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Domingo, 06 de Maio de 2007, 11h:35 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:15

Artigo

Uma terra vasta

"A vida é uma terra bem mais vasta do que as vastas regiões do Brasil, onde tanto se perde sem necessidade"

    Mato Grosso era um estado do meu país que eu não tinha visitado ainda: o chamado do afeto, de um de meus filhos e de sua família, me levou para lá. Afetos transformam em alegria qualquer viagem, e minha visita já estava atrasada. Sem tropeços maiores nesta fase em que atraso de uma hora em aeroporto é considerado vantagem, chegamos a Cuiabá, onde nos esperava um carro confortável com excelente motorista. Seguimos até Rondonópolis, a uns 400 quilômetros, o que, descobri depois, nessas paragens é distância pequena.
     E compreendi também quanto somos vítimas de descuido, desinteresse e malandragem no que diz respeito aos transportes, ao escoamento da produção ou matérias-primas (isto é, crescimento e riqueza) e, mais que tudo, à segurança da nossa vida e das pessoas amadas. Assim como andar pelas nossas ruas, trafegar por este país é risco de vida – alargar e manter estradas é questão de segurança, além de tudo.
      O que para mim era matéria de jornal e televisão, e já me espantava, desta vez me tocou na carne: uma estrada asfaltada em situação inimaginavelmente ruim, filas enormes de carretas transportando riquezas numa lentidão incrível, sacrifício dos envolvidos nessa circulação de bens e de vidas.
     Sem manutenção, sem duplicação, nossas estradas (essenciais porque por aqui não se acredita em ferrovia, e mudar uma pedrinha num rio para facilitar a navegação provoca a fúria de ambientalistas exagerados) simbolizam um desinteresse pelo bem-estar e pelo progresso só explicado por interesses escusos e grave incompetência, além da velha corrupção, que nesta nossa pátria não se pune, mas se recompensa.
     Se o transporte de vidas e bens fosse apenas razoável, já seríamos um país muito mais rico; sobraria dinheiro para saúde, educação, moradia. Ninguém pensaria em PACs variados, delirantes ou sensatos. Cuidar dos interesses do povo seria natural e fácil.
     Por que não se age assim? Por que de um lado esse abandono burro e criminoso e de outro a invenção de tantos projetos complicados que em geral não levam a nada? Enigma. Então, na hora de escrever esta coluna, me ocorreu que também nós precisaríamos de uma urgente e séria revisão sobre o tráfego de bens em nossa vida pessoal, em nosso interior: dons que o destino concede, como afetos, projetos, autoconhecimento, sentido de vida, crescimento. Investimento na alma. Caminhos travados por desinteresse, ignorância ou pouco amor à vida produzem afetos frustrados, escolhas tortas ou eternamente adiadas. Caímos nos buracos de nossas neuroses silenciosas, isolados por pontes precárias que não permitem bons relacionamentos. Vivemos em estado de desperdício: não de produtos agrícolas ou outros bens, mas desperdício de vida, de sonho, de realização, de solidariedade e alegria.
      Se a vida é uma viagem com origem e destino nebulosos, a falta de visão, de interesse e aplicações emocionais e racionais nas vias de passagem determinarão a qualidade dessa aventura que é existir numa terra vasta, com paisagens surpreendentes, ameaças e armadilhas, mas também dádivas nem imaginadas. Não somos grande coisa como viajantes nesse sentido, mas podíamos melhorar. Podíamos analisar, ver, descobrir. Podíamos ser mais honestos e abertos, menos corrompidos por mediocridade e covardia. Podíamos ser mais corajosos e mais benevolentes conosco e com os outros, inventando rotas mais compensadoras para nossa dedicação.
      Mas, como as autoridades que se desinteressam ou usam de maneira espúria o dinheiro que poderiam dedicar à circulação de riquezas por estas terras, nós muitas vezes botamos fora nossas melhores possibilidades.
      A vida é uma terra bem mais vasta do que as vastas regiões do Brasil, onde tanto se perde sem necessidade: mas nela não dependemos de governos nem de políticos, nela cada um de nós pode consertar estradas e povoar espaços. Um terreninho precário há de virar uma extensão rica, bela, produtiva, onde se produzem e trocam criatividade, solidariedade, afeto, espiritualidade – que é noção do transcendente, respeito ao sagrado, e escuta do misterioso em que estamos, afinal, enraizados.
     Mas somos muitas vezes péssimos administradores e políticos fajutos: em lugar de investir, roubamos; em lugar de cuidar, negligenciamos; em lugar de curtir, botamos fora o bem da nossa alma – se é que ela ainda não virou deserto.

Lya Luft é escritora

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