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Quinta-Feira, 16 de Agosto de 2007, 11h:51 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:16

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Tributo a Dom Máximo, maior referência histórica de Cáceres

  Singelo Tributo a Dom Máximo Biennés

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita

Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.

(Fernando Pessoa)

  Ficamos menores.
Ao perdermos Dom Maximo Biennès não perdemos apenas um amigo, uma consciência, ou nossa maior referência. Perdemos consistência. Com Dom Maximo não morrem os sonhos, que ele ajudou a parir e dar forma, mas morre uma parte de nós mesmos com a ausência da memória viva que nele se mantinha. Memória de todos nós.

  Foi testemunha ativa de um tempo de transformações profundas. Em sua trajetória experimentou extremos: dos horrores da II Grande Guerra na sua Europa natal à montagem do atual maquinário pan-óptico de reconfiguração das culturas e do poder.
Dom Maximo nasceu francês e se fez ameríndio mestiço, da mais castiça brasilidade no legado dos povos das distintas origens e tradições: migrantes do sul e do norte, negros, mulatos, bugres, índios, ribeirinhos, fronteiriços, nativos.

 Viveu dois mundos. Mas em ambos, mais do que catedrais, edificou razões e fortaleceu sentimentos para a experiência da fé. É nesse tempo que inspirou uma igreja a se fazer povo. Boas novas, outras roupas, velhas lutas no combate decidido ao arbítrio e à injustiça, na defesa dos vulneráveis e vulnerados.
Tempo da Igreja na estrada: CEBs em caminhada, organização no campo e na cidade. Pastorais, pastoreio da partilha. Institucionalização de espaços permanentes para construir a visibilidade dos ocultos, dar combate à tirania da violência, educar para a paz e os direitos humanos. Um período em que, além de ouvir a Igreja, também assegurava vozes e espaços a que deles careciam.

   
Suas lutas nunca foram a expressão solitária de algum desejo pessoal. Sem negar coragem, compaixão e engajamento, suas lutas se expressavam na palavra lúcida, no gesto destemido e no ritmo incansável de trabalho, no semblante, na eventual sisudez e no permanente e terno sorriso. Como missionário anunciou Deus, dignidade e justiça; como apóstolo denunciou as crueldades contra seu povo e pugnou a seu lado. “Nas pegadas de São Francisco”, caminhou o bom caminho e combateu o bom combate.

   Promotor de saberes, relações e convívios, ancorado numa visão humana e numa prática assídua de conhecimento, Dom Maximo foi a verdadeira pedra fundamental da Universidade do Estado de Mato Grosso, a Unemat. O fundador, o professor de Latim, o apoio irrestrito nas lutas históricas pela sua consolidação e pela sua expansão. Ainda que imobilizado pela doença e pelas dores físicas, Dom Maximo nunca parou de gerar riquezas imortais.

   No legado dos livros que produziu, trabalhando até à véspera de sua morte, está eternizada a história de nossa gente, de nossas terras, de nossas lutas, de nossas alegrias e sofrimentos, de nossas esperanças, de nosso trabalho, de nossos benfeitores. Uma memória da qual ele foi não apenas testemunha presencial, mas protagonista. O preceito cristão da doação da vida pelo irmão tem nesse homem sua expressão plena.

    Na renúncia à riqueza material, à sua distante terra natal, ao convívio de sua família, e na entrega sem reservas à nossa gente, na doação por inteiro de sua juventude, seu vigor, sua beleza, sua inteligência e sua fé, sua existência enfim, nosso amigo querido respondeu e correspondeu exemplarmente à sua vocação franciscana. Em um mundo tão carente de Franciscos...Dom Maximo Biennès faz jus à inspiração do poeta: Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Autores:
Carlos Alberto Reyes Maldonado
Dimas Santana Souza Neves
Leila Salomão Jacob Bisinoto

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