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Segunda-Feira, 22 de Dezembro de 2008, 17h:21 | Atualizado: 26/12/2010, 12h:22

Artigo

Varrendo as sacolinhas pra debaixo do tapete

   Esta semana a Câmara Municipal de Rondonópolis, aprovou projeto de lei que normatiza a utilização de sacolas plásticas oxi-biodegradáveis pelo comércio de Rondonópolis. Que me desculpem os nobres parlamentares, mas o projeto não é o mais indicado para proteger o meio ambiente e muito pelo contrário pode tornar-se mais um problema ambiental. Seria muito oportuno que o Prefeito vetasse tal projeto para que fosse melhor discutido pela sociedade. O assunto é controverso e não faltam especialistas para defender os dois lados da questão.

   Os plásticos “oxi-biodegradáveis” são produzidos através da inclusão de aditivos químicos aos componentes normais dos plásticos fazendo com que o plástico se esfarele algum tempo depois de sua fabricação.

   Uma das grandes mentiras do assunto é a própria qualidade que se apregoa ao produto. Usando-se a palavra “biodegradável” de forma incorreta, se tenta convencer a população que estes plásticos poderiam ser absorvidos pela natureza em tempo reduzido.  Mas não é isso que acontece. A Biodegradação é a degradação do produto por atividades biológicas de ocorrência natural, transformando o produto em biomassa, CO2 e água, ou seja, são consumidos por fungos, bactérias ou algas como forma de gerar energia para estes. Já a oxi-degradação é a degradação do produto (grandes moléculas quebradas em moléculas menores ou fragmentos) devido a oxidação, que neste caso é obtida com auxílio do aditivo, um catalisador químico que contém na sua formulação, alguns metais, como cobalto, manganês, ferro e zinco.

   Portanto este produto deveria se qualificar como oxi-degradável. Ele apenas esfarela o plástico. O plástico em si continuará no local e seus componentes não são biodegradáveis. Em Matéria publicada na revista de pesquisa da FAPESP e na revista Polymer Engineering and Science, uma das mais conceituadas na área de polímeros, “o engenheiro de materiais Guilherme J. M. Fechine, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, realizou uma bateria de testes com um tipo de plástico oxibiodegradável vendido no mercado nacional e constatou que, apesar de ele se fragmentar e virar pó, não é consumido por fungos, bactérias, protozoários e outros microorganismos – condição necessária para ser considerado biodegradável e desaparecer do solo ou da água.” Arnold Schwarzenegger, famoso governador da Califórnia, também vetou a utilização deste tipo de plástico, após estudo conduzido pelo professor Joseph Greene na Universidade Estadual da Califórnia, que verificou que os plásticos conhecidos como oxibiodegradáveis não se decompõem em nenhum ambiente. Aqui no Brasil, os governos do estado e do município de São Paulo também vetaram sua utilização.

    Mas o que ocorre realmente com estes plásticos? O aditivo inserido no plástico das sacolinhas ajuda a fragmentar o plástico quando ele estiver em contato com o calor, umidade e luz solar. Pulverizando desta forma aquelas sacolas que forem dispostas (irregularmente) no meio ambiente, ou seja, jogadas em qualquer lugar, como infelizmente vemos com freqüência, produzirão uma “poluição invisível” e solto no meio ambiente com certeza este plástico farelado será arrastado pelo vento, podendo ser ingeridos pelos animais (inclusive o homem). Também será arrastado pelas chuvas, caindo em corpos d’água, onde aumentará a DBO e DQO destas águas, elevando em muito a poluição das águas. Se na água houver partículas plásticas em suspensão, os peixes que filtram a água para retirar o oxigênio, irão ingeri-las, ingerindo junto os pigmentos de tintas, metais e outros produtos químicos, e vão ficar contaminados, contaminando também quem os comer. 

