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Domingo, 11 de Março de 2007, 09h:01 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Tudo está normal

   O articulista de Veja escreve na edição desta semana que 'a crise brasileira se deve ao excesso de normalidade. Confira reprodução do artigo abaixo.

    Examinando-se o mundo oficial, em que as autoridades habitam, descobre-se que a crise brasileira se deve ao excesso de normalidade. Para as autoridades, como que descoladas da realidade, tudo soa normal, natural, admissível. Pode parecer exagero, mas confira alguns fatos divulgados na semana passada:

   • Noticiou-se o tamanho do descalabro nas escolas públicas de São Paulo. Fora onze escolas técnicas e uma instituição ligada à Universidade de São Paulo, todas as 621 escolas foram reprovadas no Exame Nacional do Ensino Médio. Em prova valendo 100 pontos, nenhuma escola, do centro ou da periferia, chegou aos 50. Um vexame. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a coordenadora Maria Kuriki, da Secretaria de Educação, revelou-se encantada com a uniformidade do resultado. "É um ponto bastante positivo. Mostra que não há discriminação contra escolas de áreas periféricas." Ou seja: um vexame normal, positivo. (Depois apareceu a secretária de Educação, Maria Lucia Vasconcelos, para consertar e dizer que era tudo "alarmante, triste".)

   • Ficou decidido que 800 desembargadores, distribuídos por quatro estados, estão autorizados a ganhar mais do que os 24.500 reais pagos aos ministros do Supremo Tribunal Federal. O rastilho da pólvora andou. Primeiro, os desembargadores podiam ganhar até 22.000 reais. Era o teto. Depois, decidiu-se que podiam embolsar o mesmo que os ministros do STF, os tais 24.500 reais. Agora, ficou estabelecido que podem ganhar ainda mais. É a ciranda de sempre. Cria-se um teto, depois um fura-teto, que vira teto, que será furado em seguida, e assim por diante. Tudo normal. O presidente do Tribunal de Justiça paulista, Celso Limongi, comemorou: "Foi uma decisão razoável".

    • Um levantamento publicado também pela Folha de S.Paulo mostra que 52 deputados empregam, juntos, pelo menos 68 parentes como assessores. Ganham salários que variam de 700 a 8.000 reais. Na maior parte dos casos, o contratado é o filho, mas tem de tudo: mulher, irmão, sobrinho, cunhado. Isso também é normal. Eis o que disse ao jornal o deputado Átila Lins, do PMDB do Amazonas, que emprega dois filhos. "Enquanto houver possibilidade, estou dando oportunidade a eles. Depois que for proibido, tudo bem." Nepotismo também é normal.

    • Diante da informação de que os gastos públicos com a organização do Pan no Rio de Janeiro superaram em quase 700% as previsões iniciais, num estouro financeiro tão fenomenal quanto suspeito, o presidente Lula disse o seguinte: "Se houve excesso, pode discutir, pode o Tribunal de Contas investigar, pode qualquer coisa". Nisso, Lula disse uma verdade. No mundo oficial, realmente "pode qualquer coisa".

   • O pior de tudo, e o pior está acontecendo, é o país achar normal a imagem de Edna Ezequiel, a mãe que chora, numa impressionante simbiose de dor e revolta, a morte da filha de 12 anos, colhida por uma bala perdida no Morro dos Macacos, Vila Isabel, Rio de Janeiro, Brasil. Chora com uma bandeira do Brasil na pulseira. A foto é de Marcos Tristão, da Agência O Globo. É inesquecível. E normal.

André Petry

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