apresentou o prognóstico de que o problema estaria na área residencial no entrono do aeroporto, o que me forçou a escrever um artigo intitulado “Depois”. As providências verbais, e somente verbais, só aparecem depois das catástrofes e que nunca resultam mais do que palavras vãs.
     No jargão presidencial, nunca neste país aconteceu tanta desordem no sistema aéreo brasileiro. Antes, era a única maravilha de primeiro mundo de que este país dispunha; as autoridades não cansavam de alardear.
     O acidente da TAM em setembro de 2006 demonstrou que apenas se tratava de uma falsa eficiência, que o governo nunca levou a sério, dando preferência em aumentar o valor da gratificação e o número de cargos comissionados a investir no país em todas as áreas. Reformou o espaço físico dos aeroportos ao custo de corrupção desenfreada. Depois do acidente, a chuva, o vento, a neblina, os aparelhos de ferro velho, os pássaros, passaram a ser culpados pelos fechamentos. Hoje, gasta-se menos tempo para se chegar ao Rio de Janeiro a pé do que de avião.
     As mentiras e a negligência continuaram até resultarem na fogueira de inquisição coletiva de terça-feira, 17 de julho corrente. E o jogo de empurra-empurra continuou. Mais importante do que as vidas pedidas era saber quem era menos culpado.
     Primeiro, foi demonstração de vigarice de uma informação de que se tratava de um problema em uma aeronave de pequeno porte, que, por esta ótica, seria normalíssimo se fossem poucas vidas perdidas. E como se fosse uma defesa prévia, tão comum, quanto comum são as críticas às condenações antecipadas.
     Depois, as várias ilações do que teria causado o acidente, junto com a demora irresponsável de não revelar o nome dos passageiros, que crescia a cada nova informação, a cada instante. Restou cristalinamente claro que nem na aviação brasileira se tem o cuidado de saber quantos estão numa aeronave. Um terrorista poderia estar lá sem conhecimento de quem deveria ter a responsabilidade de saber, já que responsabilidade definitivamente é o que não está existindo nem por parte do governo nem das empresas.
     Mais de duzentas pessoas, e poderia ser apenas uma, não evitaram a comemoração chula, chinfrim, boçal, do assessor especial da presidência da República, Marco Aurélio Garcia, apenas porque se noticiou a hipótese (hipótese!) do acidente ter decorrido de uma falha mecânica. Com autoridades desse quilate, a bizarrice é o patamar brasileiro de seriedade, para ser ameno.
     Depois de duas centenas de pessoas torradas vivas, sabe-se agora que a aeronave não tinha um reversor, que segundo alguns especialistas, não fazia falta. Fica a sugestão para que as empresas expeçam um manual do que tem e é necessário numa aeronave. Recomenda-se aos mais cuidadosos que perguntem se aeronave tem e precisa de freios. Noticia-se agora que a mesma aeronave apresentou alguns defeitos dias antes, que vários pilotos alertavam para os riscos da pista, que vários aviões derrapara. No dia anterior, um rodou até parar num gramado. Tudo, absolutamente tudo, mera coincidência irrelevante, segundo as pessoas envolvidas.
     De mediato, as famílias e as pessoas deveriam se reunir em frente ao Palácio do Planalto e externar sua posição para o Brasil ouvir. Do presidente da República, por demais atrasada, seria a demissão da cúpula governamental de cima abaixo, por permitir que se gaste milhões numa reforma, e se entregue uma pista sem umas ranhuras, cuja falta pode ter sido o causador do maior acidente brasileiro. Repita-se: a falta de umas riscas numa pista pode ter tirado mais de duzentas vidas a mil graus centígrados de temperatura. O Ministério Público deveria requerer o afastamento dos irresponsáveis dirigentes pela óbvia e cristalina certeza de que avião não pode voar com defeito. Mesmo que, no caso específico, nenhum destes defeitos tenham contribuído para o incidente.
    A pergunta, até quando, capa da revista Veja desta semana não tem uma resposta, poderia ter várias. Até quando o brasileiro não puder fazer mais do que reclamar através da mídia, que, diga-se de passagem, tem um viés autoritário de condenar toda manifestação contrária às autoridades. No sentido inverso, mesmo ao preço de lanches e transporte grátis, as bajulações são sempre bem-vindas. Outro “até quando”, seria enquanto pessoas no Brasil forem vistas apenas como números, que, como os da TAM, geralmente são falsos. O mais provável e principal seria o “até quando” aumentarem os acidentes aéreos até ser normal morrerem somente duzentas pessoas por mês, assim como os repórteres de trânsito falam em quilômetros de congestionamento “normal”  para o horário.
     Quanto ao risco da área ser povoada, são as próprias autoridades que deixam construir no entorno, mas ainda pela visão governamental de  números, o risco é mínimo, já que nos desertos rurais os sem-terras assinados são dezenas de vezes mais do que as mortes dos terrestres nestes acidentes.
     Já com base na sua própria explicação, como se houvesse, Marco Aurélio Garcia, onde ele tivesse certeza que não correria o risco da gravação “clandestina” da imprensa, abriria um champanha, mesmo que sobre as brasas ou cinzas de duas centenas de pessoas, desde que a culpa não fosse do governo. Isso é que é ser um assessor especial!

 Pedro Cardoso da Costa é Bel. Direito e reside em Interlagos/SP

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