   Mas a grande jogada comercial deste produto é o seguinte: Ilude-se a sociedade divulgando-se que o produto é biodegradável, pessoas que acham que estão ajudando a natureza, fazem leis e o produto adentra o mercado. De cara abre-se um mercado enorme para as multinacionais fabricantes do produto, aumentando-se os custos, pois este material é em média 10% mais caro do que as sacolinhas que hoje são dadas “de graça” nos supermercados. A dona de casa que chegava com suas sacolinhas e guardava pra colocar seu lixo dentro, não vai mais poder fazer isso, porque dentro de pouco tempo as sacolas vão esfarelar e sua casa vai ter pedacinhos de plástico para todo lado. Ela vai ter que voltar no mercado e COMPRAR MAIS sacos plásticos pra colocar seu lixo. Ou seja, os fabricantes de plásticos vão ficar mais ricos do que já são e o meio ambiente vai ter MAIS plásticos do que antes. Além disso, estas sacolinhas, não poderão mais ser recicladas e se forem, contaminarão os outros plásticos, prejudicando o setor de reciclagem. Nas usinas de geração de energia com resíduos (incineradores) também não poderão ser usadas, pois em forma de pó será de difícil manejo.

   Deixo claro que não defendo as sacolinhas plásticas. Elas são muito poluentes. Sua total degradação pode levar até mil anos, pois os organismos que as decompõem são pouco numerosos no solo. As tecnologias ambientalmente corretas são aquelas que substituem as antigas, eliminando ou reduzindo o impacto ambiental. Se aumentarem este impacto, não tem sentido serem implantadas. Com certeza os plásticos são um mal necessário à nossa sociedade. Produzimos coisas fantásticas e coisas inúteis com ele. Mas a solução passa pelo aumento da consciência ambiental da população, buscando a REDUÇÃO do uso de sacolinhas plásticas, a sua reutilização (através da fabricação de sacolas mais fortes para uso futuro – ou mesmo para colocar lixo dentro) e a utilização de sacolas de material realmente biodegradável e de preferência reutilizáveis. Já percebeu quantas sacolinhas a menos você poderia trazer do mercado? Quantas vêm cheias pela metade?

   Já há tecnologia NACIONAL para a produção de plásticos totalmente e REALMENTE BIODEGRADÁVEIS, que são feitas de diversos materiais como o amido de mandioca, milho ou batata, proteínas, celulose e óleos vegetais. Estes sim, como são orgânicos, se deterioram pela ação de microorganismos em contato com o solo em um período de 40 a 120 dias. Há também a tecnologia desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), que usa cana de açúcar para produção do bioplástico. Estas são nacionais e ambientalmente corretas, pois reduzem realmente o impacto ambiental da produção de plásticos e seu destino final. Porém, infelizmente ainda são tecnologias que não entraram em uso comercial.

   Mais uma vez se tenta enganar a sociedade levando-a a acreditar em mentiras, para que se aumentem os lucros de determinados setores industriais, escravizando ainda mais a população a custos financeiros desnecessários e o meio ambiente a mais um grande impacto negativo. É simplesmente uma ação mercadológica travestida de ambiental que visa aumentar o consumo de plásticos e que se dane o meio ambiente.  

   Se Rondonópolis realmente optar pela utilização das sacolinhas de plástico oxi-biodegradáveis estaremos dando um passo atrás na preservação do meio ambiente. Estaremos aumentando o impacto ambiental das sacolinhas e varrendo o lixo pra debaixo do tapete em vez de realmente resolver a situação de maneira inteligente e sensata.

Paulo José F. Santos é engenheiro agrônomo especializado em educação ambiental e representante da ARPA no Conselho Estadual do Meio Ambiente – CONSEMA.

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Comentários (3)

  • Luciano Ferreira de Morais Sobrinho | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    Muito boa a explicação do Paulo José F. Santos, afinal tudo é feito, tramado para enganar as pessoas e as indústrias químicas cada vez faturarem mais, o bom mesmo era que todos levassem uma sacola de pano para o supermercado...
    Como entrar em contato com o Paulo José F. Santos ? Ele devia ter sido chamado na Câmara para explicar aos vereadores, pois os mesmos afirmaram que as sacolas eram biodegradáveis e não prejudicariam o meio ambiente.

  • Anônimo | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
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    0

    Vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas.
    Queira, por gentileza, refazer o seu comentário.

  • pedro ananias | Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h00
    0
    0

    Que eu saiba, ARPA significa Associação Rondonopolitana de Proteção Ambiental. Pesquisem, pesquisem, se informem...

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