Últimas

Sábado, 10 de Fevereiro de 2007, 06h:32 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Tucanos e araras, adeus às ilusões

  O professor e consultor político Gaudêncio Torquato, em artigo publicado neste sábado (10) em A Gazeta comenta sobre inovação na política. Confira reprodução abaixo.

     O conceito de renovação volta a dominar o ambiente político, sob o império de palavras de ordem como dignidade, independência e transparência do Poder Legislativo. Na prática, esse discurso deveria gerar controle ético da atividade parlamentar, maior rigor na aplicação do estatuto da cassação, contenção de medidas provisórias, menor subordinação ao Executivo e compromissos com reformas. No âmbito partidário, o termo renovação tem isso usado para defender comandos novos nas siglas e descentralização das instâncias de poder. Renovar, porém, não é apenas isso. O que oxigena a vida político-institucional sua razão precípua é a concepção doutrinária dos atores. Somente um ideário evita que a política se torne cavalo para montaria de oportunistas. No Brasil, infelizmente, é isso que acontece. Nos países europeus, de sólida tradição democrática, os partidos desenvolvem intensa polêmica sobre o controle social do mercado, a função social da propriedade privada, a eficiência do Estado e os custos para manutenção da rede social. Aqui, esta discussão é acessória.

    Deixando de lado a base governista, cuja propensão para formar uma corte de bajuladores em torno do Executivo faz parte do modus operandi parlamentar, vejamos como o PSDB e o PFL, por exemplo, se propõem a fazer oposição. A fraseologia de renovação adotada por ambos é clara: pretendem promover novos líderes (pefelistas), descentralizar o processo de decisões e o sistema de eleições primárias (tucanos), atos que mais dizem respeito à maneira de operar (forma) do que a uma plataforma (fundo). Como tratarão os fatores para equilibrar a equação liberdade política + igualdade social + crescimento econômico, que compõem a questão central? A resposta exigirá de cada partido uma reengenharia para resgatar a identidade. Olhe-se para o PT: chegou onde chegou porque vendeu idéias. Hoje, sem programa, é um aglomerado capenga, com poder de fogo porque usa como bengala o distributivismo do governo. Mire-se o PSDB, que forjou sua social-democracia a partir de uma visão atualizada da sociedade. Atualmente, está na gôndola da geléia geral.

    E o PFL? Prima por exibir traçado mais harmônico entre os grandes partidos. Mas não é mudando o nome para Partido Democrata que sensibilizará as massas. Para garantir o futuro precisa explicar como promover a combinação de uma economia de cunho eminentemente liberal com o Estado de Bem-Estar Social. Até poderá relembrar a bandeira liberal, elevada após o fim da guerra fria, quando os governos europeus ocidentais foram motivados a deixar de lado a visão keynesiana do Estado interventor na economia. Como ocorreu com a social-democracia comandada por Felipe González, durante 12 anos, na Espanha, que aplicou rígido controle de contas, salários e preços. Na frente de combate ao desemprego, o modelo espanhol, citado recentemente por Tasso Jereissati como exemplo para o tucanato, desenvolveu amplo programa, cuja base foi a flexibilização das leis trabalhistas, responsável pela queda do desemprego, que era de 24%, há dez anos, para os atuais 8%. O que permitiu a contratação de quase 3 milhões de trabalhadores temporários. Em nossa República sindicalista, essa estratégia é vista como coisa do diabo.

   Mas a globalização acirrou a competição por investimentos.. Por isso, o braço do Estado das democracias foi forçado a apertar a mão de economias interdependentes. Depois de exumarem o cadáver do socialismo clássico, os governos se esforçam, hoje, para consolidar os eixos de uma social-democracia que, apesar de multiplicada nos quadrantes mundiais, carece de ajuste nos botões do crescimento econômico, de políticas distributivistas, de programas de emprego e de cortes nos gastos públicos. Se a crise na política é universal, no Brasil ganha dimensões gigantescas, porque a nossa cultura funciona como indutora do caos.

  O arrazoado tem o único propósito de argumentar sobre o zero absoluto que aguarda tucanos e araras (pefelistas podem ser assim designados em função da exuberante plumagem da espécie), caso não consigam recompor o legado perdido. Como fazer oposição apenas com o discurso inócuo contra a ordem do dia do governo, como o recente PACote, deixando de lado questões transcendentais, como as reformas prioritárias para o desenvolvimento auto-sustentado? Como se pode acreditar que o importante é o PSDB compor uma chapa puro-sangue, com Serra e Aécio, para 2010, priorizando o fulanismo em detrimento das idéias ou sentir o cheiro das ruas, porém sem ter o que pregar? Tucanos e araras deveriam, isso sim, promover uma convenção na floresta. Conviria ouvir um coro de cantos ensaiado por Marco Maciel, Fernando Henrique Cardoso, Jorge Bornhausen, José Serra, Antônio Carlos Magalhães, Aécio Neves, Cláudio Lembo, Tasso Jereissati, José Agripino, Arthur Virgílio, Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin, para citar as aves de plumagem mais vistosa. Seria útil que PSDB e PFL (ou PD?) arrumassem o que dizer ao eleitorado. Se não o fizerem, podem dar adeus às ilusões. O rolo compressor do governo esmagará o oposicionismo sem lastro.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e escreve em A Gazeta aos sábados

Postar um novo comentário

Comentários

  • Comente esta notícia

Máquinas para reciclar garrafas pets

maquina 400 curtinha   Sob iniciativa da secretaria de Inovação e Comunicação da Capital, dentro dos projetos que buscam a sustentabilidade, a prefeitura vai colocar máquinas de reciclagem de garrafas pets em 15 pontos da cidade e com possibilidade de ampliar os locais de recolhimento. Em troca, o cidadão...

4 fora da reeleição em Rondonópolis

jailton 400 vereador curtinha   Em Rondonópolis, quatro dos 21 vereadores não devem ir à reeleição, sendo eles Thiago Muniz (DEM), Rodrigo da Zaeli (PSDB), Hélio Pichioni (PSD) e Jailton do Pesque e Pague (foto), do PSDB. Thiago e Rodrigo têm esperanças de concorrer a...

Prefeito apoia vice à briga em Cáceres

eliene liberato 400 curtinha   Francis Maris vai mesmo declarar apoio oficial à pré-candidatura da empresária Eliene Liberato à sucessão em Cáceres. Em público, o prefeito faz mistério para não contrariar outros pretensos candidatos do grupo e que têm esperanças de receber...

Preparando um dos aliados a federal

mauro carvalho 400 curtinha   Embora não comente publicamente, o governador Mauro Mendes está "costurando" acordos políticos com líderes mais próximos, visando não só o pleito de 2020, mas também às eleições gerais de 2022. Em época de busca de projetos e de...

Salvando 1º ano de mandato no cargo

selma arruda 400 curtinha   Embora "sangrando" e com a imagem arranhada, a juíza aposentada e senadora cassada pelo TRE-MT Selma Arruda, que trocou o PSL pelo Podemos, consegue concluir este primeiro de oito anos de mandato. E vai se licenciar nos próximos dias para ceder espaço aquele que financiou a sua campanha,...

Barbudo é menos empreguista de MT

nelson barbudo 400 curtinha   Dos oito deputados federais de MT, o estreante Nelson Barbudo (foto) é o menos "empreguista". Nestes 10 primeiros meses de mandato, ele nomeou no gabinete em Brasília e no escritório político em Cuiabá apenas 15 assessores. Cada gabinete pode ter até 25 secretários...

ENQUETE

facebook whatsapp twitter email

Como você avalia a decisão do Supremo de suspender prisão imediata após julgamento em segunda instância?

Concordo

Discordo

Tanto faz

Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.